A palavra tem poder. Muito provavelmente você já ouviu esta frase, talvez até com conotação religiosa. Mas a palavra tem poder, mesmo, sem esta conotação específica. Usar as palavras aproveitando-se de todo o potencial de seu significado, faz toda a diferença. O poder da palavra é reconhecido através dos tempos. Nem a Bíblia deixou de fora este ensinamento. Embora não seja eu um homem de religião, o livro de Provérbios é rico em citações sobre o poder da palavra na boca dos homens, como “A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto” (18.21). O exemplo mostra que a palavra, o artifício mais utilizado para a comunicação entre os seres humanos, possui o poder de realizar, de fazer acontecer.
Ora, o que é a argumentação se não o uso das palavras de forma organizada e inteligente? A argumentação tem poder. Poder de convencer, de mudar, de conquistar. Este tem sido o tema das últimas colunas – e resolvi dedicar tanto espaço para o assunto porque ele é realmente importante, especial. Do primeiro texto que versava sobre a importância da argumentação à segunda abordagem, que tipificava as argumentações mais importantes e utilizadas, fica a certeza de que a argumentação faz a diferença entre o sucesso e o fracasso, a vitória e a derrota no cotidiano da vida de todos nós. A argumentação faz toda a diferença, este é o cerne da questão. É ferramenta básica do processo comunicativo, porque – como já disse em texto anterior – toda comunicação visa um objetivo, por mais simples e natural que seja.
E no meio deste mundo argumentativo, temos as falácias. O termo deriva do verbo latino “fallere”, que significa “enganar”. Basicamente a falácia é um argumento feito sobre um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Falseia a verdade, com o intuito de ludibriar o interlocutor, ou todos aqueles que acompanham um debate de idéias. Na maioria das vezes a falácia é utilizada por aquele que não tem argumentos válidos suficientes para sustentar uma ideia, ou porque não está preparado para o debate, ou ainda porque, sabendo que não bons argumentos válidos, utilizam das falácias para enganar os ouvintes.
Assim como são vários os tipos de argumentos, as falácias também estão tipificadas na teoria da comunicação.
O argumento falacioso ad hominem é aquele em que o interlocutor, ao invés de expor argumentos válidos, ataca verbalmente a outra pessoa sem discutir o assunto em questão. Um exemplo prático disso seria uma fala do gênero “O que o colega está dizendo sobre as estratégias a serem adotadas na empresa não tem o menor fundamento, porque ele é um irresponsável”, ou “este político não tem a menor capacidade de gerir esta cidade porque não é um bom pai de família”. Deixa-se o tema de lado para denegrir o oponente que tem ideia diferente.
Outra falácia conhecida é denominada ad balacum (em latim, argumento do porrete). Nele, o interlocutor, ao não ter argumentos válidos para debater um assunto, parte para ameaças: “É melhor você votar a favor da nossa proposta, se não será demitido”. Nesta mesma linha temos o argumento falacioso ad terrorem (terrorismo), quando o interlocutor apela para conseqüências negativas que podem advir da não aceitação da tese dele: “Ou você aceita nossa condição ou será o fim da empresa”.
Os argumentos falaciosos ainda se esgueiram em ad populam (popular, emocional) onde o emissora da mensagem apela para a emoção do receptor, por meio de retórica, desviando do foco do assunto. No argumento ad verecundiam utiliza-se como força de argumentação a referência ou citação de autoridades no assunto, sem que de fato tal citação tenha a ver com o tema tratado (um argumento de autoridade utilizado falsamente). Outra falácia utilizada é a de perguntas variadas, quando se bombardeia o interlocutor com muitas perguntas vazias, retóricas, de modo a impossibilitar uma resposta.
De uma forma geral, o argumento falacioso (ou falácia) representa exatamente a falta de argumento válido para convencer o(s) outro(s). É fato que utilizar esta estratégia, consciente ou desesperadamente, busca tão somente fugir do tema em debate, do assunto em si. Ou tenta atacar, encurralar ou chantagear o interlocutor, ou mesmo desviar o foco do assunto como forma de não perder o embate comunicativo do convencimento. Vemos isso constantemente nas acaloradas discussões em redes sociais, mas também no dia a dia das pessoas.
Mais uma vez fica demonstrado que a argumentação é preciosa, é ouro. Dominar suas técnicas faz do emissor da mensagem um vencedor. Porém, há nela também dois lados: o positivo e o negativo. Reconhecê-los e saber usá-los faz toda a diferença. Assim como os ditados populares, alguns conceitos se formam através dos tempos pela experiência prática. Até os mais antigos já sabiam sobre o poder da argumentação, a ponto de colocar referências sobre o assunto no maior best seller eleito pelo ser humano: “Alguém há cuja tagarelice é como pontas de espada, mas a língua dos sábios é medicina” (Provérbios 12.18).
