Como devia ser

30 de Outubro de 2013

Tem horas que fico pensando como foi que a coisa desandou de tal maneira que passamos achar natural coisas completamente absurdas e a achar sensacional coisas que deviam ser rotineiras. É que faz uns meses compramos um apartamento na planta aqui em Berlin. Pois esses dias a construtora promoveu o que no Brasil se costuma chamar de festa da cumeeira (Richtfest, em alemão), ou seja, a comemoração por terem colocado o último telhado. Eis que os organizadores montaram uma tenda enorme no meio da obra (os prédios têm sempre um pátio interno, que eles chamam de Hof) com toda a infraestrutura para uma festa bacana: garçons, um dos melhores buffets da cidade, brindes, decoração, tudo. Quando entramos, a única diferença notada para uma festa no Brasil é que as mesas eram enormes e compridas, para serem usadas coletivamente (aqui é comum tanto em festas de rua como em casamentos finos). Ao lado do guindaste gigante do lado de fora, que carregava suspensa uma guirlanda com fitas, tinha um palco para o tradicional discurso do dono da empresa e da secretária de obras da prefeitura (ou equivalente), que elogiou a qualidade da construção e a preocupação com o ambiente (uma parte do financiamento tem juros menores como subsídio para instalação de todos os sistemas de eficiência energética possíveis, olha aí a ótima ideia). A surpresa boa começou mesmo foi com o discurso do dono da construtora, pois ele agradeceu aos clientes, claro, mas principalmente aos pedreiros, principais responsáveis por todos estarmos lá naquele dia; depois falou dos mestres de obras e toda a hierarquia de pessoas envolvidas no trabalho, chegando até aos corretores. O engenheiro responsável falou sobre o desafio de construir fundações em um local que recebe as vibrações do metrô que passa ao lado (não tem barulho, mas os alicerces precisam de amortecimento) e como a equipe estava orgulhosa do resultado obtido. O bacana é que a coisa não ficou só no discurso não; a festa era realmente para todo mundo. A gente almoçou ao lado de dois pedreiros felicíssimos com a conquista e o trabalho realizado, dava para ver o brilho nos olhos deles. A equipe toda, que tinha trabalhado até o meio dia, passou a tarde comendo e tomando espumante junto com os clientes. O sujeito que operava o guindaste fez o maior sucesso quando entrou no recinto. Nada daquelas festas protocolares cheias de egos desfilando; era todo mundo curtindo junto um momento de alegria. A celebração de uma coisa que era boa sob todos os pontos de vista e para todos os envolvidos; lindo demais. O que me deixou chocada é que não parava de pensar que isso, no Brasil, seria inimaginável. Se o construtor fosse muito consciente, até faria uma festa, mas totalmente separada dos clientes; claro que o buffet seria mais barato, sem espumante e camarões, no máximo churrasco e cerveja. E imagina só se as madames iriam comer em mesas coletivas ao lado dos peões de obra, com aquelas botas sujas de lama? Uma coisa tão óbvia, tão lógica e tão simples, torna-se um acontecimento para uma tupiniquim como eu, que nem sabia que isso era possível. Compartilhei o fato no Facebook e muitos comentaram sobre o lindo gesto do empreiteiro como se, minha gente, reconhecer a participação dos pedreiros não fosse uma obrigação. Como se esses trabalhadores tão fundamentais fizessem parte de uma casta inferior que não pudesse se misturar, e só almas muito nobres teriam o desprendimento necessário para dar a mão a esses coitados. Ah, vá. Menos. Daí que lembrei de uma entrevista que vi uma vez na televisão com os atores Tarcísio Meira e Glória Menezes. A Glória discorrendo sobre a simplicidade e generosidade do marido (ao lado, sorridente), pois ele falava com todo mundo, até com o jardineiro. ATÉ com o jardineiro, vejam só. Na época, lembro-me que os elogios rasgados a tamanha demonstração de humildade (oi?) me embrulharam o estômago. Sinceramente, cada vez tenho mais certeza de que é aqui mesmo que eu quero ficar.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.