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Desnecessário
01 de Outubro de 2013

Desnecessário

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Por Ligia Fascioni 01 de Outubro de 2013 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021
Foto: Pedro Armestre Foto: Pedro Armestre

A:  Cara, vou confessar, adoro assistir BBB.

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B: O quê?

A: É, acho legal, sei lá.

B: Mas isso é coisa de gente imbecil, idiota, que não tem nada na cabeça. O programa é nojento, pegajoso, simplório e emburrecedor. Como é que você pode gostar de uma bosta dessas?

 

O “A” agora tem duas opções. Ou encerra o assunto por aí (mais sábio) ou começa um bate-boca infinito com uma pessoa com a qual talvez ele tivesse um bom relacionamento antes do comentário inocente.

 

Troque o “BBB” por dupla sertaneja, nome de novela, gênero musical, time de futebol, cor, orientação sexual, partido político, escola de samba, artista, escritor(a), cineasta, ator/atriz, diretor(a), designer, arquiteto(a), etc e o resultado será o mesmo.

 

Isso vem acontecendo porque o mundo está mais cheio de gente e essa gente está cada dia mais exposta e conectada, com uma imensa e descontrolada necessidade de se expressar. Como as pessoas são todas diferentes, é claro que há conflitos. A maior parte das discussões que acompanho gira em torno da diferença de gostos. Gente, mas por que é tão difícil assim que a outra pessoa pense, sinta e goste de coisas diferentes de você? Há realmente necessidade de desmerecer  e pisotear em cima de alguma coisa só porque você não gosta? Qual é o objetivo?

 

O que boa parte das pessoas não percebe é que quando diz que tal coisa é idiota, cretina, imbecil, está usando esses adjetivos para qualificar também quem gosta da tal coisa. Precisa ser assim tão grosseiro?

 

Lembro de uma vez em que estava na fila de um buffet e me servi de um prato que sempre adorei. A pessoa que estava do meu lado (uma colega de trabalho) fez uma cara de nojo e disse: “nossa, que horror, isso parece vômito de gato“. É claro que não consegui comer, nem naquela vez, nem nunca mais, pois não consigo mais olhar para o prato sem associar com vômito de gato. Ou seja, a pessoa estragou o meu prazer em troca de…. o quê mesmo? Uma indelicadeza totalmente gratuita e desnecessária. Se não gosta, limite-se a dizer que não gosta e mude de assunto. Na verdade, se estiver muito interessado em expor sua opinião, pode aproveitar uma outra oportunidade e fazer uma análise detalhada dos ingredientes, mas sem insultos e xingamentos.

 

Outra vez vi uma colega toda feliz comendo um cachorro-quente enquanto outra desfiava um tanto quanto agressiva uma lista com o tanto de lixo e de porcarias que aquele sanduíche continha. Fui vendo a menina ficar cada vez mais impressionada até que parou de comer o negócio. Sei lá se a outra saiu satisfeita, mas a moça do cachorro-quente deve ter passado o dia triste e nem sei se voltou a comer o sanduba quentinho outra vez. E pra quê isso, minha gente?

 

De vez em quando me pego fazendo uma dessas e depois me arrependo profundamente. De fato, não precisava dizer que a voz daquela cantora parece uma gralha fanha ou que aquele perfume me lembra desodorizante de vaso sanitário. Podia ficar na minha e apenas dizer que não curto. Muito mais elegante e não estraga o prazer de ninguém.

 

Mas tem gente que parece se divertir em tripudiar sobre os gostos alheios, como se em questão de gosto fosse possível se chegar a um consenso. Não é. E não precisa mesmo, pois essa é justamente a graça do mundo.

 

Escolha bem as palavras quando for dizer a uma pessoa que você gosta que você não curte a mesma coisa que ela.

 

Ah, claro, esqueci-me de dizer: isso só vale se você realmente se importa com a pessoa. Mas se a sua opinião é mais relevante que tudo, então vai fundo e xingue com vontade.

 

Tomara que valha a pena…

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