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Não fui eu quem falou
19 de Setembro de 2011

Não fui eu quem falou

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Por Ligia Fascioni 19 de Setembro de 2011 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

 

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Ando reclamando bastante dessa língua de bárbaros, mas descobri que estou em companhia ilustríssima: ninguém menos do que o célebre Mark Twain. No final do século XIX, quando o famoso escritor e humorista americano andava pela Europa, resolveu morar um tempo na cidade de Heildelberg para aprender alemão. Da experiência nasceu um texto hilário, imperdível para quem quer aprender a língua ou gosta de curiosidades.

Mark Twain é famoso pelos clássicos "As aventuras de Tom Sawyer" e "As aventuras de Huckleberry Finn", mas tenho também o "Dicas úteis para uma vida fútil" e adoro.

Pois em "The awful german language" (algo como "A horrorosa língua alemã") ele descasca o idioma de Goethe. Começa pelo básico, o absurdo dos gêneros dos substantivos, totalmente arbitrários mas imprescindíveis para qualquer frase simples que se queria construir (moça é neutro, parede é feminino e abóbora é masculino, vai entender por que, ainda mais para alguém que tem a língua inglesa como mãe).

 

Depois senta a lenha nas declinações, que parecem ter sido inventadas por puro sadismo, sem nenhuma utilidade prática a não ser causar pesadelos indescritíveis nos estrangeiros que sonham com nominativos, acusativos, dativos e genitivos querendo atacá-lo na calada da noite.

Sobre os verbos, o negócio fica muito engraçado porque existe um fenômeno no alemão que faz com que alguns deles sejam despedaçados em duas partes, sendo que uma fica no começo e outra no final da frase (no meio segue a história inteira, cheia de adjetivos e situações diversas). Como cada pedaço separado significa uma coisa diferente, você só entende o que a pessoa quer dizer depois que ela pronuncia a última sílaba. Twain escreve um texto em inglês usando essa regra que ficaria mais ou menos assim em português:

"As malas estavam prontas e ele PAR depois de beijar sua mãe e suas irmãs, e uma vez mais pressionar seu peito contra o de sua adorada Gretchen, que, vestida com uma simples musseline branca, com uma única rosa nas ondas exuberantes do seu lindo cabelo castanho, cambaleou pelas escadas, ainda pálida de medo e excitação da noite passada, mas cheia de saudade, descansando sua pobre cabeça dolorida ainda mais uma vez sobre o peito de quem amava mais que a própria vida,TIU."

Vocês podem não acreditar, mas o pior é que é assim mesmo. Mark ainda reclama, entre outras coisas, sobre o comprimento das palavras. É que em alemão, a pessoa pode criar seus próprios vocábulos como se fosse receita culinária; cada um junta os ingredientes que achar mais adequado e você, pobre mortal, jamais vai conseguir encontrar o bolo no dicionário.

Além do mais, fica uma coisa tão gigantesca que Twain diz que aquilo não são palavras, mas procissões alfabéticas. Aliás, o sujeito define muito bem: em alemão as palavras são tão grandes que têm até perspectiva. Veja o caso, por exemplo, do nome que eles colocam na porta da câmara de vereadores: stadtverordnetenversammlungen.

Mark ainda reclama (com razão) do fato de alguns vocábulos terem dezenas de significados e funções diferentes. Custava criar outras específicas? Zug, por exemplo, pode significar tantas coisas com seus prefixos e sufixos que dá para escrever uma história inteira só com ela. Com Schlag é a mesma coisa.

Enfim, Mark Twain termina o livro com sugestões bem-humoradas para reformar a língua alemã. Começa eliminando os dativos, depois sugere colocar o verbo sempre no começo (e numa palavra só) e vai desfiando ideias, de reorganizar a definição dos gêneros respeitando a vontade do Criador até eliminar todo vocabulário, deixando apenas as palavras zug e schlag, com seus devidos prefixos e sufixos, que já dão conta de quase tudo.

Resumindo, Twain conclui, a partir de seus "exaustivos estudos filológicos", que um estudante aplicado leva 30 horas para aprender inglês, 30 dias para aprender francês e 30 anos para aprender alemão.

Pode ser que seja o momento, mas gargalhei muito enquanto lia o livro. Apesar do Twain, como diz o meu amigo Cacá, acredito que se estudar bastante, daqui a um ou dois anos pretendo estar latindo direitinho como os nativos…eheheh

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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