Coluna Ozinil Martins | A quem interessa o empobrecimento da linguagem?

02 de Fevereiro de 2021

O analfabeto funcional é capaz de identificar palavras, números, assinar seu nome e ler uma frase, mas não consegue decodificar e colocar em prática uma receita de bolo.

Imagem: Freepik
 

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – em pesquisa realizada em 2019 e divulgada em julho de 2020 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), o Brasil tem 6,6% da população em estado de analfabetismo total; são 11 milhões de brasileiros, com idade acima de 15 anos, que não sabem ler, escrever e fazer operações básicas de matemática. Isto significa dizer que eles representam quase três vezes a população do Uruguai.

Porém, o problema não para por aí. O Instituto Paulo Montenegro junto com a Ação Educativa realizaram o estudo Indicador de Alfabetismo Funcional, que procurava medir a “capacidade de compreender e utilizar a informação escrita e refletir sobre ela.” Testes cognitivos foram aplicados em 2002 pessoas do meio urbano e rural e a conclusão a que se chegou é a de que, 29% das pessoas podem ser consideradas analfabetos funcionais. O analfabeto funcional é capaz de identificar palavras, números, assinar seu nome e ler uma frase, mas não consegue decodificar e colocar em prática uma receita de bolo.

Outro ponto a ser considerado é a interessante experiência feita por um médico psiquiatra de Belo Horizonte com jovens adolescentes. Na primeira fase ele entregava ao participante um texto e pedia que, após o ler, operacionalizasse o que ali estava proposto; a resposta, depois de um tempo era: não sei. Ao ler o texto e explicar o que queria, o pesquisado operacionalizava o que lhe era pedido. Conclusão: conseguia ler o que estava escrito, mas não o traduzia em ação. 

A insuficiência em matemática e português dos jovens ingressantes no estudo superior obriga as instituições de ensino superior a realizarem cursos intensivos destas disciplinas para oferecerem pelo menos uma base mínima para evitar o desperdício e desgaste de professores em repetir o que os jovens acadêmicos já deveriam saber. Triste realidade que se reflete, depois de formados, nos absurdos que muitas vezes nos deparamos. Como exemplos pode-se citar a ocorrência de erros de grafia em out doors, erros constantes em rodapés dos noticiários na TV, entre outros com consequências muito mais sérias.  

Quando buscamos paralelos na literatura, verifica-se que em “1984” de George Orwell, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, há um claro interesse de regimes totalitários em impedir as pessoas de pensar, reduzindo o número de palavras e transformando seus significados. “Sem pensamento não há crítica e sem a crítica somem as palavras.” A crítica surge da percepção que têm as pessoas a partir do conteúdo que detém; a capacidade analítica reside no conteúdo adquirido, da capacidade de comparar, do desenvolvimento do raciocínio que permite projetar e imaginar o futuro. 

Os linguistas afirmam que nossa capacidade de dominar a linguagem foi que possibilitou diferenciarmo-nos dos animais. O que se vê, atualmente, é uma regressão brutal na capacidade de fala das pessoas que afeta seu raciocínio analítico e as fragilizam em comparação com as gerações que as precederam. Há estudos mostrando que, desde o pós guerra, o QI médio da população mundial sempre aumentou, mas que, nos últimos 20 anos, está sofrendo lenta diminuição. Quando vemos o influenciador (seja lá o que isto signifique) Felipe Neto dizer que Machado de Assis é chato, é provável, que o fim dos tempos esteja próximo!

No 4º ano do ginásio, no Colégio Bom Jesus (Curitiba), tive a sorte de topar com o Prof. Oswaldo Arns que abriu as portas que me levaram aos livros. José Lins do Rêgo, José Mauro de Vasconcelos, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Ignácio Loyola de Brandão e tantos outros, brasileiros ou não, que ajudaram a transformar sonhos em realidade.