Como vovó já dizia (um causo espanhol sobre o poder da internet)
04 de Dezembro de 2012

Como vovó já dizia (um causo espanhol sobre o poder da internet)

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Aconteceu na Espanha, país em que vivo há mais de cinco anos. O caso me despertou interesse e, creio eu, é digno de nota. Chamará a atenção, imagino, dos que trabalham com comunicação, em todas as suas vertentes. Vamos ver.

Mudar de opinião, ser essa metamorfose ambulante, é exercício saudável, embora muitas vezes árduo para quem como eu já passou dos quarenta. Há muito pouco tempo, ainda torcia o nariz para os gurus das redes sociais e dos blogs independentes, que alardeavam uma nova era no fluxo da informação. “O Facebook vai miar em poucos anos, como o Orkut”, pensava eu erroneamente. Pode até ser que a rede social mais popular da atualidade mie mesmo, mas certamente será substituída por outra semelhante, de igual ou maior alcance. Esse espaço já está aberto e não há caminho de volta. Propiciou a democratização da informação mais além das grandes corporações que controlam a mídia tradicional e decidem – ou decidiam – o que o mundo deve ou não saber e a partir de qual ponto de vista. Isso está acabando. Hoje eu também acredito na revolução. Mas vamos, enfim, aos fatos.

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Há cerca de um ano um programa de entrevistas espanhol, no estilo sensacionalista, de gosto pra lá de duvidoso e de grande popularidade, cometeu um erro. Seria algo sem maiores consequências há alguns anos, mas hoje, com a internet a serviço da população, significou um caos de grandes proporções não só ao programa, mas a toda a emissora. Dando nome aos bois: o programa se chama “La noria” e o canal é o Telecinco. A polêmica voltou à tona na semana passada, pelas páginas do jornal El País, o mais importante daqui.

Em 29 de outubro de 2011, “La noria” convocou para uma tarde de entrevistas a mãe do assassino confesso de uma jovem, crime ocorrido em 2009 em Sevilha. O corpo até hoje não foi encontrado, o que aumenta o drama em um país muito apegado aos ritos católicos. O criminoso, não se entende bem como, vem driblando a polícia todos esses anos e não revela onde estariam os restos da menina. O tal programa pagou à senhora 10 mil Euros para que ela desse as caras perante toda a Espanha. Acontece que a mulher – que afinal de contas e apesar de tudo é mãe – o que fez foi a todo momento defender seu rebento, como já era de se esperar. Dar voz a essa senhora em programa de grande audiência para proteger a um hediondo assassino confesso pegou mal. Muito mal. Para o dia do programa, claro, as vendas de publicidade foram de vento em popa. Estampar na telinha a geradora do monstrinho seria – e foi – garantia de enorme audiência.

Aí entraram em ação as redes sociais. Indignados com a postura taxada de cruel da Telecinco, os espanhóis começaram uma campanha contra essa iniciativa da emissora de faturar à custa de um crime bárbaro e do sofrimento de amigos e familiares da vítima. A grande sacada do movimento foi propor algo prático, e não somente fazer uma queixa vazia. De modo inteligente, internautas de todo o país estimularam a população a boicotar produtos dos anunciantes da Telecinco, o que realmente começou a acontecer. Em apenas duas semanas, “La noria” se viu sem anunciantes (o montante publicitário perdido equivalia a cerca de 3,7 milhões de Euros). E mexer com grana nesse nosso doce mundinho capitalista é pior que xingar a mãe. A emissora, claro, ficou mordida, mas bem mordida mesmo, e provavelmente se surpreendeu com a força do movimento convocado por blogs e redes sociais. Se você ainda duvida da internet, faça como eu: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. O negócio é andar pra frente porque atrás vem gente. E quem fica parado é poste, como vovó já dizia.

Tem mais. A Telecinco, toda poderosa, entrou com ação na justiça tendo como alvo principal o blogueiro Pablo Herreros, um dos mentores e estopins do movimento de boicote. E foi aí que a emissora entrou pelo cano pela segunda vez. Uma campanha que começou novamente na internet e foi parar até em mídias tradicionais defendia a Herreros e, claro, descia a lenha na Telecinco. A empresa televisiva teve então que engolir sua empáfia e retirar todas suas petições judiciais, pois sua imagem entre os espanhóis sofria deterioro tão virulento que a própria sobrevivência do canal chegou a estar em perigo. Os anunciantes fugiam mais e mais, receosos de atrelar à sua marca conceitos como crueldade, injustiça e falta de escrúpulos. A Telecinco, no fim das contas, segue viva, tentando reposicionar sua destroçada imagem, trabalho que levará anos. E “La noria” foi suspensa do ar durante um bom tempo. Que sirva de lição.

No Brasil, a dica é também estar alerta a potenciais aberrações televisivas. Lucianos Hucks da vida que se cuidem, assim como Big Brothers e tantos outros que poderíamos listar aqui. O Zé Povinho – e me incluo orgulhosamente nesse coletivo –, que sempre apanhou calado, agora pode falar e ser ouvido. Basta se organizar em torno de uma boa ideia e de propostas práticas e inteligentes. Reclamar por reclamar não surte efeito. Alguns fatores têm que ser articulados, como abordar tema de interesse relevante para um grupo representativo da sociedade, defender argumentos sólidos e bem dispostos e, principalmente, propor ações práticas para a resolução do problema ou reivindicação apresentada.

Profissionais de comunicação estariam, em teoria, mais aptos a acender essas chamas, mas qualquer pessoa de outra área – desde que seja cabeça-pensante – também tem o poder de fazer acontecer. Isso é o interessante. A possibilidade está ao alcance de todos os que têm acesso à internet, o que hoje em dia é muitíssima gente e a tendência é que seja cada vez mais. Importante: toda essa revolução passa necessariamente por habituar-se a ter visão crítica dos fatos, e não engolir tudo o que o William Bonner, só pra exemplificar, nos enfia goela abaixo todas as noites. Seguindo a lógica e concluindo: desenvolver visão crítica passa antes por educação, cultura, leitura. O que quero dizer é mais manjado do que andar pra frente, mas aí vai: um país que pensa evoluciona socialmente; um país de múmias paralíticas e sedadas por tanto lixo cultural e discursos jornalísticos encomendados não vai a lugar algum. Fica parado, que nem poste.

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