Redactor Comunicação | 30 anos de soluções editoriais sob medida

07 de Janeiro de 2019

Mário Xavier, fundador da Redactor conversa com editor do AcontecendoAqui

 

A Redactor Comunicação é uma empresa catarinense, com sede em Florianópolis, criada e dirigida pelo jornalista Mário Xavier desde 1988. Seu principal capital é o intelectual, somado às competências e à expertise desenvolvidas, testadas e reconhecidas no mercado do Sul do Brasil por três décadas. Ética, qualidade, criatividade, pioneirismo e excelência em determinados nichos específicos de atuação são também marcas registradas associadas à empresa e ao seu criador, que é um redator de cases de marketing dos mais experientes e requisitados, para certames estaduais e nacionais, desde 1993. Há 10 anos, a partir de 2008, Xavier edita relatórios socioambientais de empresas do setor elétrico, e tem mais de 10 livros publicados, nas últimas duas décadas, como autor, coautor, organizador ou editor contratado.

 

Em 2018, a Redactor Comunicação completou 30 anos de atividades em Santa Catarina, e Mário Xavier publicou um portfólio no qual resume o conjunto de realizações de 1988 até os dias de hoje. Nesta entrevista, o jornalista fala com exclusividade ao Acontecendo Aqui sobre a sua trajetória pessoal e profissional que alicerçou a evolução da Redactor, uma das mais longevas e reconhecidas em seu segmento no Estado, bem como analisa e prospecta caminhos e alternativas para a comunicação na era digital.
 


 

Acontecendo Aqui - A Redactor completou 30 anos de atividades no mercado de comunicação catarinense em 2018. Fale-nos um pouco sobre o que o levou a criar a empresa.

Mário Xavier - A Redactor Comunicação foi criada em Florianópolis, em 1988, menos de três anos depois de eu ter me estabelecido aqui como integrante da equipe pioneira de jornalistas que implantou o jornal Diário Catarinense (DC), na época do Grupo RBS, hoje NSC. A experiência do DC, a partir de dezembro de 1985, foi inovadora, porque tratava-se do primeiro jornal brasileiro totalmente informatizado, já que a Folha de S. Paulo, o Globo e a Zero Hora ainda estavam introduzindo parcialmente a informática em suas redações tradicionais. A primeira edição impressa do DC saiu às ruas em 5 de maio de 1986. Depois de um intenso mergulho como chefe de reportagem da editoria de economia do DC e, logo a seguir, como repórter especial da mesma editoria, eu adquiri um profundo conhecimento geral sobre a realidade catarinense, e decidi que desenvolveria minha carreira aqui, aberto a outras áreas de atuação que não apenas a imprensa diária. Este foi o embrião do sonho que me levaria a criar a Redactor no inverno de 1988.

 

AA – E como foi a experiência de participar deste projeto tecnológico pioneiro de implantação do DC em meados dos anos 1980?

MX – Foi extremamente instrutivo, gratificante e de suma importância para minha bagagem profissional. Éramos uma Redação que chegou a ter cerca de 100 profissionais, com editorias especializadas, criativas e dinâmicas, fazendo um produto de características inéditas para atender ao público leitor. Além do desafio tecnológico e das portas que a experiência abriu para jornalistas catarinenses e de outros Estados, o DC representou um projeto editorial ambicioso e abrangente, que pela primeira vez integrava on-line todas as regiões de Santa Catarina por meio de redações eletrônicas com intranet, em 1985, em seis cidades-polo e suas respectivas áreas de abrangência: Florianópolis, Criciúma, Lages, Blumenau, Joinville e Chapecó. Claro que, considerando a tecnologia e a infraestrutura de 33 anos atrás, pagamos o preço do pioneirismo, enfrentando inúmeros desafios quanto à nova tecnologia integralmente baseada em computadores da Digital (EUA), terminais inteligentes e processadores de textos especialmente adaptados, além da diagramação, do sistema comercial e industrial do jornal, que também eram informatizados. Tratava-se, portanto, de uma nova cultura de produção jornalística sendo criada não apenas em Santa Catarina, mas no Brasil.

 

AA – Ainda desse tempo, você guarda alguma outra lembrança de significado especial?

