Indignação: privilégio para poucos...

21 de Outubro de 2013

Indignação é o sentimento de desprezo, raiva ou cólera despertado por um fato ou acontecimento considerado injusto pela pessoa indignada. Pois então: sendo um sentimento, obviamente não se pode esperar que ele seja coerente, racional ou equilibrado. E emocionar-se (ou indignar-se) é direito inalienável de todo ser humano, tenha ele uma conta em redes sociais ou não. Digo isso porque tenho observado um fenômeno que aparece toda vez que algum evento provoca indignação geral: os fiscais da internétis ficam decidindo quem tem e quem não tem o direito de se indignar. Curiosamente, essas pessoas com máquina de lavar louça em casa costumam compartilhar imagens e frases com "lições de vida" ensinando que não se deve julgar os outros. E olha que os guardiões da coerência no cyberespaço são perfeccionistas: cada vez surgem novos parâmetros para decidir quem tem mérito suficiente para demonstrar sua indignação em público e quem não tem. Por exemplo: segundo uma rápida pesquisa que andei fazendo, a pessoa só tem o direito de se indignar com o sofrimento dos Beagles do Laboratório Royal se e somente se cumprir os seguintes requisitos: 1. não comer carne; 2. não usar cosméticos desses que vendem na farmácia (remédios então, nem pensar); 3. ter se indignado anteriormente de maneira bem destacada em pelo menos dois casos envolvendo maltrato de crianças e/ou índios; 4. se for um protetor de animais precisa ter adotado pelo menos uma criança pobre ou contribuir mensalmente com o sustento de um bebê africano. Caso a pessoa não obtenha boa pontuação no teste, que fique quieta e faça de conta que não viu nada, afinal, quem ela pensa que é para se indignar? Um cidadão qualquer?   A mesma coisa acontece se alguém se escandaliza e se revolta com algum ato de corrupção. Segundo os fiscais de plantão, o escandalizado só terá o direito de se sentir um palhaço se conseguir cumprir os seguintes pré-requisitos: 1. tiver se indignado no mesmo nível ou superior com algo parecido (ou não) que o político de outro partido fez antes; 2. não ser assinante da Veja e nem assistir a Globo; 3. não tiver uma empresa (sócio ou diretor também perdem o direito); 4. ganhar menos que 5 salários mínimos. Se não gabaritar, já sabe: contenha-se, pois você já tem pecados de sobra para ser classificado como culpado de tudo isso que está aí. Pagar impostos não é requisito suficiente para se indignar com o roubo descarado de dinheiro (aliás, isso nem aparece na lista).   Está inconformado com o salário dos professores e resolveu expressar sua indignação? Cuidado! Você só obterá o alvará no caso de: 1. ser estudante; 2. ter nota acima de 7 em todas as disciplinas; 3. não faltar mais que 20% das aulas; 4. estudar e trabalhar simultaneamente; 5. não for de mini-saia para a aula (esse é realmente eliminatório). Desnecessário dizer, mas vá lá: está subentendido que só tem direito à reclamação quem estuda em escola pública (desde que não seja uma universidade federal, que é para ricos), tem bolsa de estudo ou possui cota. O resto tem que engolir a seco, pois direito de se indignar não é para burguesinhos que fazem intercâmbio.   Revoltado com o péssimo transporte público na sua cidade? Cuidado ao externar sua ira, pois só ganha o salvo-conduto para se indignar nas redes sociais se você realmente anda de ônibus, trem ou metrô. Os demais estão desautorizados e não têm nada que dar palpite. Sem mais.   Foi assaltado e resolveu mostrar sua raiva contando o relato? Olha, só passa se todos os itens forem cumpridos: 1. ganhar salário mínimo; 2. fizer pontuação máxima nos testes que indicam se você é de esquerda ou direita (claro que se tiver um pontinho para o lado da direita, está fora, amigo); 3. morar em uma comunidade carente; 4. não ter uma Hornet ou qualquer outra moto que não seja uma CG 150. Se não cumpre os requisitos, melhor ficar quieto para seu próprio bem.   É importante ressaltar que há alguns itens que desclassificam automaticamente a pessoa fazendo-a perder a razão sob qualquer ponto de vista, independente do assunto que estiver sendo tratado. Isso acontece se: 1. ela tiver um iPhone; 2. ela não cumprimentar o porteiro.   É, gente, a coisa está complicada mesmo, o pessoal que decide quem pode e quem não pode se indignar está de olho. E pelo jeito que as coisas vão, daqui a pouco só vão liberar a licença para indignação para quem tiver protocolado seu processo de canonização ou provar que recebe bolsa-família há mais de 5 anos.

É ou não é para se indignar?

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.