ENTREVISTA | Acari Amorim: Vinho leva nova riqueza para a Serra catarinense

06 de Abril de 2016

Jornalista de sólida carreira ( O Globo, Veja e RBS) e hoje empresário ( dono da Editora Empreendedor que completou 20 anos no mercado nacional), Acari Amorim é o pioneiro no plantio de uvas e produção de vinhos na altitude de Santa Catarina. Junto com mais dois sócios, em 1999, preparou o solo para o plantio das primeiras parreiras em São Joaquim e criou a Quinta da Neve, hoje uma das vinícolas mais premiadas e conhecidas do Brasil.

Depois dos primeiros 17 anos, a região que engloba a Serra e o Meio Oeste catarinense já soma 35 projetos diferentes e cobre uma área de 600 hectares, com 20 vinícolas já no comércio de 200 rótulos diferentes, num total de 1 milhão e 200 mil garrafas por ano. Nesse período, desde o plantio até as estruturas de vinificação, visitação e comércio, as vinícolas já alcançam um investimento total que este ano deve chegar perto de R$ 500 milhões.

Nos últimos três anos, como presidente da Acavitis, hoje Vinho de Altitude Produtores Associados, Acari Amorim idealizou a Vidima de Altitude, que não é apenas uma festa da colheita, mas um amplo festival artístico cultural que envolve 12 cidades diferentes. Na última Vindima, realizada durante todos os finais de semana desse mês, encerrada no último dia 27, a região recebeu 55 mil visitantes, movimentando toda a cadeia do turismo, como hotéis, pousadas, restaurantes, além das vinícolas.

Agora, Acari está disposto a encarar uma nova empreitada: ser prefeito de São Joaquim e já é pré-candidato pelo PSD, o partido do governador Raimundo Colombo. “Adoro vinho e acredito na força do enoturismo e do turismo como um todo, dentro de um projeto futuro para o desenvolvimento econômico e social da região de altitude”, assegura.

 

Acontecendo Aqui - O que a Vindima representa para a região?

Acari Amorim: A vindima é a colheita da uva. Um momento especial para os produtores, pois é o momento de colher e começar a produção de novos vinhos. Para nós, produtores na altitude de Santa Catarina, fazer vinho é antes de tudo uma arte. Produzimos de forma artesanal, em busca da qualidade. Por isso tornamos esse momento da colheita um festival artístico, cultural, com concertos de música clássica, música popular, rock, dança, teatro e poesia, que envolve além de São Joaquim mais 11 municípios da Serra e do Planalto do Contestado que plantam uvas e produzem os vinhos de altitude. A Vindima, no entanto, é apenas uma ponta do que queremos para a região: criar um grande pólo de turismo como um todo, com um grande foco no enoturismo. O vinho é um grande catalisador do turismo, pois estimula o fortalecimento e o surgimento de novos hotéis, novas pousadas, restaurante, cafés, o artesanato. Temos uma paisagem única, bela, sem igual no mundo, formada por vistosas montanhas, os pinheiros, as antigas taipas dos tropeiros e o espetáculo da neve em muitos anos. Temos uma gastronomia rica e variada: a carne bovina, o frescal, a truta, o queijo serrano, o pinhão e a maçã. Agora, com características especificas de solo e clima estamos produzindo  o vinho de altitude  que já é reconhecido e premiado em todo o país e no exterior também. Sem dúvida, abrimos uma nova fronteira no Brasil para a produção de vinhos de alta qualidade. Acredito também que estamos criando um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social para a Serra e para o Meio Oeste de Santa Catarina.

 

Acontecendo Aqui - Este ano aconteceu a terceira vindima. Quais os atrativos que o visitante encontrou?

Amorim: A maior mudança foi que ampliamos de um final de semana para os quatro finais de semana do mês de março. Assim conseguimos ampliar o número de turistas e visitantes que foram até as vinícolas participar da colheita, provar e comprar vinhos, além de acompanhar as diferentes atrações culturais pelas diferentes cidades, freqüentar os restaurantes e cafés da região que ofereceram cardápios especiais para harmonizar com os vinhos de altitude. Os hotéis e pousadas vão registrar o mês de março deste ano como o período de maior freqüência de hospedes dos últimos anos.  Nessa Vindima realizamos apenas num final de semana ( 11,12 e 13 março) uma exposição com degustação de 13 vinícolas da altitude, no centro de eventos de São Joaquim. Foi pouco. No ano que vem vamos realizar pelo menos mais um final de semana. Se for possível vamos realizar nos quatro finais de semana de março essa exposição e degustação de vinhos da altitude.

 

Acontecendo Aqui - Qual a expectativa para a colheita deste ano?

