Para quem tem Fernweh e não sabe...

31 de Dezembro de 2013

Cresci ouvindo dizer que saudade é uma palavra que só existe em português, você também?

Se a gente tivesse o raciocínio crítico pelo menos medianamente desenvolvido, veria que a probabilidade disso ser uma falácia é enorme. Para fazer tal afirmação, uma pessoa teria que ter pesquisado o termo entre as cerca de 7 mil línguas que existem no mundo, segundo a BBC. Imagina só a dificuldade; melhor seria ficar quieta, né?

Se saudade só existisse, sei lá, em birmanês, ucraniano ou algum dialeto da Somália, ainda vá. Mas bastaria que o autor da lenda ou seus divulgadores tivessem um dicionário de alemão em casa (podia ser uma versão escolar ou de bolso mesmo) e a bela e ufana teoria já teria se dissolvido em toda sua fragilidade.

Saudade é uma palavra linda. Amor também é. E amor não é menos bonita por ter tradução em todas as línguas. Não entendo o fascínio pela exclusividade (inexistente, como já vimos) da palavra saudade como se fosse um mérito extraordinário. A língua portuguesa continua bela e especial mesmo compartilhando a saudade com outras tantas; não há o que temer e nem motivo para continuar disseminando essa mentira tão fraquinha.

Em alemão, saudade é perfeitamente traduzível por Sehnsucht. E tem mais: requintados na língua como são, os germânicos vão ainda mais além na descrição do sentimento.

Sensucht é a saudade genérica, como em português. Mas quando a saudade é tão grande a ponto de provocar dor e sofrimento em quem a sente, surgem novas versões compostas pelo substantivo Weh (dor, sofrimento, pena, lamento).

Assim, existe a Wehmut, que é a saudade que se sente pelo que já passou, uma dor interna pelo tempo perdido, uma melancolia; e a Heimweh, que é a saudade do lar, da terra natal. Teoricamente, é possível se construir palavras que traduzam diferentes tipos de saudade nesse idioma, olha que bacana.

Mas de todas essas saudades específicas, a definição mais original e a que adoro (essa sim, acho difícil de traduzir em apenas uma palavra em outra língua) é a Fernweh, que é a saudade de viajar, de ir para longe, para terras distantes.

Nossa, eu sofria de Fernweh e não sabia. Como é um sentimento crônico e a vida é curta demais para se lamentar, lá vamos nós cair na estrada de novo, mesmo que nem seja para tão longe assim.

Sei que muitos aí compartilham a mesma condição, então queria desejar que no próximo ano, todos possamos diminuir nossas Fernweh aumentando em muito as milhas percorridas e as experiências vividas.

Boa viagem!

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.