MX – Foi um período no qual fiz amizade com muitos colegas com quem me relaciono até hoje. Também conheci jornalistas de outros jornais, emissoras, redações e do Sindicato da categoria, onde anos mais tarde eu viria a integrar a Comissão de Ética. Um dos fatos mais emocionantes de minha passagem pelo DC é que tive a honra de receber o primeiro prêmio do jornal, o BRDE de Jornalismo Econômico, em dezembro de 1986, com a reportagem “Nasceu João: ele já tem uma dívida de Cz$ 2.160,00”. A matéria foi resultado de uma pesquisa profunda e inédita sobre as finanças públicas de Santa Catarina e a evolução da dívida pública ao longo de vários governos. 
 

AA – Qual tinha sido a sua formação e experiência como profissional antes de trabalhar no DC?

MX – Eu havia concluído a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Social (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em julho de 1982. A Fabico fora criada em 1970. Fui aluno de alguns professores que tinham feito parte da primeira geração de graduados da Faculdade. E minha formação acadêmica e o começo de minha vida profissional ocorreram entre o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Foi um período muito rico e efervescente, no qual tive a oportunidade de trabalhar numa editora especializada em jornalismo, fazer freelance para revistas e jornais, e atuar três anos num departamento de revistas especializadas da Zero Hora (RBS), em Porto Alegre, mas com abrangência temática incluindo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Meu forte era o jornalismo econômico, tecnologia e ecodesenvolvimento. Portanto, vim para Santa Catarina já com uma experiência inicial e convidado a integrar a primeira equipe que foi treinada na nova redação informatizada e planejou o lançamento do DC, de dezembro de 1985 a abril de 1986. Além de aplicar meu treino e minhas competências de repórter e redator, atuei como chefe de reportagem e editor. Aprimorei, assim, uma visão ainda mais apurada de trabalho em equipe, gestão do produto jornalístico, relações com o mercado e com a sociedade.

 

AA – Mas antes mesmo de sua graduação em Jornalismo no Rio Grande do Sul (UFRGS) e de se radicar em Santa Catarina, você teve outras experiências que também marcaram a sua formação humana e profissional. Fale-nos um pouco sobre elas.

MX - Bem, antes de ingressar na Fabico/UFRGS, em 1976, eu participara por um ano − de 1974 a 1975 − de uma vivência familiar, acadêmica e cultural nos Estados Unidos, por meio do AFS Intercultural Programs, a mais antiga ONG especializada no intercâmbio internacional de estudantes, desde 1946, após o final da Segunda Guerra. O nome original do AFS era American Field Service, um serviço voluntário de ambulâncias que socorria feridos nos campos de batalha na Primeira e Segunda Guerras. Após o término da última Guerra, o AFS se transformou numa ONG voltada a promover a paz, o entendimento e a fraternidade mundial ao incentivar o intercâmbio de jovens de diferentes nacionalidades, raças, gêneros, crenças e ideologias. Foi com este espírito, adequado aos anos 1970, que eu concorri num processo estadual, nacional e internacional e fui selecionado como bolsista do AFS para uma vivência de um ano na cidade de Parsippany, estado de New Jersey, na região metropolitana de New York City.

 

AA – E como foi esta experiência? De que modo influenciou suas futuras opções pela Comunicação e o Jornalismo?

MX – Tive a sorte de ser instalado, como bolsista, na Costa Leste dos Estados Unidos, vivendo a poucos minutos de New York − a “Big Apple” −, onde tive acesso a museus, Central Park, cinemas, teatros e outras manifestações culturais. Na escola em que estudei por um ano letivo completo, cursei a disciplina de Behavioral  Sciences, pela qual, quatro vezes por semana, por duas horas, me encantei com estudos e pesquisas nas áreas de Sociologia, Antropologia e Psicologia. Também estudei Literatura americana e inglesa, Desenho, Escultura, Arte do Cinema, Relações Humanas, História e Sistema Político Americano. No ano em que lá vivi, estourou o escândalo de Watergate, com a renúncia do presidente Richard Nixon; e a Guerra do Vietnã terminara, depois de duas décadas que envolveu muito sofrimento e protestos no mundo e nos EUA. A democracia americana estava em xeque. Havia um questionamento intenso e explícito sobre política, corrupção, cidadania, comportamento, consumismo, poluição, ecologia, pacifismo. Eu lia e refletia sobre estes temas nas aulas, com colegas, amigos; pelos jornais, revistas, televisão e por filmes que o Centro de Mídia da escola fornecia para as disciplinas temáticas, seminários e outros eventos, incluindo convidados e palestrantes. Ao voltar ao Brasil, decidi que Comunicação Social era o curso que melhor propiciaria manter-me sempre informado, em dinamismo, transitando por assuntos sociais, culturais, econômicos, comportamentais, tecnológicos, humanos. Por isto fiz o vestibular visando o Jornalismo, em dezembro de 1975, em plena vigência da ditadura militar e do AI-5 no Brasil.

