Raio-x das startups no Brasil: 76% começam com capital próprio

23 de Novembro de 2017

A Revelo, de Lucas Mendes (à dir.na foto) e Lachlan de Crespigny, é um exemplo de empresa que começou com o dinheiro dos sócios -e, recentemente, recebeu um aporte de R$ 14 milhões

por Thais Ferreira

Há quase três anos, o brasileiro Lucas Mendes e o australiano Lachlan de Crespigny decidiram montar uma startup. Colegas de faculdade nos Estados Unidos, eles enxergaram o potencial do mercado brasileiro.

“Percebemos que as empresas tinham dificuldade para encontrar bons profissionais”, diz Crespigny.  “O problema não estava na falta de candidatos qualificados, mas nos métodos de seleção e nas tecnologias ultrapassadas.”

Para preencher essa lacuna, eles criaram a Revelo, empresa que usa Machine Learning (a capacidade das máquinas aprenderem) para melhorar o recrutamento de funcionários.

Diferentemente dos sites de emprego tradicionais, o foco da startup está nos candidatos e não nas vagas.

Para encontrar um novo emprego, os profissionais se cadastram no site. Se o perfil for aprovado pela Revelo, ele(a) passa a fazer parte do banco de dados da startup, uma espécie de marketplace.  

Quando uma empresa precisa preencher uma vaga, ela recebe o perfil dos profissionais mais preparados para aquela função.

“Em vez de receber o currículo de 100 candidatos, em que apenas 5% são realmente compatíveis com cargo, a empresa tem acesso ao perfil de 10 profissionais extremamente qualificados para a posição”, diz Crespigny. 

Cada vez que um dos candidatos é escolhido para a vaga, a empresa contratante paga uma taxa para a Revelo.

A startup foi fundada em 2014. E nos últimos anos conquistou grandes clientes como Banco Itaú, 99, B2W, Natura, Cielo, Hospital Albert Einstein e Grupo Pão de Açúcar.

Para dar o pontapé inicial, os sócios contaram apenas com capital próprio. Um ano depois, receberam um aporte de investidores-anjo. E recentemente, captaram R$ 14 milhões do fundo Valor Capital.

 

CENÁRIO

A trajetória da Revelo tem suas peculiaridades, mas ilustra bem o resultado mostrado pela Radiografia do Ecossistema Brasileiro das Startups, pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Startups (ABStartups) e  Accenture.

De acordo com dados do estudo, 76% das empresas em fase inicial contam apenas com investimento próprio.

Para Amure Pinho, presidente da ABStartups, o resultado não reflete uma baixa quantidade de investimentos no país ou um despreparo das empresas na captação de recursos.

“O número mostra que os empreendedores acreditam em seus próprios negócios antes de todo mundo”, diz Pinho. “Eles acreditam tanto em suas ideias que tiram dinheiro do bolso para tirar o negócio do papel.”

Ele também afirma que é natural que o primeiro investimento seja proveniente de capital próprio, pois nesse estágio a ideia ainda tem pouco valor.  

A pesquisa também revelou que as startups são ambientes dominados pelo sexo masculino: 38% dessas empresas são formadas exclusivamente por homens – contra 3% formadas exclusivamente por mulheres. 

Para Pinho, essa é uma questão histórica e que está relacionada à maneira como as mulheres são educadas.

“Elas não são ensinadas a correr riscos e a ter uma posição mais agressiva, características importantes para empreender”, diz Pinho.  “Isso ainda é resquício de uma educação machista, mas que irá mudar aos poucos. Temos exemplos de grandes empreendedoras como Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Tania Gomes, da 33e34.”

SIMPLES DAS STARTUPS

Tanto Pinho quanto Crespigny afirmam que o ecossistema de startups no Brasil está evoluindo.

Nos últimos anos, houve um aumento no volume de investimentos. Em 2016, a ONG Anjos do Brasil estima que R$ 851 milhões tenham sido aplicados por investidores nessas empresas  –alta de 9% em relação a 2015.  

A entrada do governo em algumas ações de incentivo, como o PitGov, projeto do governo do Estados de São Paulo que busca empreendimentos inovadores que possam melhorar a prestação de serviços público, e a aproximação de grandes empresas com as startups também são indícios desse progresso.

Mas ainda há muito para evoluir. Crespigny, que conhece o mercado australiano e americano de startups, acredita que falta no Brasil infraestrutura e empresas que forneçam serviços para empresas em estágio inicial.

A burocracia e a alta carga tributária também são fatores que prejudicam o nascimento desses novos negócios.

Uma das bandeiras levantadas pela ABStartup  é a criação de uma figura jurídica própria para  essas empresas nascentes, uma espécie de simples nacional das startups.

“Hoje, você é obrigado a abrir uma startup da mesma forma que você abre uma loja ou uma consultoria”, diz Pinho. “É preciso criar uma figura jurídica que defina e classifique essas empresas.”

Mesmo que essas mudanças não ocorram nos próximos anos, o cenário ainda é bastante otimista. A ABStartups acredita que 2018 será de crescimento no número de startups e no volume de investimentos.

“As startups são definitivamente um dos motores de inovação do país e um dos maiores geradores de emprego para os próximos anos”, diz Pinho.

“Todas as economias que conhecemos hoje vão ser colocadas de ponta de cabeça por causa de novos modelos de negócio e de incrementos tecnológicos. As startups estão por trás de todas essas transformações.”

Artigo publicado originariamente no Diário do Comércio. Autoria de Thais Ferreira.
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