SÉRIE "Os desafios e o legado da pandemia", por Cláudio Dutra, presidente da Marcca Comunicação

23 de Outubro de 2020

Reflexões Sobre A Pandemia

 

Sob qualquer ângulo que se aborde, nenhuma narrativa futura envolvendo o século XXI poderá omitir ou contornar as expressões “pandemia”, “coronavírus”, “Covid-19”. Equivalente, talvez, em alcance e impacto, às duas Guerras mundiais que delinearam e definiram a primeira metade do século XX, ou à conquista da Lua e ao advento da Internet, que demarcaram a segunda, a crise que experimentamos em 2020 por certo poderá equiparar-se aos acontecimentos históricos mais relevantes, entre aqueles que vêm moldando a trajetória humana até os nossos dias. O evento que atualmente presenciamos se estabelece, desde logo, como uma inflexão inescapável na linha do nosso tempo. Poder vivenciá-lo, portanto, em tempo real, não deixa de ser um imenso – e igualmente desafiador – privilégio para a nossa geração. 

Evidente que não é o primeiro do seu gênero: com tantas pandemias, tantas catástrofes, calamidades, cataclismos já se defrontou a humanidade, em sua breve – e espetacular – jornada até aqui. Pois, mesmo enfrentando enormes adversidades e contratempos, desde o seu surgimento, o homo sapiens não apenas soube superá-los, a cada um, mas utilizou-os – assim como para assegurar a sua própria sobrevivência e perpetuação genética – também para melhor consolidar o seu predomínio sobre o meio em que vive. A ponto de autoproclamar-se, pretensa e pretensiosamente, espécie hegemônica, hierarquicamente superior em relação a todas as demais. 

A nossa herança cultural, dita “humanista” – de matriz cartesiana, já obsoleta e superada –, nos ensinou a conceber corpo e consciência, homem e natureza, sujeito e objeto (e inumeráveis pares afins), como entes separados e exteriores entre si. Ora priorizando a predominância da subjetividade (da res cogitans) em relação ao mundo objetivo (res extensa); ora afirmando exatamente o contrário. E foi sobre essa base, instável e movediça, que se fundou a tentadora ideia de uma autoridade legítima e de um direito originário, incontroverso, do homem sobre a natureza. Como se – por legislação divina ou apenas por obra do processo evolutivo – o exercício de suas capacidades cognitivas e pragmáticas outorgasse à espécie humana um mandato vitalício de apropriação e uso indiscriminado dos recursos naturais ao seu alcance, incluindo aí todos os bens e seres não-humanos coexistentes no planeta. E sabemos muito bem que foi essa pretensiosa autoconcessão, movida por uma sanha predatória e cumulativa, num mundo cada vez mais desumano – insensível, egoísta, hedonista, individualista, competitivo – que nos trouxe às vésperas de um colapso ecológico de trágicas proporções. Talvez irreversível e de consequências seguramente desastrosas para a sustentabilidade da vida humana, ou seja, colocando sob séria ameaça a subsistência das gerações futuras. Trata-se, pois, de uma situação real e verificável, de um risco iminente, cujo “alerta” um vírus cheio de atrevimento veio nos lançar no rosto.

Mas, além dos problemas estruturais relacionados à temática ambiental – e da necessidade de reconhecer a sua relevância estratégica para o nosso futuro comum –, a pandemia trouxe também inúmeros outros desafios conjunturais, a serem – assim que possível – superados. Entre os grandes tópicos que se impõem como prioridade neste momento, deve-se destacar, certamente, a premência do enfrentamento às tensões e distorções econômicas originadas ou agravadas pela crise; assim como a busca pela mais adequada preparação (tanto quanto isso seja viável) para os cenários pós-pandemia. Todavia, aparentemente, ainda não há uma resposta unívoca ou uma diretriz clara e realista a esse respeito, seja na alçada do poder público, seja na esfera da atividade privada. O êxito ou o insucesso diante das ameaças e oportunidades de que o momento é portador, possivelmente venha a ser determinado mais até pela clarividência do posicionamento, pela capacidade adaptativa e pela atitude eficiente de cada empreendedor, de cada gestor, de cada profissional, do que eventualmente por fatores macroeconômicos ou soluções milagrosas de origem governamental. 

Diante de tudo isso, portanto, torna-se evidente que a nossa percepção do mundo e a interpretação do contexto em que nos encontramos já não podem ser exatamente as mesmas de quando esta crise começou. Seja na nossa vida pessoal, nas nossas atividades profissionais, nas nossas interações afetivas, sociais, culturais, econômicas ou políticas, as reflexões e experiências ocasionadas pela pandemia devem constituir-se em oportunidade de aprendizado e amadurecimento para todos nós. Tanto como indivíduos – isto é, como autores e protagonistas do nosso próprio roteiro de vida –, quanto como seres no mundo, partícipes conscientes e ativos deste capítulo singular na instigante aventura humana na História. 
 

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