Coluna Ligia Fascioni | O cérebro e a internet

26 de Setembro de 2019

E se a internet tivesse a mesma estrutura que o cérebro humano?

Conectado pelas ideias: como o cérebro está moldando o futuro da internet”, do neurocientista Jeffrey Stibel, tem uma premissa muito interessante; a ideia central do livro é que a internet, da maneira como foi construída e está evoluindo, tem uma semelhança muito próxima ao cérebro humano. Ambos têm o processamento distribuído, conectam suas partes através de sinais elétricos e são orientados a padrões. É como se os vários computadores conectados na rede fossem neurônios unidos em um grande cabeção.

 

Como estudioso do cérebro humano, o autor não para de encontrar similaridades entre os dois sistemas. Ele explica, de uma maneira bem didática, a evolução e o funcionamento da nossa massa cinzenta. Jeffrey fala da importância do surgimento do nosso senso de antecipação, que nos permitiu inferir os próximos acontecimentos, bem como o raciocínio, a introspecção e elementos refinados de emoção. Essas são capacidades do córtex cerebral, uma espécie de touca de natação que cobre a massa cinzenta e conecta os neurônios.

 

É bem interessante observar as semelhanças entre imagens que registram as conexões neuronais e as conexões entre os computadores conectados na internet ao redor do mundo. Para Stibel, os computadores e seus microchips representam os neurônios; o sites e links que constroem mapas semânticos são o equivalente da nossa memória; as conexões, com ou sem fio entre os diferentes equipamentos, seriam os axônios e dendritos.

 

Ele considera que a Internet representa um cérebro em estágio ainda primitivo, mas, se considerarmos a velocidade de crescimento e evolução do sistema, não demorará mais de 20 anos para o número de equipamentos conectados chegar a 100 bilhões, número aproximado de neurônios no cérebro humano.

 

Sobre os limites de crescimento, há algo interessante: depois da explosão de crescimento e multiplicação de neurônios nos três primeiros meses de vida, nosso cérebro chega no seu limite físico e começa a crescer cada vez mais devagar (pois claro, se continuasse no mesmo ritmo, a caixa craniana não daria conta — basta dizer que o cérebro corresponde a 10% do nosso peso quando nascemos e apenas 2% quando ficamos adultos). A partir dos 20 anos a gente perde cerca de 1 g por ano de peso de massa cinzenta. Será então que emburrecemos com o tempo? De forma alguma; é que as conexões que sobram são as mais fortes e resistentes. Para Jeffrey, acontecerá o mesmo com a internet, que mal nasceu e ainda está no processo de crescer enlouquecidamente.

 

Resumindo, tanto o cérebro como a internet têm períodos de rápida expansão, que o autor chama de Big Bang. O próximo estágio é o colapso, onde é necessário podar o crescimento; nesse caso, tanto a rede pode implodir, perdendo neurônios/computadores, como pode continuar crescendo, mas bem mais lentamente. Naturalmente, os links mais fracos irão se perder.  Por fim, vem o equilíbrio.

 

Apesar de me irritar um pouco com a linguagem do autor, cheia de clichês de empreendedorismo (pode ser a tradução), gosto muito de quem desafia os conceitos estabelecidos e questiona o uso das palavras. Aqui, Jeffrey discorda do termo inteligência artificial; ele diz que a máquina é artificial, mas a inteligência não. Ele cita como exemplo a avó dele, que teve o quadril reconstruído. O quadril pode ser artificial, mas a capacidade de andar, não.

 

Jeffrey fala também sobre as limitações já conhecidas do cérebro, e que a internet possui os mesmos pontos fracos (exemplo: precisamos estar constatemente destruindo memórias e ideias para que o cérebro possa ter agilidade para trabalhar, o que ele chama de destruição criativa.).

 

Stibel ainda fala sobre como construir uma máquina pensante, sobre a questão da inteligência (no cérebro e na internet), sobre os mecanismos buscadores que nos permitem resgatar informações armazenadas. Fala também sobre implantes cerebrais, mas com a cabeça de um empresário serial; ele simplesmente minimiza os riscos e afirma, com certeza absoluta, que as vantagens superam as desvantagens em muito. Será? E para quem? 

 

Sobre as semelhanças entre a internet e o cérebro, Jeffrey faz uma observação muito perspicaz: uma internet inteligente como um cérebro humano continuará sendo apenas um cérebro, não um ser humano. É muito pouco provável que a internet um dia adquira consciência, que é o que torna um ser humano humano, mas há pesquisas buscando justamente isso.

 

Comprei esse livro com expectativas altíssimas, pois me tinha sido muito bem recomendado. Talvez isso tenha atrapalhado um pouco; o livro é bom, mas não sensacional. De qualquer forma, vale a pena a leitura, mais pelo conceito do que pela forma. Talvez porque eu o tenha lido em português (comprei quando estava no Brasil) a impressão que eu tive foi que estava ouvindo um dublador; uma coisa bem artificial. Alguns autores americanos são assim mesmo, então talvez a culpa não tenha sido da tradutora (apesar de uma ou duas inconsistências, ela pareceu bem cuidadosa); de qualquer forma, achei a leitura desconfortável. 

 

Mesmo assim, recomendo demais a leitura. Obrigada à maravilhosa especialista em neuromarketing  Erica Ariano que me deu a dica!