Coluna Ligia Fascioni | O cérebro idiota

01 de Julho de 2019

Um dos livros de neurociência mais divertidos dos últimos tempos!

Vou ser sincera; já li muitos livros sobre neurociência, pois o tema me interessa bastante. Mas esse foi o mais divertido e didático de todos! O autor é debochado e usa umas metáforas ótimas para explicar porque a gente faz tanta bobagem na vida.

 

Dean Burnett é um neurocientista britânico com um senso de humor incomum (britânico? Rsrsrsr…) que nos presenteia com o excelente “The idiot Brain: a neuroscientist explains what your head is really up to” (tradução livre: “O cérebro idiota: um neurocientista explica o que sua cabeça realmente está fazendo”). 

 

A ideia é mostrar como o cérebro regula o corpo e, não raro, provoca a maior bagunça dando instruções erradas e fazendo a gente trancar o dedo na gaveta, por exemplo.

 

O livro é dividido em 8 capítulos; ele explica como o cérebro regula corpo, como funciona a memória, o medo, a inteligência, os sentidos, a personalidade, a influência dos outros e, finalmente, as doenças mentais e neurológicas.

 

Na verdade, cada capítulo mereceria uma resenha completa, mas aí ficaria quase do tamanho do livro; melhor ler o original, né? Mas vou oferecer aqui umas amostras para você ter uma ideia de como o negócio é bacana e ficar com vontade de ler também!

 

As metáforas são a melhor parte do livro. Dean explica que boa parte do cérebro se dedica a controlar os processos fisiológicos básicos do corpo, monitorar as tarefas internas, coordenar as respostas aos problemas, além de limpar toda a confusão. Basicamente, manutenção. A região que controla esses aspectos fundamentais é o cerebelo, que também é conhecido por cérebro reptiliano para enfatizar a sua natureza primitiva, pois ele faz basicamente as mesmas tarefas que um cérebro de réptil faria no início do processo evolutivo. 

 

Por contraste, todas as habilidades mais avançadas (atenção, percepção, consciência, razão) são responsabilidade do neocortexNeo significa novo, pois ele foi desenvolvido bem mais tarde, e, para a história da evolução, poderíamos dizer que bem recentemente.

 

Então, fazendo uma metáfora com os sistemas de gestão atuais, ele diz que essas duas partes deveriam trabalhar harmoniosamente ou, pelo menos, tentar ignorar-se mutuamente. Mas se você já trabahou com alguém que adora microgerenciar, vai entender o quão ineficiente esse arranjo pode ser. Imagine: é como ter alguém inexperiente (mas tecnicamente mais estudado e preparado), dando instruções bizarras e fazendo perguntas idiotas o tempo todo e tornando seu trabalho um pesadelo. Pois o neocortex faz isso o tempo todo com o cerebelo, coitado. 

 

Coitado nada. O cerebelo é um teimoso e acha que sabe o melhor jeito de fazer as coisas, pois é mais velho e já está fazendo as coisas do seu jeito há muito, muito tempo. E sempre funcionou muito bem sem esse millenial metido que acabaram de contratar. É como tentar fazer uma pessoa trabalhar com um computador sendo que ela acha que o melhor mesmo seria usar uma máquina de escrever.

 

Isso explica, por exemplo, porque é que alguns de nós ficam enjoados quando viajamos de carro. 

 

Nunca na história da humanidade passamos tanto tempo sentados; mas fomos “construídos” para o movimento. Os estudiosos recomendam que a gente deveria caminhar pelo menos 2 milhas por dia (pouco mais de 3 km) para satisfazer as necessidades mínimas do nosso cérebro (com a vantagem de também beneficiar o resto do corpo). A gente caminha sem que o cérebro precise trabalhar para isso; é uma espécie de modo automático para ele. Aí é que entra o enjôo de viajar de carro (ou ônibus). Na verdade, esse efeito acontece quando a gente se move artificialmente a uma velocidade mais rápida do que conseguiríamos fazer por meios naturais.

