ARTIGO | A Amazon, o Estado Islâmico, o premiê japonês e o motorista do Uber

01 de Junho de 2017

por Sidnei Luiz Speckart*

Com a testa franzida o motorista Uber que me trouxe para casa ontem dizia estar preoupado com o fato estarem testando carros autônomos nos EUA e que, em breve, isso poderia tira-lo do negócio. Com entusiasmo, mas sem ironia, contei-lhe que isso era só parte da mudança e que, sim, muito rápido os carros Uber poderão ser conduzidos por sistemas autônomos. Mas ele criou duas rugas a mais quando eu disse que possivelmente não serão carros. “Como assim?”, enfileirando pontos de interrogação. 

A viagem era de uns 10 km, com trânsito, o que me permitiu dizer-lhe que a Amazon e o Google testam desde outubro passado seu sistema próprio de entregas por drones. Como 90% das entregas Amazon são de pacotes abaixo de 2kg a pesquisa está concentrada nesse perfil de demanda. Os fãs dos Jetsons já começam a pensar na possiblidade de transportar pessoas de 80 kg por drones – o que realmente botaria para fora do negócio. Nesse ponto o motora foi à forra dizendo que eu estava “viajando” e que isso estaria longe de acontecer. Mas o sorriso do seu rosto desapaceu quando eu lembrei que o “delivery” das forças armadas estadunidenses “entrega”, todos os dias, toneladas de bombas nos esconderijos do Estado Islâmico usando VANTs-Veículos Aéreos Não Tripulados – na prática, drones. 

Na semana passada o primeiro ministro nipônico anunciou o que vem chamando de a 4ª. Revolução Industrial japonesa (certamente inspirado no livro "A Quarta Revolução Industrial", de Klaus Schwab). Entre os planos de Shinzo Abe está o de aumentar a produtividade através da adoção da internet e de novas tecnologias, como a inteligência artificial. Para o premiê esta é a maior oportunidade do século para mudanças drásticas nas estruturas sociais e econômicas do país. O planejamento busca a parceria entre setores públicos e privados e inclui o uso comercial de drones. A regulação já está pronta e partir de 2018 o Japão passa a operar a entrega de pacotes por VANTs, com foco nas centenas de ilhas do seu arquipélago e nas regiões montanhosas. A partir de 2020, nas grandes cidades, como Tóquio, Kioto....
Na Europa, a quarta revolução industrial traz consigo uma tendência à automatização total das fábricas, baseada num projeto de estratégia de alta tecnologia do governo da Alemanha, trabalhado desde 2013 para levar sua produção a uma total independência da obra humana. A automatização acontece através de sistemas ciberfísicos, que foram possíveis graças à internet das coisas e à computação na nuvem.
A esta hora você deve estar se perguntando mas o que isso “tem a ver com o preço da banha”? Nesse exato momento, nada, mas pense no sem número de protótipos que estão sendo desenvolvidos, neste momento, para levar livros, roupas, alimentos, remédios, peças de reposição até a varanda dos japas e gringos.

Ah, e o Brasil nisso tudo? Para operar um drone você precisa somente de um registro simples, nada parecido - na verdade a léguas de distância de uma regulamentação de serviço como vem sendo discutida no primeiro mundo. Via de regra nosso país, como os demais da economia periférica, vai esperar EUA, Japão, Alemanha e Inglaterra terem sua legislação consolidada para, em seguida,  dar um copiar/colar.  À margem da total falta de estrutura da ANAC e dos órgãos estatais para o tratar desse assunto e a miopia do nosso Congresso,  novamente a iniciativa privada é que irá ditar o ritmo e pressionar para uma efetiva regulamentação e operação de sistemas de entrega operados por drones. Afinal, não há como freiar essa tendência. Se eu tenho uma previsão para quando isso vai acontecer? Nenhuma!

*Sidnei Luiz Speckart é profissional das áreas de  Marketing e Comercial e especialista em varejo.