ARTIGO | Os efeitos colaterais

23 de Março de 2020

Confesso que tudo perecia coisa de filme americano, apocalíptico, até o Tom Hanks e sua esposa aparecerem infectados

 

por Daniel Argolo*

 

Sou um entusiasta da vida, que sempre busca enxergar motivos para acreditar na humanidade. Confesso não ser uma tarefa fácil, mas faço isso pensando nos meus filhos, naqueles que amo, motivado, também, pela felicidade identificada no olhar das pessoas diante das coisas simples.

Sim, a saúde é, indubitavelmente, o nosso bem maior. Mas raro são aqueles que realmente compreendem essa magnitude, quando encharcados de seus egos. O egocentrismo que, em poucos dias, perdeu o centro para o (in)visível. 

Não sei você, mas me dei conta de que o (in)visível é o grande problema da humanidade. Como um mau cheiro que sobe do ralo, imperceptível aos olhos, mas insuportável às narinas. Atitudes que buscamos esconder a qualquer custo, mas que emergem sem dó nem piedade quando estamos acuados. A revelação do que estava encoberto, silenciado, reservado para usar, exclusivamente, em “últimos casos”. 

Confesso que tudo perecia coisa de filme americano, apocalíptico, até o Tom Hanks e sua esposa aparecerem infectados pelo coronavírus. De lá pra cá, uma enxurrada de más notícias propagaram o medo, trazendo à tona os invisíveis gatilhos emocionais que afligem a humanidade. Até o dinheiro encontrou a real medida de seus limites diante da vulnerabilidade mundial. O plano de saúde mais caro é incapaz de resolver a situação, e sair do Brasil para buscar o tratamento na Europa ou Estados Unidos virou um péssimo negócio. De ordem prática, até então, o dinheiro só conseguiu estocar alimentos e acabar com o álcool gel das prateleiras, evidenciando a triste sombra dos seres humanos. Aquilo que estava no porão emocional de muitos.

Vivemos uma nova ordem mundial; todos em estado de alerta, isolados, fugindo do inevitável. O famoso salve-se quem puder, absortos pelo instinto de sobrevivência. Impotentes, imersos em si, ganhamos tempo de sobra para refletir nas coisas que realmente importam. Afinal, nossa insignificância ficou evidente; raças, crédulos, preferências sexuais e posições políticas perderam, momentaneamente, o sentido. 

Outro evidente “efeito colateral” tem sido o senso de pertencimento, de que não existem borders sob o ponto de vista do planeta. Nossa morada é o mundo, vivo e interdependente, que ignora as fronteiras e desafia a nossa existência - que fere a natureza e os seus semelhantes como se não houvesse o amanhã. Não à toa fomos comparados a um vírus, no icônico filme Matrix, pelo agente Smith - [Humanos] mudam-se para uma área, multiplicam-se mais e mais, até consumirem todos os recursos naturais. A única maneira de sobreviver é se instalar em outra área. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão: o vírus.

Mas nem tudo está perdido. Tenho visto, também, coisas surpreendentes. Os céus estão mais limpos, as pessoas estão valorizando e protegendo as pessoas mais velhas (que vem sofrendo os maiores impactos), crianças estão tendo a chance de aprender e a exercitar a tão falada empatia e, por fim, todos estão tendo a chance de fazer as pazes com a solitude. 

Fato é que a COVID nos convida a repensar a vida. Não há quem passe por uma paralização global sem questionar sua fragilidade. Mas como exemplares seres humanos que somos, uma coisa é certa: infelizmente, nem todo mundo vai sair desta melhor (e mais consciente) do que entrou. Torço, então, para que a lucidez possa “contaminar" o maior número de pessoas possíveis. Só assim estaremos preparados para dar conta da ressaca que virá; cujo "efeito colateral” será abraçar o reestabelecimento de todos, todo mundo, no mundo todo.

*Daniel Argolo tem mais de 20 anos de mercado, trabalhando em grandes agências nas áreas de atendimento e planejamento. Atuou em diferentes frentes de negócios, contribuindo para a construção e consolidação de relevantes marcas.
Ao longo da carreira, passou pelas agências Z. Publicidade, OpusMúltipla, Next Direct, além dos grupos Ogilvy e Propeg. Em Santa Catarina, foi Diretor de Planejamento na D/Araújo. Argolo traz em seu histórico profissional o atendimento de marcas, como: HSBC, FIAT, Extra Hipermercados, Ford, Votorantim, Electrolux, Tigre, GVT, Liquigas, entre outros.
Como profissional de planejamento, sempre buscou a criatividade como diferencial. Atualmente é proprietário da Love Brand, empresa especializada em branding estratégico e planejamento de comunicação.

 

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