Amorim: Nesses 17 anos dos primeiros plantios certamente essa será a safra mais difícil. Ocorreu uma forte geada, que alcançou até 6 graus negativos, nos dias 11 e 12 de setembro do ano passado. Durante todo o ano passado e início deste ano temos registrado um excesso de chuvas. Alguns períodos também tivemos um pico de sol. Essas mudanças bruscas de temperatura prejudicam o desenvolvimento natural da uva. O ideal que a chuva e sol ocorram em períodos bem intercalados.

Assim,  fizemos um raleio, uma seleção mais rigorosa nas parreiras. No final da colheita vamos ter uma redução de 20 a 30 por cento. Mas vamos produzir uvas e vinhos de excelente qualidade como nos últimos anos, embora com uma quantidade menor.

 

Acontecendo Aqui - Durante a  Vindima deste ano foi inaugurada uma nova vinícola, a Leone di Venezia. Estão surgindo novos projetos?

Amorim: A Leone di Venezia é uma vinícola de charme, uma boutique, onde o casal Bianco faz vinhos de forma artesanal. Ali nascem excelente vinhos com destaque para as uvas italianas, entre elas a Sangiovese e a Montepulciano, muito bem adaptadas ao nosso solo e clima. A Leone di Venezia veio se integrar com outras 10 vinícolas da Serra e do Meio Oeste, todas com charme que já têm estrutura e podem receber bem turistas de todo o país.  Posso assegurar que nos próximos anos pelo menos uma nova vinícola será inaugurada a cada ano. No ano que vem pelos menos duas novas serão inauguradas.

 

Acontecendo Aqui - Em que estágio está em termos de qualidade os vinhos de altitude em relação aos outros estados do Brasil e em relação ao Chile e a Argentina?

Amorim: Nós da Vinho de Altitude Produtores Associados trabalhamos em favor do vinho brasileiro, em favor do vinho nacional. A qualidade em geral do vinho nacional cresceu muito nas últimas décadas, em SantaCatarina e no Rio Grande do Sul. Em especial sobre os vinhos de altitude de Santa Catarina posso assegurar que estamos no nível dos melhores do mundo. O nosso Sauvignon Blanc, por exemplo, está no mesmo nível de qualidade ao da Nova Zelândia que é a melhor referência no mundo desta uva. O nosso Pinot Noir pode ser comparado com os melhores da Borgonha, na França, que é a melhor referência desse vinho no mundo. Estou falando de Pinot Noir que é a uva mais difícil de plantar e depois para fazer o vinho. Quem planta bem e faz um bom Pinot Noir certamente poderá produzir bem muitos outros vinhos. Com as uvas italianas (Sangiovese e Montepulciano) estamos fazendo excelentes vinhos com cortes de duas até cinco uvas diferentes, entre elas o Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, o Merlot, a Touriga Nacional e o Malbec.

O que nós conseguimos na altitude catarinense em 15 a 17 anos, muitas regiões do mundo levaram mais de 100 anos, justamente porque começamos desde o início com um alto padrão de qualidade, desde o plantio até a vinificação final.

 

Acontecendo Aqui - Os vinhos de altitude de Santa Catarina recebem muitos elogios, já ganharam diversos prêmios nacionais e internacionais, mas são considerados caros. Por que?

Amorim: Justamente porque utilizamos as técnicas de plantio e as tecnologias de vinificação mais modernas, inovadoras. Nossas mudas foram importadas da França, Itália e de Portugal. Plantamos no sistema chamado de espaldeira. Nesse sistema, de baixa e selecionada produção, as parreiras de uvas formam pequenos arbustos e recebem o sol durante o dia todo, de todos os lados. O clima e o solo estão também ao nosso  favor. Os dias alcançam temperaturas de até 25 graus e as noites têm temperaturas médias de 10 graus. Com a queda da temperatura a noite, a parreira descansa nesse período e prolonga o seu ciclo de amadurecimento, alcançando alto grau de açúcar natural, além de concentrar muita cor e diferentes aromas. Todas as nossas vinícolas utilizam tanques de aço inox e passam seus vinhos em barricas de carvalho francês. É bem diferente do que fazem grandes indústrias da Argentina e do Chile. Eu não disse vinícolas, mas verdadeiras indústrias, pois vinificam em tanques de mais de 1 milhão de litros e jogam madeira picada dentro e outros sabores artificiais. Só para dar uma dimensão: 1 milhão de litros é um pouco menos do que produzem, por ano, todas as vinícolas de altitude de Santa Catarina, hoje 20 delas com garrafas no mercado, produzindo no total 1 milhão e 200 mil. Só uma vinícola chilena (  a Concha e Toro) produz nada menos do que 400 milhões de garrafas por ano. Assim nossos preços têm que ser mais caros, pois tratamos o vinho de forma selecionada, natural, saudável. Os bons vinhos argentinos e chilenos, feitos de forma natural, correta, são também caros.

 

Acontecendo Aqui - Você se lançou pré-candidato a prefeitura de São Joaquim, pelo PSD, o mesmo partido do governador Raimundo Colombo. O que você pretende?

