1. A coisa estava feia. Militares, apoiados no AI 5, prendiam a torto e a direito. Algumas pessoas sumiam do mapa.
Almeida, entretanto, não se intimidava. Todo fim de dia, quando o expediente da repartição onde trabalhava era encerrado, passava no bar, pedia uma cachaça e enquanto a saboreava baixava o cacete nos que ele chamava de gorilas.
No fundo do bar, um coronel, a paisana, como fazia diariamente, tomava um uísque importado enquanto assistia aquilo, calado, mas cada vez mais incomodado, as críticas do outro.
Um dia se encheu.
Foi para o quartel e determinou:
“Prendam aquele subversivo.”
Não demorou muito o ato estava consumado.
O coronel, então, mandou levar Almeida para o escritório dele
E passou-lhe um enorme esculacho, que terminou assim:
“Pra você nunca mais falar mal dos militares, vou mandar fuzilá-lo.”
Chamou o sargento, e deu a ordem:
“Bote ele no paredão.”
Enquanto os soldados preparavam Almeida para consumar o ato, cochichou para o sargento:
“Mas carregue as armas com bala de festim. Só quero dar um susto nesse sujeito.”
Ordem dada, ordem cumprida.
De um lado, o pelotão de fuzilamento. Contra a parede, morrendo de medo, Almeida. O sargento comandou:
Apontar! Atirar! FOGO!
Almeida fechou os olhos, os soldados dispararam, ele se sentiu. Mas não estava.
O coronel, então, entrou na arena. E foi logo dizendo:
“Gostou, vagabundo? Desta vez foi com festim. Na próxima será pra valer. Suma daqui!”
Almeida não esperou mais nada. Saiu dali disparado – dizem as más línguas, todo mijado – e foi direto pro bar.
“Me dá uma pinga, uma pinga, dupla!
Tomou um gole, refez-se, e recuperou a velha verve:
“Vou contar pra vocês: acabei de descobrir que o Exército não tem dinheiro nem pra comprar bala.” (Contado por Rolando Boldrin no Senhor Brasil e recontado por mim, do meu jeito)
2. Vândalos virou expressão comum na mídia, quando querem acusar o que chamam de minorias para qualificar determinadas ações que sacudiram o país em junho.
Mas o que é um vândalo? Consultei o dicionário, e entre outras definições, encontrei:
“Indivíduo que tudo destrói, quebra, rebenta.”
3. Não pude deixar de pensar:
Então, os que praticam corrupção a céu aberto são vândalos?
Os que no Congresso Nacional rebentam o tempo todo os sentimentos dos brasileiros, são vândalos?
A presidente, que começou o fazendo uma devassa no governo e depois feriu os sentimentos dos brasileiros, recuperando e oferecendo vantagens as quem ela botou pra fora?
Se o STF perdoar ou amenizar as penas que aplicou nos mensaleiros, estará praticando um ato de vandalismo, ao destruir, ferindo-nos, as últimas esperanças de todos nós que acreditamos que ainda no resta alguma esperança?
Quem vem, enfim, impunemente, há anos e anos, destruindo, quebrando, arrebentando a paciência dos brasileiros, é vândalo?
Se é assim, por que só sobra a imagem de vândalo para quem se manifesta nas ruas em defesa das nossas esperanças? Se as coisas continuarem assim, o brasileiro vai acreditar que a honestidade, no nosso país, não tem mais bala na agulha.
Aí então…
