MEMÓRIA | Entrevista com o comunicador Mário Motta

24 de Março de 2016

Nos últimos dias você pode ler neste canal partes de uma ampla entrevista realizada pelo parceiro blog Estopim  

Entrevista publicada originariamente em setembro de 2013.

Nos últimos dias você pode ler neste canal partes de uma ampla entrevista realizada pelo parceiro blog Estopim  com Mário Motta, comunicador do Grupo RBS Santa Catarina onde apresenta o Jornal do Almoço na RBS Tv e Notícias da Manhã na CBN Diário. As 3 primeiras partes já publicadas você confere aqui:

Parte 1

Parte 2

 Parte 3

 Jornalista Multimídia mario-motta_310Ping - Vamos entrar agora na última parte da entrevista, onde nós vamos falar sobre o profissional multimídia. Tu és um dos mais prestigiados comunicadores do Estado, no rádio e na TV. Quero que você conte o que busca desempenhar em cada mídia, vamos começar pelo rádio, no programa Noticias na Manhã, da CBN Diário. Mário Motta - Eu comecei em rádio, gosto muito de rádio. Acho que o rádio, como veículo te proporciona a fidelização do ouvinte muito mais que o público de qualquer outro veículo, especialmente na mídia eletrônica. O ouvinte é fiel e acima de tudo por um aspecto que eu acho importante no rádio, o ouvinte é o co-produtor da informação. Se você usa palavras cujo significado teu ouvinte não sabe, ele não vai entender o que você está dizendo. Então, você vai ter que buscar, na medida em que vai definindo seu público, um linguajar que lhe seja compreensível. E se você quiser estimulá-lo a buscar outras informações, que é também outra missão do rádio, não só informar, mas formar se for o caso, estimular a busca de novos conhecimentos, que você saiba como fazer isso, mesmo que seja repetitiva a informação, usando duas ou três linguagens diferentes, você consegue angariar ainda mais público. Eu acho muito mais difícil você ludibriar teu ouvinte no rádio do que na televisão. Porque assim como você acha que a minha imagem pode me denunciar mais facilmente, posso garantir que ela também pode me ajudar a “interpretar” a falsa-verdade. Depende muito do “ator” que está apresentando o jornalismo que a televisão está oferecendo.  

Ping - Mas o rádio não tem mais fantasia? Mário Motta - Então, o rádio depende mais da imaginação de quem ouve do que de quem fala. Você pode narrar um fato e ter dez pessoas ouvindo o rádio. Serão dez versões daquele fato, cada qual contando o que ouviu e/ou o que compreendeu e a partir daí serão dez versões distintas, que produzirão outras tantas... E a televisão? Como vou te dizer… eu não edito o jornal que apresento. Eu talvez seja o último dinossauro da rede toda, incluindo as afiliadas da Rede Globo, que não edita o jornal que apresenta.  

Ping - Isso é bom ou ruim? Mário Motta - Eu não sei se é bom ou ruim, mas é muito provável que eu seja o último a fazer isso. Em primeiro lugar porque houve a mudança? Por que o Cid Moreira e o Sergio Chapelin saíram do ar no Jornal Nacional? Porque o jornalismo evoluiu no sentido de entender que o âncora, o apresentador, tem que estar com o jornal inteiro nas mãos, tem que estar com os fatos na cabeça; tem que saber do que está falando, pois se for necessário acrescentar uma informação ou se excluí-la eles saberão o que fazer. Então, quando o William Bonner e a Patrícia Poeta iniciam o Jornal Nacional, eles acabaram de fechá-lo com os editores secundários. Eles são os editores. Cid Moreira e Sergio Chapelin representavam muito bem os Apresentadores, Locutores, Noticiaristas. Pois é essa a denominação que trago em meu registro profissional. Na Carteira, eu sou Locutor, Apresentador, Noticiarista. Na prática busco ser sempre mais que isso. Hoje no meu registro em Carteira lê-se Newsman. Mas, você perguntou se é bom ou mal… acho que mal ainda não é, caso contrário eu já não estaria lá. E também é possível que eu compense muito da deficiência de não acompanhar a edição das matérias ali nas ilha da televisão, com o fato de estar mexendo com as mesmas notícias, com essas matérias no rádio durante toda manhã. E se eu tenho uma informação do rádio que não entrou na matéria do jornal, eu tenho hoje a liberdade dada pelo editor chefe do jornal, para acrescentá-la no corpo do programa. Já aconteceu de eu mudar a manchete do Jornal do Almoço por conta de uma informação obtida minutos antes no programa da rádio.  

Ping - Você poderia fazer uma avaliação do Jornal do Almoço. Você, particularmente, acredita que o programa faz um bom jornalismo? Que busca atender as necessidades das pessoas? que cobra das autoridades e que consegue provocar mudanças sociais? Mário Motta - Há algum tempo tivemos que fazer uma opção. Houve uma mudança substancial na forma do nosso jornalismo e até acredito que ele tenha se tornado muito mais social, muito mais provocativo para as mudanças sociais. Evidente que isso foi provocado pela concorrência. Nós passamos a ter de algum modo uma concorrência mais acirrada, não só da parte da Rede Record, mas também do próprio SBT que faz hoje um bom jornalismo, da Band e das demais emissoras que passaram a trabalhar dessa forma. Nós pensamos muito em como fazer o Jornal do Almoço mais popular sem torná-lo popularesco.  

