Educação de verdade.

11 de Julho de 2013

Volkshochschule Wilmersdorf-Charlottenburg Volkshochschule Wilmersdorf-Charlottenburg

Educação no nosso país é um problema cada vez mais sério, mas nem sempre foi tão ruim assim; tive a sorte de estudar em escolas públicas excelentes, do primário à universidade. Os professores eram motivados, as escolas tinham infraestrutura e pude contar com uma excelente formação por causa disso (e nem sou tão velha assim, em outubro completo 47 primaveras) .

 

Fico com pena dos jovens de hoje não que têm a mesma sorte. Ou nascem em famílias que podem pagar escolas particulares, ou ficam reféns de governos incompetentes e desinteressados em horizontes superiores ao período do mandato.

 

Outra coisa que observo é que quando se fala em educação no Brasil, tudo o que se discute são números; é um tal de abrir universidades e criar vagas numa velocidade tão assustadora que não me surpreende o despreparo dos profissionais que estão aí no mercado. Já dei aulas na graduação e na pós-graduação para pessoas que não teriam condições nem de ter terminado o segundo grau se a avaliação fosse séria. Semi-analfabetos fazendo MBA; uma assustadora realidade que testemunhei.

 

Não sou especialista em educação, mas quando o foco vai para a universidade em um país onde a educação básica é menos que deplorável, tem alguma coisa muito errada. Não dá para comparar, claro, até porque me falta conhecimento para isso, mas queria aqui compartilhar uma experiência que pode servir como referência e reflexão para futuros modelos; reforço que a realidade é bem diferente, mas dá para aproveitar muitas ideias.

 

Aqui na Alemanha, não há essa febre de fazer um curso superior para ser "alguém na vida". É porque aqui você pode viver a vida com relativo conforto sendo um bom profissional com uma formação técnica. Assim, a pessoa pode escolher fazer um curso técnico com estágio integrado (eles chamam de Ausbildung) e ter um salário bem razoável (já falei aqui que as diferenças salariais não são nem de perto tão gritantes como no Brasil). As universidades ficam reservadas para profissões mais específicas que precisam mesmo de mais tempo de formação.

 

Mas o fato de optar por não fazer um curso superior não significa que as pessoas não possam aprender coisas úteis no dia-a-dia para completar sua formação como cidadãos bem-formados. Aí é que entra uma coisa que sou cada vez mais fã: as Volkshochschulen (escolas comunitárias, numa tradução livre). Cada cidade tem pelo menos uma e, nas cidades maiores, cada bairro tem uma (em Berlin são 12 escolas).

 

Bom, vou falar de minha própria experiência: estou estudando alemão numa delas e ando cada vez mais encantada. Nada de aparatos tecnológicos ou performances sensacionais: é quadro, giz ou caneta e um bom e bem remunerado professor (o meu atual é PhD em linguística). O método é bem tradicional (alguns chamariam de ultrapassado), mas foi que  melhor me adaptei; agora sim, as coisas estão começando a fazer sentido (qualquer dia conto a minha epopéia no aprendizado do idioma).

 

Mas além do ensino do alemão, eles oferecem uma infinidade de oportunidades para os cidadãos se reciclarem a preços bem acessíveis: a média é € 3/hora (mais ou menos R$ 9 /aula), sendo que os desempregados e pessoas de baixa renda têm desconto de quase 50%. Os cursos podem durar de 2 a 130 horas/aula e as aulas são oferecidas em vários horários; também há edições especiais de férias e finais de semana.

 

As escolas divulgam a programação a cada semestre e confesso que estou tão enlouquecida que nem sei por onde começar. A vontade é de fazer praticamente todos, mas são literalmente milhares de cursos.

 

É claro que além das limitações de tempo e dinheiro, meu domínio tosco do idioma ainda não permite participar de cursos mais complexos como os de filosofia. Para quem gosta de estudar, isso aqui é o paraíso. Para o Estado, o esforço claro de formar cidadãos conscientes e bem-informados, cultos e profissionais competentes em várias áreas de conhecimento.

 Para todo mundo, um exemplo de como fazer direito.

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Uma amostra

Os temas foram agrupados meio informalmente, pois cada escola faz sua própria classificação e tem liberdade para oferecer os cursos que quiser. Separei alguns dos dois catálogos que peguei e fiz uma tradução livre, só para dar uma ideia...

Trabalho e carreira: Resolução de problemas e desenvolvimento de ideias; Consultoria sobre cores (como escolher as cores adequadas para cada pessoa); Marketing pessoal; Como fazer apresentações públicas; Como apresentar ideias; Como comunicar conceitos (projetos); Casting para cinema; Retórica corporal e tom de voz para apresentações; Smalltalk no trabalho; Fala segura no trabalho; Uso correto do tom de voz; Layout usando InDesign; Moda; Gestão de empresas; Gestão de projetos; Como atender ao telefone; Administração de escritórios; Estilos de liderança; Resolução de conflitos; Tipografia; Noções de Design.

Família e cotidiano: Famílias pathwork (como lidar); Adoção (informações gerais); Exercícios para o cérebro; Regras de conduta; Etiqueta nos relacionamentos: Liderança; Comunicação no Trabalho e em Família; Competências sociais; Práticas contra o Stress; Autoconhecimento; Finanças pessoais; Academia para pais com filhos de até 6 meses; Caligrafia; Massagem a dois; Como usar a Internet; Redes sociais; Aposentadoria; Filhos adolescentes.

Saúde: Práticas físicas diversas (Yôga, Pilates, condicionamento físico); Alimentação natural; Nutrição; Meditação; Relaxamento; Treinamento Mental.

Comunicação: Técnicas de Aikido para conversação; Escrita criativa; Escrita de roteiros; Escrita de Comédia; Bases do Jornalismo; Escrita de autobiografias; Histórias infantis; Composição de músicas; Peças de teatro.

Mulheres: Defesa pessoal; Auto-maquiagem; Escolha de cores; Gestão do tempo para mães com filhos; Bem-estar; Saúde da Mulher.

Política e Economia: História, União Europeia, Noções gerais de política (conceitos), Partidos políticos, Constituição, Deveres e direitos, Mundo árabe.

História: História de cada bairro da cidade (são vários), Europa, América Latina, Ásia, Egito, Guerras, História da arte.

Cultura geral: Cursos específicos nas áreas de filosofia, pintura, escultura, música, teatro, mímica, improvisação, cinema, cerâmica, dança, fotografia, decoração, jardinagem e literatura.

Gastronomia: Cozinha básica; Molhos e ervas; Cozinhas italiana, persa, libanesa, indiana, chinesa, coreana, austríaca, vietnamita, espanhola, da Moldávia, finlandesa, brasileira (!), tcheca, colombiana, indonésia; Pães e Bolos; Comidas para dar de presente (que fofo!).

Idiomas: Amharisch (uma língua etíope), chinês, inglês, francês, Linguagem dos gestos; indonésio, italiano, japonês, coreano, polonês, português, esloveno, espanhol, tailandês, tcheco, turco, úngaro e vietnamês.

Educação: Como obter uma bolsa para estudar no exterior; Como preparar um currículo; Como preparar o portfólio para concorrer ao mestrado em comunicação visual; Matemática; Geometria; Estatística; Contas para mulheres turcas.

E ainda oferecem excursões a castelos, museus e parques com os guias específicos contando a história do lugar.

Não é para a pessoa se descontrolar? Pois eu já tinha planos para ficar aqui por muito tempo, mas agora o prazo terá que ser extendido em mais 98 anos até conseguir fazer metade dos cursos...

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.