SÉRIE "Os desafios e o legado da pandemia", por Ana Lavratti, jornalista e escritora

11 de Novembro de 2020

Um idioma que se alastra denota dominação. E aquele que se encolhe... chegue à sua conclusão!

 

 

Quando o anúncio de pandemia se alastrou na velocidade de uma ambulância, como o estrondo de uma sirene sem dar trégua na nossa mente, o que os governos fizeram? Fecharam as fronteiras! Protegeram seus cidadãos, dentro e fora do seu território. Os navios à deriva, com milhares de passageiros, só encontraram porto seguro nos seus países de origem. Estrangeiro virou estranho, sem Green card, não tem guarida. E até que a sociedade se organizasse, com protocolos de proteção, sabe o que a mídia divulgava, orientando o cidadão? Cidades em lockdown! Como se “fechadas” não traduzisse a situação.

Assim como o hino, a bandeira, o selo e o brasão são símbolos de uma nação, nosso idioma é um patrimônio que impacta no poder. Quanto mais nos rendemos às expressões em inglês, como melhor alternativa para expressar quem somos ou como nos sentimos – se estou cool na happy hour, se sou founder e não fundador – mais poder atribuímos aos países de língua inglesa. Mais desmerecemos o Português, língua mãe tão sonora, depreciando sem saber uma riqueza do nosso Brasil.

Com a comunicação migrando para o meio eletrônico, mais pessoas se sentem “obrigadas” a serem globalizadas. Trabalham no Brasil, com clientes brasileiros, mão-de-obra nativa, matéria-prima nacional, e ainda assim, pra se sentirem importantes, na ilusão do pertencimento, definem sua atuação com expressões “forasteiras”. Sem perceber que o idioma é um patrimônio que temos: delimita fronteiras, agrega semelhantes, expressa identidade, resguarda o poder. Um idioma que se alastra denota dominação. E aquele que se encolhe... chegue à sua conclusão!

Nos primórdios do computador, enquanto o computer ganhava nome quase igual no Brasil, em francês era ordinateur, remetia à ordem e comando, não à palavra em inglês. Quem compreende o português, pode entender o que quero dizer. Sou a favor do estudo e do domínio de outras línguas, mas sou contra a adoção passiva, deixar o que é nosso à deriva, como se vê na pandemia. Todo mundo pega o smart phone, conecta no wi-fi, pra pedir um delivery ou combinar um take away no drive thru, como se o stress de falar outro idioma compensasse pelo status que isso traz. Por que não, simplesmente, conectar o celular à rede sem fio pra pedir uma tele entrega ou combinar a retirada na loja, sem estresse na pronúncia, tratando com mais carinho a língua do nosso ninho?  

Se na literatura o Estrangeirismo é um recurso, pra tornar o texto cosmopolita, no Linkedin é uma febre a caminho da convulsão. Como o sintoma tão temido na pandemia de Coronavírus. Quem acha que ser HEAD tem mais valor do que ser chefe talvez repense a escolha ao pôr a mão na CABEÇA, voltar pra vida real, lembrar das fronteiras fechadas, com cada país protegendo os seus. Um “filho que não foge à luta” torna seu brado mais retumbante quando honra a língua mãe.

Ana Lavratti é Mestra em Estudos da Tradução. Já trabalhou como guia em sete países da Europa e foi enviada pela RBS e pela Band a cinco países no exterior. Além da proficiência em inglês pelo British Council e em francês pela Aliança Francesa, estudou italiano avançado em Florença, alemão em Bremen e espanhol em Floripa. Mas o que ama é ser escritora, em português.

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