Coluna Ligia Fascioni | Coisas com história

27 de Abril de 2020

Aqui a prova de que histórias fazem diferença

Entre julho e novembro de 2009, Joshua Glenn and Rob Walker resolveram fazer um experimento antropológico chamado Significant Objetcts para mostrar que narrativas transformam objetos insignificantes em algo significante e com valor. 

 

Para isso, compraram 100 quinquilharias aleatórias por centavos, e as distribuíram entre escritores convidados (alguns famosos e outros nem tanto). A tarefa era inventar uma história sobre o objeto. 

 

O próximo passo foi colocar esses objetos no eBay com a história na descrição. Vou colocar aqui alguns exemplos resumidos. 

 

Para vender um cinzeiro velho, Luc Sante revelou que participou de um roubo de um diamante famoso; depois de todas as peripécias para executar o crime num lugar escuro e perigoso, ele viu que acabou levando esse cinzeiro por engano. Os cúmplices não o perdoaram e ele quer esquecer o fato. 

 

[O cinzeiro foi comprado por U$ 1 e vendido por U$ 17,79]

 

Um cavalinho rosa de plástico foi o tema de Kate Bernheimer, que contou que ele foi encontrado por um de seus dois filhos. Ela mandava as crianças passearem enquanto se prostituía numa cabine de praia para sustentar a família. Um dia, o menino achou esse brinquedo na floresta numa longa e fantasiosa história. 

 

As duas crianças morreram misteriosamente semanas depois e a mãe quer se livrar da lembrança triste. 

 

[O cavalo foi comprado por U$ 1 e vendido por U$ 104,50] 

 

Colson Whitehead ganhou um martelinho de madeira todo descascado. 

 

Pois não era um martelo comum; era o único objeto capaz de permitir a entrada na fenda temporal que irá se abrir no dia 16 de setembro de 2031. A pessoa que portar o martelo terá a oportunidade de fazer 8 trabalhos; se conseguir êxito, será a governante suprema do universo. 

 

[O martelinho foi comprado por U$ 0,33 e vendido por U$ 71,00]

 

Susannah Breslin transformou um bottom antigo e barato, desses de brinde de torcida de futebol, em um amuleto que seu pai, agora morto há 15 anos, sempre carregava consigo. 

 

Ela contou toda a história do relacionamento entre o pai e o avô, suas tristezas e desafios, os amores e sofrimentos. 

 

[O button custou U$ 0,50 e foi vendido por U$ 36,88]

 

Doug Dorst transformou um bonequinho russo desses bem kitsch que se acha em lojas de lembrancinhas em um ícone do século XIV. Trata-se de São Vralkomir de Dnobst, o santo padroeiro da dança extremamente rápida. Feito por freiras, o boneco foi entregue à mãe do autor aos 9 anos de idade para protegê-la durante sua viagem de navio para a América. Tem toda uma história da vida injustiçada do ícone que vale muito a pena ler. 

 

[A peça foi comprada por U$ 3 e vendida por U$ 193,50]

 

As histórias de cada um dos 100 objetos, seus preços de compra e venda, fotos e todos os desdobramentos do projeto, incluindo um livro, estão em no site Significant Objects

 

Há histórias ótimas e outras nem tanto, mas todas são interessantes e inspiradoras. 

 

Mas, se a gente for pensar, não é exatamente isso que as marcas fazem o tempo todo? 

 

E os museus? E os leilões de arte? 

 

O que eles fazem não é justamente criar histórias para explicar porque aquele objeto é diferente dos demais; para dar algum significado a uma coisa que, sem contexto, não é nada? 

 

Histórias fazem a gente ver o mundo e as coisas de um jeito diferente. Histórias fazem com que o mundo nos veja de maneira diferente. 

 

Qual é a história que você está contando? 

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "Atitude Pro Liderança" (Letramento, 2016). Seu blog (www.ligiafascioni.com) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma empresa de tecnologia e é YouTuber do canal Berlim Tech Talks.

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