Ping - Qual a diferença? Mário Motta - A diferença é você fazer uso das matérias em prol do jornal ou da audiência e não das pessoas. É o sensacionalismo. Eu não estou dizendo aqui que os outros fazem isso e gostaria que as pessoas compreendessem que eu estou falando em relação ao Jornal do Almoço. Quando uma pessoa está com um problema para resolver e nós a ajudamos, buscamos o gancho de que muitas outras pessoas podem ter o mesmo problema e não sabem como resolvê-lo. Então não ficamos simplesmente no atendimento gratuito, individual, particular. Buscamos o coletivo. Essa é uma vertente.  

Ping - A gente pode até dizer que é um pouco cruel isso, mas tem que ser dessa forma? Mário Motta - Eu não sei se chega a ser cruel… Cruel talvez é o que é feito com as pessoas que nem têm a um tipo de cobrança mais fortalecida pela imprensa. Essa história de que a mídia é o quarto poder e tal, isso é relativo desde que você saiba como fazer o uso dele.  

Ping - Você concorda? Mário Motta - Eu concordo. Acho que a mídia hoje tem uma força muito grande. Às vezes, até atribuem à ela muito mais força do que tem. Mas acho que quando você usa de alguma forma o veículo (mídia eletrônica) que é uma concessão pública, não pode esquecer da sua enorme responsabilidade social. Nietzsche é quem diz, que o fato não existe; existem as circunstâncias que cercam o fato. Então cabe ao jornalismo buscar essas circunstâncias. O fato é a conclusão, o fechamento, a união dessas circunstâncias. Mas o que vai te dar o senso da avaliação, algo que o ouvinte ou o telespectador pode e deve fazer por si mesmo é o conhecimento do maior número dessas circunstâncias. Nós também cometemos alguns exageros, alguns erros, é evidente. Mas nos tempos de hoje temos feito o jornalismo do Jornal do Almoço, para transmitir além da informação geral os principais fatos que compõem e escrevem a história da cidade, do estado, da região. O que temos feito é procurar filões ligados aos principais temas que dizem respeito a quem nos assiste, as pessoas para quem e com quem trabalhamos. Tanto que o próprio institucional da RBS foi evoluindo. A gente faz PRÁ você... A gente faz COM você... Enfim, eu acho que os veículos que não se abrirem para a participação de quem os vê, tendem a fechar suas portas.   Ping - Vamos pular lá para o impresso então. Fale um pouquinho sobre a coluna do Hora. Mário Motta - A coluna do Hora começou com a escolha do nome, A Hora das ruas. Era um titulo interessante porque cabe tudo o que você quiser colocar. E a princípio a ideia inicial era falar do buraco da tua rua, era o problema da lâmpada que está queimada no poste faz duas semanas… Eram problemas comunitários. Mas eu comecei a perceber que o público do Hora pode, quer e merece mais do que simplesmente os pequenos problemas, que podem ser perfeitamente atendidos em outras páginas do jornal. E eu comecei a tentar a fazer no Hora aquilo que me apaixonou na área pedagógica lá atrás, na Educação Física. Eu comecei a provocar nas pessoas, sempre que eu posso, um questionamento do que elas querem para as suas vidas. Acredito que o forte do Hora, e aí é onde entra a coluna, é a possibilidade de usar uma linguagem simples para falar até de assuntos complexos. Apesar de estar no Hora desde a sua edição número um eu ainda encontro, às vezes, dificuldade de falar de assuntos um pouco mais rebuscados, mas não deixo de publicá-los. Porque eu tenho a impressão de que eu não posso querer nivelar o meu leitor por baixo. Eu tento usar a coluna muito pra isso, incentivar a leitura das pessoas. Além das informações que eu acredito que podem ajudar as pessoas a melhorar a sua condição como ser humano, eu publico fotos de cães desaparecidos ou que precisam de famílias para serem recebidos… e por aí vai.  

Ping - Para encerrar, eu queria saber quais são os teus sonhos e planos para o futuro, de que forma encerrar gloriosamente essa carreira? Mário Motta - Uma vez perguntaram se eu pensava em aposentadoria…Eu sou aposentado já no Estado e pelo INSS há dois anos e continuo trabalhando. E toda vez que alguém me pergunta isso eu me lembro do John Lennon que tem uma frase que é relativamente antológica que diz assim “Vida é aquilo que acontece enquanto a gente está fazendo planos para o futuro”. Eu não sei se eu vou chegar lá no futuro… Eu vivo desesperadamente o que eu estou fazendo e vivi assim até hoje. Eu não imaginava vir para Florianópolis, eu imaginava que eu ia trabalhar na RBS, eu não imaginava apresentar o Jornal do Almoço há 27 anos. Mas eu tento fazer da seguinte maneira: Hoje é isso que eu estou fazendo? É. Então eu vou tentar fazer da melhor maneira que eu puder, eu não sei por quanto tempo, nem até quando, mas é nesse encaminhamento que eu brigo, é por isso que eu luto. Eu gosto muito do que eu faço, então é como se eu não precisasse trabalhar na minha vida.

Esta entrevista foi produzida por Nícolas David – graduando do curso de jornalismo da Unisul e criador do personagem Repórter Ping-Pong que entrevista profissionais da imprensa.

Notícias Relacionadas