Era uma casa nada engraçada...

26 de Novembro de 2014

IMG_5617Nos últimos tempos tenho conhecido e tido notícias de muita gente que está participando do programa Ciências sem Fronteiras, que leva universitários brasileiros a estudar no exterior. Como todo projeto grande, há de tudo: estudantes que aproveitam cada segundo e outros que só vêm fazer turismo e nunca aparecem na aula (o triste é que, pelo que soube de alguns professores, não é permitido mandar o sujeito de volta como punição, pois nada pode estragar as estatísticas…). Vantagens e desvantagens à parte, estou com uma sensação estranha e espero muito que esteja enganada.

O Brasil nunca teve um projeto sério de educação. Tive a sorte de sempre ter estudado em escolas públicas, do primário ao doutorado. Havia escolas ótimas, o problema é que eram poucas; nem todo mundo tinha acesso. Não venho de família rica e sempre ralei bastante; mesmo durante o doutorado trabalhei 40 horas/semana numa empresa privada. Mas não posso negar que tive muita sorte: consegui acesso a esse quartinho bom, mas pequeno, com um monte de gente querendo entrar. Se tivesse nascido e crescido num canavial em algum lugar no interior do Brasil, dificilmente teria essa chance. Repito, foi pura sorte.

Nossa situação na educação agora é sair desses quartinhos e construir uma casa. Justiça seja feita, até hoje governo nenhum se dignou a pensar nisso. Pela primeira vez na história, há alguma movimentação nesse sentido, de construir a tal casa. Só que temos aí vários problemas.

O primeiro é que não há um projeto para a casa. Nem um orçamento planejado. Nem uma equipe qualificada com a responsabilidade de construi-la.

E, para piorar, começa-se a obra pelo telhado. Não são medidos esforços para comprar telhas de vários tipos, de maneira completamente aleatória (pelo menos é a minha percepção). Há gente boa estudando maneiras eficientes de se fazer a melhor cobertura, há gente comprando telha de papel e vendendo como se fosse de ouro (que, de qualquer maneira, não seria adequado), tem gente construindo telhados com células solares pensando na sustentabilidade, tem quem use materiais tóxicos e ainda tem telhas baratas importadas da China; enfim, um pouco de tudo.

Para qualquer um que critique a maneira como a casa está sendo feita, seguem-se as maravilhosas cifras de tudo o que já foi investido até agora em telhas, algo que nunca foi feito antes (o que é verdade, não nego).

Mas, gente? Não temos projeto, não temos alicerces, não temos fundamentos! Onde vamos colocar essas telhas? Aliás, nem os tais quartinhos bons nos quais estudei estão recebendo manutenção adequada. Nossos estudantes estão entre os piores do mundo em todas as métricas internacionais para o ensino básico. As escolas não têm merenda, não têm livros, alguém superfaturou computadores velhos e nem a internet funciona. Dei aula para analfabetos funcionais no ensino superior (que está mais para ensino inferior) e fiquei impressionada. As pessoas não conseguem entender conceitos básicos como o de porcentagem, não conseguem estruturar uma frase completa.

Sei que a escola básica não é responsabilidade do governo federal, e sim dos estados e municípios. Mas a casa é uma só; tem que federalizar a coisa mais estratégica que esse país tem, que é a formação de gente! É nossa única salvação, a meu ver.

Há que se fazer um projeto sério, pensando no longo prazo, que seja justo, inclusivo e priorize o acesso à educação em todos os níveis. Que as pessoas aprendam a pensar por si próprias, não a reproduzir ideologias, seja lá quais forem. Que aprendam a ler, escrever, fazer contas, entender seu papel no mundo. Que possam sonhar, mas aprendam a fazer.

Por sorte, não entendo nada de construção de casas e nem de educação. É minha esperança.

Essa ignorância é o que me dá forças para acreditar que estou enxergando tudo errado e distorcido, e que a coisa não é tão ruim assim.

Tomara.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.