Amorim: Sou, antes de tudo,  um apaixonado pelo vinho. Bebo praticamente todos os dias junto com as refeições. Isso me faz muito bem, especialmente em volta de pessoas amigas. No entanto, vejo o vinho também como um produto, um negócio que tem que ser rentável para o produtor, embora só se alcance isso no médio a longo prazo. Os primeiros 5 a 10 anos são só de investimentos. A vantagem é que a parreira vive mais de 100 anos e a cada ano produz melhores uvas, pois suas raízes vão cada vez mais fundo em busca de sais minerais e outros nutrientes da terra.  

Quero ser prefeito de São Joaquim, pois vejo no vinho e no turismo como um todo, a oportunidade de crescimento econômico e social de toda uma região que abrange pelo menos 12 municípios diferentes na Serra e no Meio Oeste catarinense. São municípios que têm os menores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) não apenas de Santa Catarina mas também estão entre os mais baixos a nível nacional. São Joaquim e toda a região em volta podem receber turistas o ano inteiro, por tudo que temos aqui para o enoturismo e o turismo como um todo. O melhor dinheiro que pode entrar numa cidade é o do turista. Ele chega e deixa o dinheiro dele no hotel, na pousada, no restaurante, nas lojas da cidade e vai embora. Não precisa do sistema de saúde, de educação e muitas vezes nem do transporte público. É com esse dinheiro do turista que a cidade terá condições, em primeiro lugar,  de oferecer melhores serviços públicos para os seus moradores, que vivem no local o ano inteiro.

Para alcançar isso, especificamente em São Joaquim, precisamos revitalizar todo o centro, concluir o aeroporto, pavimentar ou melhorar muito todos os acessos aos pomares de maçã, pousadas e vinícolas, definir um calendário de eventos para todo o ano e estimular e trazer novos investidores para a cidade.  Investidores dispostos a incrementar o turismo como um todo. Acredito também na viabilidade de dois novos pólos econômicos: um da alta moda de inverno e outro de cosméticos e produtos de higiene a base de uva e maçã.

Numa iniciativa da Vinho de Altitude Produtores Associados lançamos no ano passado o Projeto São Joaquim – Destino Turístico, justamente para a cidade alcançar esse estágio. Com a coordenação geral do empresário e agora também produtor de vinhos na cidade, Vicente Donini ( Marisol) formamos 19 grupos diferentes, envolvendo 135 pessoas da comunidade. O primeiro resultado desse amplo trabalho é a vinda para a cidade das principais entidades do País, já este ano: Senai, Senac , Sebrae, Fecomércio e Facisc. O principal objetivo dessas entidades será o de formar mão de obra e estimular o surgimento de novas empresas focadas na cadeia produtiva do turismo.

Tudo isso está sendo possível muito devido ao empenho do governador Raimundo Colombo. Sem dúvida é o governador que historicamente mais investiu na cidade, num valor que já superou R$ 200 milhões. Ele está comprometido em desenvolver toda a região e isso é muito importante. Tenho uma antiga relação de amizade e admiração por ele e isso certamente me estimulou a tomar a decisão de ser pré-canditado e poder ajudar também no projeto de desenvolvimento da cidade.

 

Acontecendo Aqui - Quais são os obstáculos para o crescimento do enoturismo e do turismo como um todo na Serra e no Meio Oeste?

Amorim: Temos sérios obstáculos estruturais. O principal deles é a pesada carga tributária sobre o vinho. Uma garrafa de vinho contém 65% de impostos. A nossa carga do vinho é a mesma da cerveja industrial e do uísque. A maioria dos países produtores de vinho, considera essa bebida um complemento alimentar e taxa em níveis muito baixo ou zero. Toda a infra-estrutura ainda é deficitária, nas estradas, na energia elétrica e em todo o complexo da comunicação, especialmente da internet.

Precisamos ainda de muitos investimentos, públicos e privados. Considero o chamado Caminho da Neve de fundamental importância, pois vai ligar Gramado a Florianópolis, passando por São Joaquim, com uma redução de 100 quilômetros. Sem dúvida essa será uma das rotas turísticas mais importantes do País, que vai gerar milhares de oportunidades de negócios, empregos e renda para diferentes cidades. O governador Colombo está fazendo a sua parte e conclui o trecho catarinense até o final do seu governo. Do lado gaúcho está parado. É uma pena, um atraso de desenvolvimento. 

Não tenho dúvidas que essa rota Caminho da Neve ou rota Serramar, será mais importante, mais vital, que vai gerar mais empregos e riquezas do que trazer todas as montadoras de carros, tratores, caminhões do mundo inteiro para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Temos tudo para criar uma rota de infinitas belezas naturais, de charme, de acolhimento, de hotéis, pousadas, vinícolas, comida típica, artesanato, tradições e cultura. Tudo isso com uma preocupação básica: preservar o meio ambiente. Temos que agradecer a Deus e trabalhar por esse futuro que temos em nossas mãos.

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