 

AA – Mas antes mesmo dos Estados Unidos e da vinda definitiva para Florianópolis, ouvi que você teve uma passagem por Santa Catarina que também lhe inspirou pessoal e profissionalmente. Quando e como foi isso?

MX – Verdade. Foi um acontecimento marcante, quando adolescente, e que teve relação com minha infância, em Porto Alegre, onde nasci em 1956. Na rua em que minha família morava, a Tomás Flores, entre os tradicionais bairros Independência e Bom Fim, eram nossos vizinhos os Fedrizzi, cujo pai, Nestor Carlos Fedrizzi, era jornalista, professor da Famecos/PUC (hoje Escola de Comunicação, Artes e Design) e diretor de redação da Última Hora (atual Zero Hora). Eu era amigo de um de seus filhos que regulava de idade comigo, o Luiz Paulo Fedrizzi. Em setembro de 1971, Nestor mudou-se para Blumenau, Santa Catarina, para liderar a criação do Jornal de Santa Catarina (JSC) e dirigir o telejornalismo da TV Coligadas. Visitando Blumenau a convite de Luiz Paulo, fui recebido na casa do veterano Nestor por volta de 1973, quando eu tinha cerca de 17 anos. Nestor fez questão de me apresentar todas as instalações do jornal e explicar como funcionava cada área e os respectivos serviços. Como eu na época fazia fotografia e estava com uma Ricoh 35 mm em punho (mais uma teleobjetiva de 120mm), Nestor chegou a me dizer que havia vaga para fotógrafo no jornal e me perguntou se eu não queria ficar lá! Fui pego de surpresa, e não havia condições práticas de eu fazer uma opção como aquela, na época. Mas creio que, no fundo, foi o primeiro e grande “estalo” que terminou sendo um presságio de para onde minha vida profissional iria caminhar alguns anos mais tarde. Registre-se que o JSC, ao seu tempo, foi o primeiro jornal com sucursais e correspondentes que cobriam todo o Estado, além de ter inaugurado a era da impressão offset em Santa Catarina. Também em plena ditadura – em relação a qual eu ainda não dimensionava por completo o quão graves eram todas as implicações e consequências −, me chamou a atenção o fato de Nestor Fedrizzi ter me dito que os jornalistas do JSC, sob a sua direção, “trabalhavam com liberdade, sem censura”.

 

Mário Xavier entrevistado por Marcelo Fernandes, em 1988, depois de um tour pelo Oriente e Europa.

Mário Xavier entrevistado por Marcelo Fernandes, em 1988, depois de um tour pelo Oriente e Europa.

AA – E voltando ao final dos anos 1980 e começo dos 90, como se deu a sua transição do mundo de profissional da imprensa diária no DC para empreender como autônomo na área de Comunicação, por meio da Redactor? E os principais desafios?

MX – Eu estudara, de 1976 a 1982 (com uma interrupção em parte de 1977 a 1978), numa Faculdade que abrangia os Cursos de Jornalismo Gráfico e Audiovisual, Publicidade e Propaganda (P&P) e Relações Públicas (RP). Tínhamos uma base comum de formação até determinados semestres, e convivíamos, pois, com estudantes, professores e jovens profissionais de todos estes campos. Embora minha ênfase na graduação final tenha sido o Jornalismo, desenvolvi desde o princípio familiaridade e interações, também, com as áreas de P&P e RP. Ainda estudante, fiz freelance como redator − e eventualmente tradutor − para agências de publicidade, assim como me iniciei na reportagem, redação e edição no jornalismo. Fui funcionário concursado, em Porto Alegre, da Coordenadoria de Comunicação do então Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS). Aqui em Santa Catarina, também fizera assessoria de imprensa para uma instituição tecnológica de ponta, a Fundação CERTI, vinculada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Portanto, após os anos de prática como jornalista em revistas e no DC, somados a estas outras experiências, me senti capacitado e vocacionado para empreender por conta própria num ramo que ainda não era tão comum, fora das redações da mídia impressa e eletrônica ou das assessorias de imprensa tradicionais. Estavam despontando conceitos como capital intelectual, empreendedorismo e home office, com a chegada dos microcomputadores (ainda sem internet de uso amplo) e do fax. Foi este o contexto que motivou a criação da Redactor Comunicação, em 1988, para oferecer produtos e serviços que atendessem novas e dinâmicas demandas do mercado estadual de uma maneira original, customizada, que exigia expertise e competências específicas.

