São curiosas as contradições da nossa cultura ocidental: cultivamos uma retórica da valorização da pessoa “íntegra”, e durante séculos assumimos uma clara divisão entre mente e corpo. Assim, enquanto a mente se elevava em teorias metafísicas, o corpo definhava submisso. Por outro lado, dizia-se que aos fracos o corpo comandava, e os condenava a viver à margem.
De meados do século XX para cá, revoluções culturais e científicas opuseram severas críticas a essas práticas, sugerindo uma saudável aproximação dos âmbitos mental e corporal, inaugurando uma nova compreensão de integridade, chamada holista ou complexa.
Ocorre que, embora as pessoas de um modo geral expressem o desejo dessa integridade em suas vidas, a esfera econômica e social teme profundamente essa transformação.
Na maioria das escolas pretende-se que um aluno passivo, sentado horas a fio diante de um transmissor de conteúdo (mal preparado, mal remunerado e amedrontado), venha a se tornar um profissional e cidadão consciente, realizado e feliz!
Nas empresas, onde se busca a rentabilidade máxima operacional, novamente as pessoas devem abrir mão da inteireza e, conforme o caso, dedicar toda a atenção da mente para resolver problemas, atender demandas, desenvolver raciocínios, criar mensagens; ou, então, minimizar suas necessidades mentais e desenvolver o corpo para a auto-superação, a exatidão e o aperfeiçoamento da técnica em nome da maior produtividade.
A dinâmica do novo, que se impõe na sociedade contemporânea, e que tem na inovação tecnológica e social um elemento-chave, enfrenta este grande desafio: recuperar a capacidade de contar com pessoas “por inteiro”, que guardem as tais características da integridade: honestidade, retidão de caráter, justiça, etc.
Significa que, para contar com pessoas envolvidas, motivadas, compromissadas com projetos coletivos (seja o liderado pela empresa, seja o comunitário), é preciso que usufruam de liberdade para pensar e realizar. A integridade ética é a contrapartida do reconhecimento da dignidade humana plena. Pessoas que se sabem respeitadas, num ambiente democrático e participativo, transparente, comprometido com valores, acessam essa liberdade. O potencial humano de transformação nesse modelo se expressa na capacidade de agir, de mobilizar, ousar, usando das percepções e da inteligência emocional.
Há uma mudança em curso, que é muito bem-vinda para a humanização do trabalho e para o comprometimento com a “polis”, seja ela compreendida nos termos tradicionais ou na sua versão mais ousada, a da cidadania ecológica planetária. Uma mudança que vem dar sustentação à aventura humana na Terra, um caminho para a sustentabilidade.
