ARTIGO | Porque juntas somos imparáveis

25 de Novembro de 2021

Foto de Chelsi Peter no Pexels

Por Carol Sperb, especialista em Diversidade e Inclusão e Saúde Mental na Ambev Tech

 

Sim, já me confundiram na reunião com a pessoa responsável pelo café. Já acharam que eu era assistente de algum homem à mesa. Já fui silenciada e tive o meu trabalho questionado antes mesmo de mostrá-lo. Sim, porque eu sou mulher. 

Cabelos coloridos e múltiplas tatuagens ajudaram para desmerecimentos também pela aparência. Pior, de certa forma, fiquei craque em normalizar tais comportamentos. Tentei “impor” respeito, “firmar” a postura, “adequar” minhas roupas. Pura defensiva. 

E que incômodo! Por que, afinal, negar minha essência por um posto? Tive que me desconstruir para, então, reconstruir. E, neste processo, precisei sobretudo de um lugar que valorizasse minha totalidade e autenticidade. Não por sorte, encontrei(-me).

Hoje, se minha experiência ilustra o problema, também me aproxima do lugar de privilégio em que, na verdade, sempre estive: branca, escolarizada. E porque não usar a minha voz para escancarar os problemas, tocar as feridas e, assim, lutar por justiça, equidade e, acima de tudo, respeito a minorias que têm limitados seus acessos, espaços e oportunidades?

Ainda mais agora, que tenho motivos para me manter naturalmente otimista, por enxergar o copo meio cheio e por sentir que faço a diferença ao trabalhar por espaços mais diversos e plurais em vivência, estarei feliz se ao menos uma eu conseguir puxar para cima comigo. 

De fato, a pauta está posta, evolui na sociedade, mas os passos são curtos, e o cenário ainda é desfavorável. Ainda há muito discurso para pouca ação no quesito equidade de gênero no mercado de trabalho, além da disparidade salarial e do abismo quando se fala de mulheres em cargos de liderança. 

E, neste sentido, as empresas têm um ambiente propício para tirar do papel projetos com os quais assumam sua responsabilidade em relação ao tema. Atualmente, como especialista em diversidade em um hub de inovação da Ambev Tech, posso garantir: estamos evoluindo. E de novo, o copo está meio cheio. 

No meu trabalho, as ações vêm dando frutos – e o mercado também oferece exemplos inspiradores. Só no primeiro semestre de 2021, já contratamos 130 mulheres, número que supera em 66% o índice registrado no mesmo período do ano anterior. Vale frisar que, se na área Tech já é um desafio contratar pessoas, contratar mulheres em uma cenário tão masculino passa a ser um desafio em dobro.

E é importante aqui lembrar de que não se trata de criar e publicar uma vaga preferencial para recortes de diversidade acreditando que isso vai mudar o cenário. Alterar esse status quo exige um trabalho mais profundo.

O primeiro passo é sair da inércia, identificando a existência do problema e o ponto em que se quer chegar. Como eliminamos essa lacuna? Por que as mulheres e outras minorias não acessam nosso espaço? Por que elas não chegam a tais áreas e cargos? Para tanto, a análise de dados é fundamental. 

Com ela, redesenhamos processos, para torná-los mais inclusivos. O recrutamento voltou-se a perfil e potências, não para o diploma. A jornada passou a incluir obrigatoriamente capacitação, formação, mentoria. Os esforços destinaram-se também à promoção de um ambiente seguro e acolhedor, que olha a todos como seres humanos e que se preocupa com o crescimento e com a saúde mental de cada um.

Neste ambiente, criamos muitos fóruns, talks, espaços de partilha. Uma rede de apoio que tem sido muito essencial nessa transformação. Temos um programa de empoderamento e sororidade para mulheres, e a missão de polinizar os conhecimentos entre os nossos diferentes times. E tudo isso tem criado uma corrente do bem incrível por aqui. 

Desta forma, não só o nosso número de mulheres na empresa tem aumentado – em todos os níveis – como elas estão se sentindo representadas, acolhidas e seguras. Elas querem ficar! E é aí que está nossa maior conquista. 

O caminho é longo, eu sei. Ainda temos muito o que desconstruir. Quebrar o tabu que coloca as mulheres em alguns espaços – nas exatas e tecnologia, dizem, não há lugar para elas (que engano!). A maré começa, finalmente, a estar a nosso favor. E nós, como empresa, temos a responsabilidade social de ajudar a mudar essa dinâmica. 
E que nós, mulheres, possamos ser ponte uma para as outras. Nos fortalecendo, empoderando e ocupando todos os lugares. Porque juntas somos imparáveis.

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