Depois de quatro anos e meio, Madri continua me surpreendendo. São duas da tarde. Acabo de almoçar e quero tomar um café em um lugar tranqüilo, folhear o jornal e rabiscar um novo artigo pro Acontecendo Aqui – este mesmo que você lê agora. Paro na frente de um barzinho e, ainda da rua, vejo através da porta de vidro um típico tiozinho espanhol atrás do balcão, na faixa dos cinqüenta, bigode e cabelos pretos. O lugar parece vazio. Ótimo. Entro. O tio está mesmo sozinho, e o mais inesperado para mim é que tá rolando um Credence no boteco. Eu estranho, porque a cultura daqui não é tão musical como a nossa, e nos bares, casas e restaurantes reina a televisão. O som tá baixinho, mansinho, mas tá lá. “Stop the rain”. Sento-me e peço o café. Em seguida começo a ouvir um barulhinho de chuva. Não é possível. O céu tava limpo faz cinco minutos. Mas o ruído não vem de fora, e sim de dentro. Tá entrando na radiola nada menos que “Raiders on the storm”, do Doors, minha banda preferida. Pois bem. Aqui estou eu agora. Num boteco madrilenho, rascunhando estas mal-traçadas embalado pela voz de mister Morrison.

