Cientistas apontam quantas pessoas podem morrer no Brasil pelo coronavírus

23 de Março de 2020

No pior cenário previsto, podem ocorrer até 2 milhões de mortes

 

O professor doutor de Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Astrônomo associado ao Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, José Dias do Nascimento Júnior, montou junto ao professor doutor da New Mexico State University, Wladimir Lyra, um modelo matemático em Python, que prevê desastres para o coronavírus no Brasil, caso não sejam tomadas medidas para conter a epidemia no país.

Pelo mundo, pesquisadores de todas as áreas demonstram esforços para conter e prever casos de Coronavírus para auxiliar nas decisões diante  da pandemia que se alastra pela humanidade.

 

A ideia do modelo de predição da COVID-19

O estudo realizado pelos pesquisadores surgiu pela pandemia do novo Coronavírus (COVID-19), que está tomando o mundo e já chegou a mais de 4 mil vítimas fatais no planeta.

O professor doutor, José Dias do Nascimento Júnior, explica que após o início do surto começou a pesquisar sobre o assunto e maneiras de contribuir e colaborar para diminuir a pandemia.

“Assim que começaram a aparecer as primeiras reações globais, comecei a  me perguntar sobre as hipóteses dos modelos utilizados no estudo da propagação do vírus. Quais equações seriam válidas e sob quais aspectos. O novo surto de mostrava que iria fazer história e eu já sabia de outras pesquisas, das limitações de algumas condições matemáticas utilizadas nos modelos. Foi aí que encontro Wladimir Lyra em conversas da rede social”, conta Nascimento.

O professor doutor, Wladimir Lyra, afirma que a ideia de ambos se complementam e partir disso, as hipóteses evoluíram em um modelo para matematizar os casos de coronavírus já existentes e novos.

“A ideia e o motivo da pesquisa são devidos à presente pandemia do coronavírus, para compreender a dinâmica da propagação da infecção. Pela leitura de artigos científicos na área de epidemiologia matemática, me deparei com o modelo SIR, que foi o primeiro a buscar matematizar uma epidemia”, destaca Lyra.

O professor explica que percebeu que as equações eram muito parecidas com as que estuda diariamente e por isso havia meios para resolvê-las e assim agregar conhecimento ao campo de estudo do corona. “Não é nada que já não tenha sido feito no campo de epidemiologia, foi um projeto para eu aprender sobre o assunto”, apresenta Lyra.

 

Como funciona o modelo

Diante do caos da pandemia, Lyra explica que o estudo dele e de Nascimento,  matematiza a dinâmica da propagação de um infecção e pode auxiliar no combate da mesma.

O trabalho considera que a população do país seja dividida em quatro categorias: suscetível, infectada, curada e mortos. Essas categorias interagem segundo regras pré-estabelecidas:

A) Quando infectados e suscetíveis interagem, uma parcela é removida da categoria suscetíveis e colocada na categoria infectada.
B) Parte dos infectados se curam em um dado intervalo de tempo. Esses são removidos da categoria infectados e colocados na categoria curados.
C) Outra parte dos infectados morrem devido à doença. Esses são removidos da categoria infectados e colocados na categoria mortos.
D) Os curados desenvolvem imunidade e portanto não são colocados de volta na categoria suscetível.

A partir desses parâmetros foram calculadas as taxas que entraram no modelo. Os componentes do modelo aplicados à epidemia do coronavírus resultam em um contágio muito rápido. Os dados da Itália mostram que uma pessoa infectada passa o vírus para, em média, entre 3 e 4 pessoas antes de se curar ou morrer pela infecção e com isso o número de casos dobra a cada 4 dias.

Lyra explica que há apenas duas maneiras de finalizar essa epidemia. “A primeira é quando muitas pessoas foram infectadas e desenvolveram imunidade ao se curar. Quando isso acontece não há mais pessoas suscetíveis e, portanto, segundo a regra (A) do modelo, não há novas infecções possíveis. Obviamente esse caso é terrível, foi praticamente toda a população infectada em algum momento durante a epidemia e o número de mortos pode ser assustador”, alerta Lyra.

O professor doutor resume que “a segunda maneira de terminar a epidemia é quando a taxa de infecção é menor que a taxa de remissão e então a epidemia é contida. A quarentena (ou vacina) funciona por diminuir a taxa de infecção. O tratamento funciona para aumentar a taxa de remissão. Sem tratamento ou vacina, temos apenas a quarentena como medida eficaz.”

A base de dados do CSSE consultada pelos cientistas durante a pesquisa apresenta informações de todos os países atingidos pela epidemia. Os principais utilizados no modelo foram: China, Coreia do Sul, Itália, Suécia, Estados Unidos e o Brasil.

 

O modelo alerta para até 2 milhões de mortes no Brasil no pior cenário previsto

O modelo dos pesquisadores quando aplicado ao estado de epidemia no Brasil resulta que cada pessoa infectada está, em média, infectando 6 pessoas. A partir dessa taxa, o número de casos dobra entre 2 e 3 dias. Lyra anuncia que “se continuar desta maneira, sem fazermos nada, a epidemia terá seu pico daqui a 40 dias, no começo de maio, com 53% da população infectada ao mesmo tempo. Isso são mais de 100 milhões de casos. Os hospitais não têm capacidade de lidar com esse número. E, ao final da epidemia, teríamos 2 milhões de mortos.”

O modelo apresentado pelos pesquisadores gerou dois gráficos que resultam na quantidade de mortos no Brasil nos próximos meses e evidenciam um resultado assustador para a população brasileira. Esse pior cenário representa a condição onde as restrições sociais não são seguidas.

O modelo foi rodado no dia 16 de março de 2020 e os cientistas identificaram que a primeira morte pelo Coronavírus ocorreria nos próximos cinco dias. “No dia 16 de março, uma previsão do modelo foi que a primeira morte no Brasil ocorreria em algum momento nos próximos cinco dias. Quando acordei de manhã no dia 17 e fui ler as notícias, tínhamos o primeiro caso fatal”, confirmou Lyra.

Os cientistas alertam que se não foram tomadas medidas de prevenção e a população não praticar o distanciamento social, os resultados do modelo irão se concretizar. “Sem tratamento ou vacina, a única forma desta epidemia parar naturalmente é ela correr seu curso, infectando centenas de milhões, e matando milhões de pessoas. O modelo prevê dois milhões de mortos no Brasil se não fizermos nada. Para evitar isso a população tem que parar de sair de casa, praticar distanciamento social. Apenas isso vai evitar o contágio”, argumenta Lyra.

Os pesquisadores destacam a importância de todas as áreas olharem para a pandemia e realizarem esforços para criar maneiras e caminhos que evitem ou até mesmo ajudem o mundo a conter os casos.

Fonte da informação: TecMundo edição do dia 19 de março

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