 

Um dos mecanismos que o cérebro usa é a propriocepção, que é a habilidade de perceber se o corpo está corretamente posicionado, que partes estão onde. Se você colocar a mão atrás da cabeça, seu cérebro sabe onde ela está mesmo sem enxergá-la. É a propriocepção em pleno funcionamento. Há também o sistema vestibular, no ouvido interno, que ajuda o cérebro a se orientar em termos espaciais, detectando balanço e posição. 

 

O movimento humano de caminhar ou correr produz um conjunto específico de sinais, detectados pelo sistema vestibular e pela propriocepção. Mas quando a gente se move por meios artificiais, o que os olhos vêem não bate com o que os outros sistemas estão registrando como esperado. Quando estamos sendo aritificialmente transportados, nossa propriocepção não consegue detectar e não envia nada para o cerebelo, que, por outro lado, recebe informações dos olhos e do sistema vestibular dizendo que sim, a gente está se movendo. O coitado do senhorzinho cerebelo tenta dizer para os olhos que eles estão enganados, não pode ser. Nosso sistema interno não sabe lidar com isso e faz uma interpretação cautelosa; esse mal funcionamento só pode ser uma coisa: veneno! Por isso a gente sente ânsia de vômito. O cérebro acha que está mandando o veneno embora.

 

O cérebro também faz confusão com comida, pois habitua-se facilmente a pedir alimentos, mesmo que não esteja com fome, só porque está “no horário” (a gente passa anos treinando o moço para repetir esse comportamento). 

 

Burnett também explica sobre o sono, o sonambulismo, porque a gente reage exageradamente em algumas situações (o cérebro tem que escolher rapidamente entre lutar e fugir), porque sentimos medo.

 

Há também um capítulo interessantíssimo falando sobre a memória de longo e curto prazo. A de curto prazo é uma espécie de RAM (memória dinâmica) e seu espaço sua capacidade rápida de processamento é que definem como aprendemos as coisas para guardar na memória de longo prazo. A memória curta está sempre sobrescrevendo informações para otimizar espaço e dar conta do que está acontecendo no presente. Se não há espaço suficiente na memória curta, a gente não tem como aprender. Por isso é tão importante ensaiar e repetir muitas vezes o que precisamos lembrar; é que assim a gente repete os registros com redundância e garante que nada se perca.

 

Já na memória de longo prazo, bem maior, mas também mais lenta, a chave para se recuperar informações guardadas lá é a emoção. Quanto maior o significado emocional, mais fácil e rápido é resgatar o tema. O contexto do aprendizado também é muito importante (tentar reproduzir o cenário em que a gente aprendeu, ajuda a lembrar com mais facilidade). Tem também a questão de ego, que faz a gente distorcer as lembranças para favorecer nossas narrativas internas.

 

Ele fala sobre o álcool e outras drogas, que meio que neutralizam o neocortex e dão mais poder ao cerebelo (digamos que a gente fica mais instintivo e menos racional).

 

O capítulo sobre a depressão e a síndrome do pânico é particularmente esclarecedor, assim como que explica porque o nosso cérebro precisa de outros seres humanos para se desenvolver.

 

Enfim, como eu disse, é tanta coisa bacana que não cabe aqui. Recomendo muitíssimo que você vá correndo comprar esse livro. Certeza que o mecanismo de recompensas do seu cérebro vai ser sensibilizado!

 

NOTA: Fui pesquisar e achei a versão em português com o ridículo título “O cérebro que não sabia de nada”. Para que isso, gente? Por isso que sempre prefiro ler o original. Dificilmente compraria um livro com um título desses…

 

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "Atitude Pro Liderança" (Letramento, 2016). Seu blog (www.ligiafascioni.com) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma empresa de tecnologia e é YouTuber do canal Berlim Tech Talks.

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