Coluna Ligia Fascioni | O mundo ameaçado pela GAFA

23 de Março de 2020

Resenha do livro: “World without mind: the existencial threat of big tech”, de Franklin Foer.

O primeiro emprego do jornalista Franklin Foer foi como editor de uma revista digital feminina chamada Underwire (gostei do nome…rs)*, outra sobre automobilismo e alguns sites dedicados à vida urbana; todos pertencentes à Microsoft. Sim, a empresa gerava conteúdo em vez de compartilhar o que os outros criavam. Como todo início, foi confuso. Não se sabia com que frequência deviam atualizar as publicações; os leitores davam palpites em tudo, o tempo todo e os jornalistas não sabiam como lidar.

 

Em “World without mind: the existencial threat of big tech” (algo como ‘Mundo sem mente: a ameaça existencial das grandes empresas de tecnologia’) fala sobre como as grandes corporações estão crescendo em um mundo sem limites, em que os monopólios tecnológicos aspiram moldar a humanidade em um formato que eles imaginam ser o ideal. Essas empresas, também conhecidas por GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) acreditam que são fundamentalmente organismos sociais, uma espécie de existência coletiva. 

 

Elas dizem que protegem a individualidade do usuário, mas, na verdade, são as maiores responsáveis pelo colapso da privacidade; desrespeitam os valores de autoria e hostilizam a propriedade intelectual. Elas automatizam escolhas, grandes e pequenas. Seus algoritmos sugerem o que devemos ler, assistir, para onde viajar, o que comprar, que pessoas convidar para seu círculo de amigos.

 

Foer compara essa revolução com uma anterior e igualmente radical, a dos alimentos. As grandes corporações também colocaram os pratos prontos sobre as mesas, uma facilidade nunca vista antes. A comida pronta foi uma das maiores inovações da história, pois não apenas mudou os hábitos de consumo e alimentação, como também transformou a geografia da agricultura. Eficiência e abundância de opções (exatamente o que nos oferecem as GAFA), na verdade escondem os mesmos ingredientes de base: milho e carne, com muito sódio e química. 

 

Essas grandes empresas dominam todo o mercado, fazendo com que intelectuais, escritores freelancers, jornalistas investigativos, enfim, profissionais fora das grandes redes de produção cultural estejam exatamente na mesma situação que pequenos agricultores. A questão é que, para sobreviver, até mesmo os jornalistas mais sérios tiveram que se adaptar aos algoritmos. Isso significa que na busca insana por cliques, acabam dando atenção a teorias conspiratórias, histórias dúbias e sensacionalistas, e a ignorantes populares (que depois acabam sendo eleitos por conta do espaço que tiveram). Não basta o veículo publicar matérias sérias e embasadas; é preciso crescer exponencialmente até o infinito.

 

O autor defende a tese que essas empresas destruíram algo precioso no ser humano, que é a capacidade de contemplação e reflexão. Elas criaram um mundo onde estamos constantemente sendo observados e sempre distraídos. Ele diz que essas companhias querem alterar a evolução humana, transformando-nos todos em ciborgues, pois nossos celulares já são a extensão da nossa memória e nosso comportamento já é todo orientado por algoritmos. Foe insiste que nós não estamos amalgamados com máquinas; estamos é com as empresas que fazem essas máquinas.

 

Antes do sucesso estrondoso do Vale do Silício, monopólio era uma palavra pejorativa e os Estados Unidos, guardiães do capitalismo, orgulhavam-se da livre concorrência. As big techs conseguiram convencer o mundo que o gigantismo é um bem social urgente, necessário para a harmonia global. O fenômeno é tão forte que o sonho dourado da maioria dos fundadores de start-ups é ser comprado por uma dessas gigantes.

 

E essa concentração de poder leva à homogeinização (disfarçada de variedade), o que não é nada bom.

 

O livro começa contando sobre os primórdios do Vale do Silício e seus principais influenciadores. Fala da guerra de egos, da história de Larry Page (fundador do Google), cujo pai, um dos primeiros especialistas em inteligência artificial da história, tinha como objetivo de vida reproduzir o cérebro humano. Ele criou o filho para continuar sua missão de maneira quase religiosa. Aliás, o termo devoção religiosa pode ser aplicado a muitos tecnólogos, como Ray Kurzweil, que acredita que a tecnologia resolverá todos os problemas dos humanos, que, segundo ele, no futuro não se diferenciarão em nada das máquinas.

 

Há um capítulo para falar de Mark Zuckerberg (Facebook), outro para Jeff Bezos (Amazon) e até Bill Gates (Microsoft). Foer analisa as origens da cultura do Vale do Silício, vinda da contracultura dos hippies dos anos 1960, para tentar entender como chegamos ao ponto de hoje. 

 

O autor não acusa os fundadores das grandes empresas de serem vilões malvados; sua análise mais aprofundada nos leva à conclusão que eles são apenas pretensiosos. Na melhor das boas intenções, acreditam que sabem o que é melhor para o mundo e vão moldando tudo à sua maneira, numa espécie de populismo lucrativo. 

 

Foer conta também como sua visão e análise do ambiente tornaram-no persona non grata no Vale do Silício. Jeff Bezos pediu sua cabeça por conta de um artigo não muito elogioso à Amazon que ele publicou no jornal em que trabalhava, o New Republic

 

O livro é uma espécie de desabafo do jornalista que acredita que os algoritmos são, hoje, os maiores inimigos da democracia. E que nossa fé na tecnologia não é consistente com nossa fé na liberdade, uma vez que nossa privacidade está sob ameaça. A ideia de livre concorrência no mercado também está em risco e a disseminação estratégica de fake news e teorias conspiratórias cria o ambiente ideal para o autoritarismo. Ele alega que até então, a máquina e o homem estavam trabalhando de maneira colaborativa, mas agora estamos num patamar em que fusão é perigosa para o indivíduo.

 

Olha, talvez haja um pouco de exagero na análise de Franklin Foer, mas ela é muito bem fundamentada. O autor demonstra (pelo menos na minha visão de leiga), excelentes conhecimentos de história e filosofia. Tem um certo amargor sim, pois quem briga com gigantes sempre sai machucado. 

 

Mas acredito que vale a pena prestar atenção no que ele diz.

 

Recomendo.

 

 

* um trocadilho com underware (roupa de baixo), só que wire quer dizer fio. Então seria algo como sob os fios, ou embaixo dos fios.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "Atitude Pro Liderança" (Letramento, 2016). Seu blog (www.ligiafascioni.com) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma empresa de tecnologia e é YouTuber do canal Berlim Tech Talks.

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