 

AA – Que tipos de clientes e serviços a Redactor Comunicação passou a atender?

MX – Os clientes da Redactor compunham um espectro bem diversificado, mas tinham como base a produção textual para fins jornalísticos, publicitários, institucionais e de marketing. Aliás, o primeiro nome da empresa foi “Redactor – Produção de Textos”. Um nicho específico que atendíamos era o de agências de propaganda e comunicação e assessorias de grandes empresas ou organismos públicos. Também realizava reportagens e artigos como freelancer para veículos de fora de Santa Catarina, como jornais e revistas. Era contratado ainda para assessorias de imprensa pontuais a eventos, produção de speeches e pesquisa e texto para publicações ou livros. O universo de atividades era tão dinâmico e variado, que a minha filha pequena tinha alguma dificuldade em responder às coleguinhas quanto lhe perguntavam “com o quê o seu pai trabalha” (risos).

 

AA – Você e a Redactor Comunicação angariaram reconhecimento no segmento de redação de “cases” em Santa Catarina, com dezenas de premiações conquistadas para diversos clientes ao longo dos anos. Como se deu o seu ingresso neste segmento?

MX – Minha atividade no nicho de “cases” nasceu por um convite do grande profissional e amigo Antunes Eurides Severo (falecido em 2017). Eu trabalhara com ele na Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de Santa Catarina e, noutra fase, também prestara serviços como jornalista, para publicações que ele representava no Estado. Em 1993, ele me indicou a uma grande empresa catarinense que aspirava muito conquistar o cobiçado “Top de Marketing” da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing de Santa Catarina (ADVB/SC). Eu estudei o regulamento, fiz um briefing minucioso com o cliente, realizei uma pesquisa exigente, e redigi o meu primeiro “case”, que foi vitorioso. Este foi o ponto de partida que alavancaria uma série de novos jobs nos próximos anos. Desde então, foram mais de 80 trabalhos vencedores, para 30 clientes, em 11 diferentes premiações no âmbito estadual e nacional. O objetivo dos “cases”, na sua maior parte, foi para certames de marketing, mas incluíram também outras temáticas específicas como cultura, cidadania, participação comunitária, direitos humanos, preservação ambiental, tecnologia, gestão de pessoas, turismo, exportações. Gosto muito deste nicho, porque me mantém sempre aprendendo sobre diversos assuntos e me atualizando sobre histórias de sucesso em nosso Estado e no País.

 


Equipe da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de Santa Catarina em 1990, quando Mário Xavier foi Coordenador de Imprensa.

 

AA – Que diferenciais e atitudes você entende que contribuíram para o seu sucesso no nicho de “cases”?

MX – Para exercer esta atividade, reuni minha experiência jornalística com o conhecimento de publicidade e marketing, aperfeiçoando ao mesmo tempo a estruturação técnica dos “cases” com os métodos de storytelling. Não há uma fórmula única para o sucesso das estórias que escrevo, mas o primeiro passo são os critérios que aplico para diagnosticar com precisão o caso que o cliente me apresenta e se tem potencial adequado para competir em determinado certame. Superada esta etapa, há toda uma metodologia que a Redactor criou para pesquisar, coletar os dados, tratar as informações, elaborar estratégias, redigir o “case” e, frequentemente, organizar também os seus anexos. Nossa margem de vitória situa-se acima dos 9 entre 10 trabalhos inscritos. Mas tudo depende, também, do formato de cada premiação, da qualidade e competividade dos demais “cases” concorrentes, assim como dos critérios e deliberações dos jurados, sobre os quais a Redactor jamais interferiu de qualquer forma, ao longo de 25 anos, mantendo-se absolutamente ética, isenta e independente.  

