Quando Thomaz se encontra com Naomi
16 de Dezembro de 2011

Quando Thomaz se encontra com Naomi

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1. O rapaz é convidado para visitar a avó de um amigo. Na casa da senhora ele espera na sala enquanto o amigo conserta a pia da cozinha. Vovó lhe oferece, então, um pratinho de amendoim, que ele prontamente aceita. 

Enquanto aguarda, ele come gulosamente, e sem perceber, acaba com todo o conteúdo do prato. Aí, percebe o vexame: não teve a menor delicadeza de justificar aquela voracidade.
 
Aí, o amigo terminou o conserto e bateu ligeiro papo com a avó. Chegou a hora de ir embora. Momento em que, entendeu o jovem,  era propício para se justificar.
 
“Obrigado pelo amendoim, espero que a senhora não tenha se aborrecido, e me desculpe,  por eu ter comido tudo.”
 
“Não se preocupe, meu filho. De qualquer maneira eu não posso comê-los. Como eu perdi os dentes, só pude lambê-los.” (Diário de Minas)
 
2. Entre três mil e três mil e quinhentos produtores de alho deste país encontram-se em  grande dificuldade. A produção, que já atendeu a 90% das necessidades do país, caiu para 60%. E continua caindo.
 
“A terra é plana, imbecil”, diria Thomas L. Freidman, diante desse problema.
 
Mas o governo parece não ter entendido isso. Como diz a Anapa – Associação Nacional dos Produtores de Alho:
 
“A importação sem limites do alho chinês, nessa atual conjuntura, ainda que recolhidas todas as tarifas, é nociva para o mercado interno. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, houve um aumento no primeiro semestre desse ano de aproximadamente 100% das importações da China em relação ao mesmo período de 2006 e 2007.”
 
“Esse cenário é devastador, já que, se levarmos em conta o consumo médio nacional de alho e volume total das importações (China e Argentina), para o mercado brasileiro restou apenas 9% no primeiro semestre de 2008, o que é insignificante, pois a produção é muito maior que isso.”
 
“Em relação à importação ilegal, cabe mais uma vez destacar que alguns juízes federais e desembargadores concedem liminares para os importadores não recolherem o antidumping, o qual deveria ser recolhido justamente para evitar a concorrência desleal. Os argumentos utilizados não têm base legal, por isso que a União e a ANAPA, como parte interessada, já conseguiram cassar algumas liminares nos Tribunais.”
 
“O alho chinês com o atual câmbio fica de custo a R$ 14 reais a caixa, quando o nacional custa algo como R$ 25/caixa de 10 Kg. Com esse dólar barato, mesmo pagando todos os impostos o alho chinês chega ao atacado do Brasil a R$ 22,50/caixa. Se retirarmos o pagamento do antidumping, esse preço cai para aproximadamente R$ 14,00, já que o antidumping tem o valor fixo de US$ 5,20 por caixa de 10 Kg.”
 
“Há, ainda, a questão da triangulação (alho chinês enviado, por exemplo, para o Paraguai e depois para o Brasil) e da importação de alho in natura como se alho industrial fosse, tudo para evitar o recolhimento das taxas. Daí a necessidade de se fortalecer a fiscalização aduaneira. Nesse contexto, necessário se torna uma valorização no valor da pauta de importação para US$ 8 a 10/caixa. Hoje o valor gira em US$ 2,5 a 3.0 (e é sobre esse valor que incide os impostos do Brasil).”
 
O que me faz lembrar Naomi Klein, no  No Logo, escrito por ela. Nele, Naomi chama a atenção para o fato de que algumas multinacionais burlam legislações e se aproveitam da mão de obra  quase escrava para fazer seus produtos.
 
Neste caso, a multinacional se chama China. 
 
“Hoje o Brasil produz o melhor alho nobre roxo do mundo na região do cerrado. O grande problema do país é o alto custo de produção, como preços de insumos, mão de obra, impostos caríssimos. Assim perde competitividade nesse mercado globalizado, ainda mais com esse dólar,” diz a Anapa.
 
Trocando em miúdos, enquanto a China lambe o alho, enche-se de dinheiro e manda o que restou pra gente, aqui  a gente come a sobra.   

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