Coluna Lígia Fascioni | Revolução 4.0: como sobreviver?

01 de Fevereiro de 2019

Inovação, tecnologia, revolução 4.0: tem um admirável mundo novo exigindo da gente novas atitudes

Minhas últimas temporadas de palestras no Brasil vou falar quase somente sobre a revolução 4.0. Os clientes corporativos parecem estar muito preocupados com isso; penso que estão cobertos de razão.

Ok, mas de onde veio esse termo? E o que são, afinal, as revoluções 1.0, 2.0 e 3.0? Em que a 4.0 é diferente e por que assusta tanto?

Vamos por partes.

primeira revolução industrial (1.0) aconteceu no final do século XVIII, quando surgiram, na Inglaterra, as primeiras máquinas a vapor e as locomotivas. O impacto foi enorme, já que, naquela época, a esmagadora maioria da população vivia nas áreas rurais e se mudou para as cidades. Tanto a produção industrial transformou a vida das pessoas (principalmente na área têxtil, onde antes tudo era produzido artesanalmente) como no transporte e distribuição de matérias primas e produtos.

 

A maneira como a sociedade se organiza até hoje tem muito a ver com essa mudança radical na economia, no conceito de trabalho e na maneira como se utiliza o tempo. No início, as jornadas chegavam a 16 horas diárias e não havia limite mínimo de idade. Aos poucos, com as lutas e reinvindicações, os horários e os vencimentos mínimos foram se ajustando até chegarem ao que são hoje.

 

segunda revolução industrial (2.0) remonta à utilização da eletricidade nas linhas de produção, com o uso de esteiras transportadoras para a montagem em série no começo do século XX. Foi nessa época que começou-se a desenvolver métodos para aumentar a produtividade, com a fundamental participação de Henry Ford. Nessa época também começou-se a utilizar largamente os derivados do petróleo (motor a combustão). Os impactos aconteceram não apenas na forma as pessoas trabalhavam, mas também em como consumiam, já que os bens, de uma maneira geral, começaram a ficar acessíveis a todos.

 

terceira revolução industrial (3.0) aprimora ainda mais os avanços tecnológicos anteriores quando, por volta de 1970, começa a usar massivamente a eletrônica, a informática, a robótica, os satélites de telecomunicações, a biotecnologia e a química fina. Muitas posições profissionais foram substituídas por máquinas (ex: caixas bancários, cobradores de ônibus e frentistas de postos de gasolina em alguns países, datilógrafos, etc) e outros simplesmente desapareceram (telefonistas, ascensoristas, telegrafistas, etc). Meu pai foi, durante muitos anos, mecânico de vôo; ele voava em uma poltrona ao lado do piloto e ia fazendo os ajustes de manutenção da aeronave durante a viagem; dá para imaginar? São profissões que a própria tecnologia inventou e depois superou. E o processo continua.

Mas e a quarta revolução? O que ela tem de tão especial assim?

 

quarta revolução industrial (4.0), também chamada Indústria 4.0, é a mais recente de todas. O termo foi criado pelo governo alemão (e usado pela primeira vez na Feira de Hannover em 2011) para definir o conjunto de estratégias sobre tecnologia a serem utilizadas nos próximos anos.

 

Ela é importante e também revolucionária por causa do impacto que vai causar (e já está causando) no mercado de trabalho e na economia. Trata-se de tornar as fábricas organismos inteligentes e autônomos usando todo o tipo de recurso tecnológico disponível: robôs, big data, nanotecnologias, neurotecnologias, inteligência artificial, biotecnologia, sistemas de armazenamento de energia, drones, impressoras 3D e o que mais houver. Ou seja, as fábricas deverão funcionar com o mínimo de seres humanos possível.

 

E não estamos falando apenas de fábricas no sentido convencional (aquelas que fabricam carros, geladeiras, equipamentos, etc), mas de serviços também. A Internet da Coisas (IoT: Internet of Things) vai fazer com que todos os equipamentos sejam interconectados e consigam “conversar” entre si de maneira independente. Além disso, poderão ser controlados por Smartphones.

 

Para se ter uma ideia de como a tecnologia transformou a vida sobre a terra (e não só a humana; animais, plantas e até a extração mineral sofreram grande impacto), basta imaginar que, se a gente tivesse uma máquina do tempo e voltasse, sei lá, para o ano de 1203, para visitar um habitante típico, não ia encontrar muita diferença entre ele e seu equivalente em 1806, por exemplo. Entre a revolução agrícola, em que as pessoas começaram a plantar para comer, em vez de caçar e colher, e a primeira revolução industrial, nada muito significativo ou radical aconteceu, pelo menos na rotina diária das pessoas.

 

Mas tente comparar a vida de seus avós com a sua. Ou mesmo tente comparar sua própria vida há 15 anos com a de hoje. Não é impressionante a diferença?

 

As transformações estão acontecendo de maneira assustadoramente rápida e as mudanças são profundas.

 

Quando o mundo passa por um momento como esse, chamamos de tesarac.

 

Essa palavra foi cunhada pelo poeta, autor de livros infantis, músico, compositor e cartunista americano Shel Silverstein para descrever períodos da história onde ocorrem mudanças sociais e culturais tão significativas que os velhos conceitos já estão desaparecendo, mas os novos ainda não estão prontos para substitui-los. O resultado disso é o próprio caos, exatamente como estamos vivendo hoje, em pleno tesarac. Depois da tempestade, as coisas começam a se reorganizar e experimentamos mais um tempo de estabilidade até o próximo tesarac. O mundo já passou por vários com diferentes intensidades: a revolução agrícola, a transição entre a idade média e a renascença, a primeira revolução industrial, para citar só alguns.

 

Tesarac é quando o modelo atual já não funciona mais, mas ainda não se sabe como vai ser. Está tudo em aberto. A única certeza é que as coisas vão mudar radicalmente. E rápido.

 

Estamos bem no meio do caos. É apavorante, pois naturalmente tememos o desconhecido. Mas também é fascinante, um verdadeiro privilégio poder fazer parte desse momento da história. Porque o como vai ser, depende do que nós vamos construir, das decisões que vamos tomar. Tenho algumas ideias que podem ajudar, mas isso é assunto para outro artigo.

 

O que não dá é para ficar distraído esperando ver o que vai acontecer. Por isso penso ser tão necessário conversarmos a esse respeito.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.