Coluna Lígia Fascioni | Dar e receber

14 de Dezembro de 2018

Você é um giver, um taker ou um matcher? Descubra logo; sua carreira depende disso!

Eu já tinha gostado muito do Adam Grant em “The originals”; mesmo assim fiquei surpresa com a variedade e profundidade de temas que ele aborda.

Give and Take não é revolucionário, mas é daqueles livros ótimos que organizam as informações que já temos e confirma aquilo que suspeitávamos, mas apoiados em estudos bem sérios.

Como psicólogo comportamental e professor da universidade de Wharton, Grant estudou o processo de tomada de decisão nas empresas e a questão da reciprocidade. Ele descobriu que há três tipos de pessoas: os takers (a tradução seria tomadores ou pegadores, mas acho tão ruim que vou optar por usar o termo original), os givers (doadores) e os matchers(de novo uma tradução infeliz; seria algo como aqueles que tentam equilibrar ou fazer um compromisso entre o que dão e recebem).

Os takers são aquelas pessoas que querem levar vantagem em tudo; aproximam-se dos outros com a expectativa do que podem ganhar com isso. Estão sempre buscando oportunidades de ganhar alguma coisa. A marca registrada dos takers é o lucro nas relações, ou seja, receber sempre mais do que se investe.

Os givers são aquelas pessoas para quem a gente sempre pede ajuda quando precisa. Givers estão sempre dispostos a dar uma mão, mesmo que não recebam nada em troca. Mas outra coisa interessante é que para eles, também é natural pedir e aceitar ajuda. Givers colaboram como que por instinto e sentem prazer nisso.

Os matchers são aquelas pessoas que estão sempre tentando retribuir os favores na mesma medida em que receberam. Estão sempre calculando uma forma de serem justos e equilibrar o que dão e o que tomam como retorno.

Bem, em anos de pesquisas aplicadas em escolas, universidades e empresas, há um grupo que é sempre o mais mal-sucedido, o que tem desempenho pior, o que não consegue muito sucesso profissional. Qual você acha que é?

Bem, aquele mesmo que você tinha desconfiado: os givers.

E o que se dá bem de verdade? Aquele grupo de estudantes que tira as melhores notas, aquele grupo de profissionais que se destaca no mercado, aquele grupo de empreendedores que faz as empresas crescerem? Qual perfil você acha que é?

Errou.

São os givers também.

Os givers de destacam sempre, para o bem e para o mal. 

Numa apresentação ou negociação, em vez de se mostrarem dominantes, givers conseguem se conectar melhor com os outros porque não se envergonham de mostrar suas vulnerabilidades; em vez de tentar dominar pela força, pelo currículo, pelo poder e posição, eles tentam se aproximar e ganhar confiança mostrando que são competentes sim, mas estão ao lado das pessoas, de mãos dadas com elas. Quando takers, em casos raros, tentam mostrar vulnerabilidade, soa como falsa modéstia. Todo mundo percebe que ele está só cavando elogios.

Bom, a gente viu que os givers estão no topo do sucesso, mas também no subsolo do fracasso; você certamente deve conhecer algum giver perto do esgotamento físico e emocional. Muitas vezes eles se deixam explorar pelos takers e se dão muito mal.

Primeiramente: como reconhecer um taker? Em geral, são pessoas que falam muito “eu” quando conversam. Acham que sua vida, suas atividades, o que comem, o que fazem ou deixam de fazer são temas interessantíssimos para qualquer um. Autocentrados, em primeiro lugar pensam em suas prioridades e interesses. Em segundo e terceiro também. Não é muito difícil de identificá-los nas redes sociais; o conteúdo é quase sempre recheado com muitas selfies, autopropaganda, demonstrações de generosidade caridosa, publicações de elogios dos clientes, ênfase nos títulos acadêmicos, enfim, todos os meios possíveis diretos e indiretos de comunicar que o sujeito está no topo da cadeia alimentar, que “chegou lá”.

Isso me lembrou de uma vez, que, como cliente, estava selecionando uma agência de publicidade para atender a empresa na qual eu trabalhava. Na primeira que visitei, o diretor gastou mais de uma hora tentando me convencer de como eles eram bons, capazes, competentes, premiados, especiais, sensacionais e brilhantes. Na segunda, a que contratei, o diretor gastou o mesmo tempo tentando saber detalhes sobre a minha empresa e me explicando o que poderia fazer por ela. Também me lembrou uma empresa que visitei em que a foto do presidente estava em todos os departamentos, como se estivesse em campanha política (achei um negócio mega constrangedor).

No livro, Adam dá o exemplo no relatório anual de duas multinacionais, em que numa delas aparece uma foto pequena com a introdução do presidente. Na outra, tem uma foto do CEO de página inteira e outras permeando o conteúdo. A segunda era do relatório da Enrom, em que Kenneth Lay, seu presidente, provocou a falência de milhares de famílias de tanto que se meteu em falcatruas. O sujeito era a imagem do sucesso e estava sempre em eventos beneficentes como grande e generoso doador. Outra coisa a se observar é que Takers costumam tratar os superiores de maneira servil e os subordinados ou pessoas que não podem beneficiá-lo com total desdém.

Então, a primeira coisa é evitar takers. Ou evitar ser um taker, se você identificou alguns comportamentos.

Mas voltemos aos givers. Por que alguns são tão bem-sucedidos e outros não? Porque, segundo Grant, há dois tipos de givers. Os selfless têm alto interesse nos outros e nenhum em si mesmo; carregam um tipo patológico de altruísmo, que acaba não fazendo bem para ninguém. 

O outro tipo de giver é aquele chamado otherish; ele tem interesse no sucesso dos outros, mas também tem seus próprios objetivos (na verdade, mesmo sem saber, já falei desse tipo em “Você não é tão generoso quanto pensa”).

Tem até uma tabela bem interessante dos quadrantes do interesse em si próprio e no outro que Grant apresenta no livro e vou tentar traduzir mais ou menos aqui:

Então, é preciso pensar nos outros, mas os instintos de autopreservação são importantes. Mas atenção; ser otherish é diferente de ser matcher. Os matchers esperam algo em retribuição para cada pessoa que ajudam. Givers ajudam independente do retorno; eles apenas evitam se prejudicar no processo (e prejudicar outros também).

É claro que a questão não é tão simples, senão o autor não precisaria ter escrito 366 páginas. Mas recomendo demais esse livro cheio de histórias, exemplos e estudos aprofundados. Inspirador.

Não sei se sou uma giver, mas fico feliz em constatar que os takers andam longe de mim e tenho andado completamente rodeada de givers. É tão bom…

***

NOTA: peço desculpas por usar as expressões originais. Cada vez que tento resenhar um livro que leio em outra língua, mais valorizo o trabalho árduo e valoroso dos tradutores. Eita, que profissão mais difícil!!