 

Mário Xavier quando ombudsman de imprensa do jornal A Notícia Capital_1995-1997
AA – Houve um momento em que você parou com as atividades mais intensas da Redactor e aceitou o cargo de ombudsman de imprensa, o primeiro e único do Sul do Brasil até o momento. Como foi essa experiência?
MX – Em meados dos anos 1990, mais especificamente em 1995, fui convidado para assumir a função de ombudsman de imprensa do jornal A Notícia Capital (ANC), então do Grupo A Notícia, de Joinville. A Folha de S. Paulo tinha criado pioneiramente no Brasil a figura do ombudsman, em 1989, e o ANC decidiu incluir no seu projeto de jornalismo para Florianópolis e Região um profissional que fosse o representante do leitor na Redação, fizesse a crítica interna do jornal e escrevesse uma coluna semanal sobre o assunto. Exerci com muito afinco e dedicação tal desafio, por dois anos, até 1997. Em 1996, tive a honrosa e ímpar oportunidade de participar da Conferência da Organization of News Ombudsmen (ONO), na Filadélfia (EUA), junto com colegas de diversos países. Esta minha experiência no ANC, junto com a de outros ombudsmen brasileiros nos últimos 30 anos, foi recentemente compilada no livro “Ombudsman no Jornalismo Brasileiro”, organizado pelos jornalistas e professores Elaine Javorski e Sérgio Gadin, com prefácio de Caio Túlio Costa (primeiro ombudsman do Brasil) e posfácio de Estrela Serrano.

Mário Xavier no período em que foi ombudsman de imprensa do jornal A Notícia Capital (ANC), em Florianópolis, de 1995 a 1997.

 

AA – O jornalismo literário – ou a literatura jornalística – é outro dos segmentos que você e a Redactor Comunicação têm se dedicado já há algum tempo. Comente a respeito de como evoluiu esta expertise.

MX – A produção textual jornalística, desde a Faculdade e ao longo da vida profissional, lhe treina para a elaboração de um diversificado conjunto de notas, registros, releases, reportagens, artigos. As técnicas de apuração, redação e edição de dados e imagens vão se aperfeiçoando e sofisticando de acordo com a complexidade e dimensão das tarefas, no caso de grandes reportagens, balanços e relatórios informativos, position papers, kits de imprensa, speeches para diferentes finalidades. Simultaneamente, a capacidade de entrevistar, pesquisar, analisar, interpretar e sintetizar vai amadurecendo, e você se capacita a lidar, cada vez mais, com grandes volumes de informação e iconografia. Tudo isto converge para uma das tarefas que pode se tornar das mais essenciais e nobres do jornalista: a adaptação e criação de conteúdos para livros e obras em estilo literário-jornalístico, como você se refere. Entendo que a evolução de minhas atividades para a produção de livros próprios ou sob encomenda de terceiros foi um processo natural e que vem se consolidando continuamente, para mim e a Redactor, desde o começo dos anos 1990. O primeiro e um dos maiores desafios neste campo foi o convite que recebi da Hering Têxtil, em 1992, para pesquisar, redigir e editar uma obra que fizesse um balanço socioambiental das indústrias do Grupo para ser distribuído a clientes no Brasil e no exterior. A publicação que resultou daquele inusitado job – cujo título final foi “O Desafio Ambiental” − me demonstrou a possibilidade de tratar temas complexos e convencionalmente intrincados, especializados, numa linguagem e formatação jornalística acessível ao público médio e leigo. Daí em diante, realizamos diversas obras dentro da expertise que denomino de “assessoria editorial”, e que pode englobar desde a concepção do produto, sua estrutura de conteúdos, até a pesquisa, redação e edição. Tarefas mais específicas podem incluir consultoria editorial e preparação de originais. Tais expertises também se mostram úteis quando agregadas à produção de roteiros de vídeos, conteúdos de websites, ebooks ou outras opções de mídia, incluindo as digitais.

 

AA – Você tocou, agora, neste assunto de mídias digitais. Como você tem observado a evolução e a dinâmica deste universo digital, virtual, e o papel do jornalista, do comunicador, neste novo contexto?

