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Publicidade eleitoral na Espanha (ou Não me convidaram pra essa festa)
11 de Novembro de 2011

Publicidade eleitoral na Espanha (ou Não me convidaram pra essa festa)

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A manchete de hoje nos jornais espanhóis é que Alemanha e França, personificadas em Merkel e Sarkozy, começam a dar a entender que querem pular fora enquanto é tempo do naufragante barco da chamada Eurozona (que tá uma zona mesmo, na brasileiríssima acepção da palavra). Outra possibilidade parece ser manterem-se no barco e jogarem ao mar velhos e crianças, quero dizer, os mais débeis, como Grécia, Irlanda ou Portugal. A leitura superficial que faço disso, em qualidade de completo leigo em economia, é a de demonstração não apenas de falta de solidariedade, mas de covardia, o que evidencia a verdadeira índole desses países, ou melhor, de seus dirigentes (não tomemos a parte pelo todo). Mas não estou aqui pra falar de economia ou política. A não ser que o tema envolva também publicidade. É o caso da nota a seguir.

Dia 20 de novembro a Espanha celebra eleições para presidente (é como chamam o mais alto cargo político do país, embora a Espanha tenha também seu rei e sua família real, incluindo príncipe, princesa, infantas, duques, duquesas e todo um séquito de fazer inveja a qualquer conto de fadas). O que é digno de comentário aos leitores do Acontecendo Aqui é a escassez de publicidade eleitoral. Na tevê, nas últimas semanas, se eu vi um par de brevíssimas inserções foi muito. Lembrar-me mesmo, eu me lembro de uma só, estática, provavelmente de cinco segundos, com o busto do candidato, logo do partido e slogan. Folhetos na rua? Nada. Trabalhadores temporários agitando bandeiras nos semáforos? Nem pensar. Horário obrigatório no rádio e na tevê? Inimaginável. Outdoors, cartazes, enfim, mídia exterior? Quase nada – e digo “quase” só porque acabo de me surpreender com um anúncio eleitoral na parede da plataforma do metrô (sim, tô escrevendo este artigo com papel e caneta no colo, sacolejando pelos subterrâneos de Madri). Debate televisivo entre os principais candidatos tivemos o primeiro e único nesta semana. Comício em praça pública tampouco é hábito – até porque já estamos em novembro e ninguém em posse de boa saúde mental passaria duas horas em pé na rua congelando-se para ouvir, afinal, as mesmas abobrinhas de sempre. Pra finalizar: tenho neste momento o El País em mãos. Em suas 64 páginas, nem um mísero rodapé de nenhum dos candidatos. Notícias sobre eles, sim. Mas publicidade, não.

O que acontece? Por que essa diferença abismal de volume de publicidade quando comparamos a Espanha com o Brasil nesta mesma situação pré-eleitoral? Dois ou três meses antes dos comícios o brasileiro sente nas ruas um festivo clima de campanha mais forte do que aqui, a dez dias das votações. No melhor estilo analista político-social de boteco, arrisco dizer que um dos motivos é justamente esse: festa. No Brasil tudo vira festa (e cada dia que passo no exterior me faz sedimentar mais essa idéia do brasileiro-festeiro, que de início pode até parecer estereotipada). No nosso queridíssimo país – uma democracia praticamente tão jovem como a Espanha – eleição significa possibilidade de emprego temporário, churrasco bancado por candidato, temas fresquinhos para a criação de piadas, novos rostos para máscaras de carnaval, além é claro de muita grana – venha ela de onde vier – injetada em agências, veículos, fornecedores e em muitos outros setores da economia. Ah, e significa também, obviamente e não menos (nem mais) importante, a oportunidade de renovação política e de novos rumos para o Brasilzão véio de guerra. O espanhol também tem o espírito festeiro, sobretudo se o contrastamos com os demais europeus. Mas, convenhamos, no quesito festerê a gente ainda é imbatível.

Essa análise botequeira não pode se resumir ao argumento abstrato do nosso afã por festa, que, para muitos, soa a estereótipo grosseiro do nosso caráter (volto a afirmar que depois de quatro anos fora não vejo nada de estereotipado nisso, mas cada vez mais uma verdade fatual. Algum leitor com experiência no estrangeiro poderia me ajudar a colocar mais lenha nessa fogueira). Então vejamos outro ponto: o voto aqui não é obrigatório. Este sim pode ser um motivo mais concreto para justificar porque na Espanha um Nizan Guanaes da vida morreria de fome. Se somente uma parcela da população participa do evento, investir tanto e por tanto tempo em mídias de massa talvez não valha mesmo a pena. Por fim, o quadro político espanhol é sensivelmente mais simples que o brasileiro. São basicamente dois partidos, um mais à esquerda (PSOE), outro mais à direita (PP), e a maioria dos votantes, pelo que percebo, já tem o seu partido de preferência por convicção ideológica. Seria mais ou menos como se o Real Madrid investisse milhões e milhões numa campanha para tentar trazer para as suas linhas torcedores do Barcelona, ou vice-versa.

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Eu costumo me atrasar no envio de artigos para o paciente Jailson, que na verdade não me cobra nem nunca me cobrou nada. Mas quando me sento pra escrever, a coisa vai que vai e acabo misturando no mesmo balde dois ou três assuntos que pululavam no meu cabeção. Um deles, e prometo ser o último, é sobre o caso de um programa espanhol de fofoca que entrevistou dia desses a mãe do assassino confesso de uma jovem cujo corpo, após mais de um ano da crueldade, continua desaparecido. Em resumo: o crime chocou o país e a entrevista à mãe – que esperadamente tentou defender seu indefensável filho – foi considerada de péssimo gosto, uma afronta à família da jovem. Colocar a geradora do monstrinho diante das câmaras foi julgado pela sociedade como um golpe baixíssimo em nome da divina audiência, ou seja, em nome da grana. O castigo pela má idéia veio rápido: anunciantes do porte de Nestlé, Bayer e L´Oreal abandonaram o programa. O apresentador se pronunciou evocando a liberdade de expressão e afirmando que ele entrevista quem quiser. Estou de acordo. E também concordo que pela liberdade de expressão, ou pelo simples direito de ir e vir, os anunciantes anunciam onde bem entenderem. Patrocinadores de reality shows e campeonatos de esportes sanguinários no Brasil poderiam repensar o destino de seus investimentos publicitários. Vejo aí uma chance real e palpável, prática e imediata, do universo empresarial e publicitário demonstrar o engajamento social que tanto lhes é solicitado: boicotando o nocivo à sociedade (a relatividade do nocivo seria tema para outro artigo). Para que isso aconteça, no entanto, há que se resistir pelo menos em certos momentos ao apelo do cifrão. É difícil. Muito difícil.

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