MX – A expansão, e quase universalização da Web, da internet e do mundo dito digital, certamente tem constituído uma disruptura com todo o universo anterior da comunicação e das mídias que conhecíamos, convencionalmente, até os anos 1970 e 80. O impacto do digital nos negócios, na propaganda, no jornalismo, no comportamento e nos hábitos da sociedade, notadamente a partir dos anos 1990, tem determinado profundas e até certo ponto irreversíveis mudanças na forma que sentimos, pensamos, nos comunicamos e interagimos com as pessoas, com o trabalho, com as organizações, com o mundo. Trata-se de uma quebra de paradigma, ainda em curso, e com consequências até certo ponto previsíveis e, simultaneamente, impossíveis de serem totalmente prospectadas e previstas com segurança. O ritmo, a variedade e a multidimensionalidade das inovações têm nos assombrado quase que diariamente. Por consequência, o desafio do jornalista e do comunicador neste contexto tornou-se também exponencialmente maior. Num ambiente onde a competição pela atenção do indivíduo − seja ele usuário, consumidor, cidadão − tornou-se questão de sobrevivência, é necessário ter mais talento, responsabilidade e criatividade na geração e veiculação de conteúdos e mensagens. Relevância, clareza, assertividade, originalidade, emoção, impacto, humor, transcendência, são atributos crescentemente valorizados neste novo cenário. É preciso comunicar e despertar experiências, sentimentos, vivências, mais do que apenas vender produtos, serviços, ideias, discursos. E, particularmente, quanto ao jornalista, a credibilidade e a consistência dos conteúdos devem continuar constituindo a essência de veracidade e realidade que embasa todo o genuíno processo de comunicação. Numa era de fake news, “pós-verdades” e “autoverdades”, mais do que nunca ser competente e eficaz significa apurar, redigir e editar conteúdos relevantes, idôneos, honestos, que respeitem a inteligência, os sentimentos, a individualidade, a integridade e a subjetividade do público. Ética, correção e transparência são exigências cada vez mais elementares e indispensáveis na comunicação. E estar em linha com estes princípios e valores é a contribuição fundamental que o jornalista e o comunicador devem lutar para preservar e expandir, também, no mundo digital. É assim que tenho me posicionado e a forma que a Redactor tem trabalhado, há 30 anos e para os tempos à frente.

 

AA – Por sinal, concluindo nossa entrevista, me ocorre lhe perguntar ainda sobre sua experiência com a edição de relatórios socioambientais, que são também peças editorais com o objetivo de dar transparência às ações empresariais, dentro do conceito de accountability.

MX – Sim, bem lembrado. Este termo accountability, do inglês, traduz muito do que a nova comunicação impõe a todos, no que tange à necessidade de ética, responsabilidade, transparência e honestidade que as organizações (públicas, privadas ou do terceiro setor) têm obrigação de praticar com os seus respectivos públicos de interesse – sejam internos, externos, parceiros, fornecedores, clientes, agências reguladoras, a sociedade de uma forma mais ampla. Desde 2008, em especial, a Redactor Comunicação tem prestado um serviço especializado na edição de relatórios socioambientais, particularmente para empresas de transmissão de energia elétrica. A partir de 2007, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) exige do setor elétrico a apresentação destes relatórios com a função, justamente, de accountability, de prestação de contas à sociedade. Não basta mais as empresas informarem seus balanços com resultados financeiros e contábeis: elas precisam detalhar o conjunto de ações que empreenderam com relação ao meio ambiente, aos funcionários, aos moradores vizinhos às linhas de transmissão, a investimentos em pesquisa e tecnologia obrigatórios que fizeram, em benefício maior de comunidades e regiões onde atuam. A função do jornalista e do comunicador no processo de edição destes relatórios socioambientais é exatamente o de promover uma coleta de dados integrada e inteligente entre os diversos setores de determinada empresa, compilando e editorando conteúdos e imagens de forma profissional, em linguagem e formato acessíveis, de modo que possam cumprir sua função social e de transparência. Nesta linha, há diversos outros campos e nichos de atuação mercadológica, institucional e humana nos quais o bom jornalismo pode continuar contribuindo como ferramenta de produção e veiculação de conteúdos relevantes do ponto de vista cidadão, econômico, social, cultural, ambiental, comportamental.