Coluna Julio Pimentel, O Fantástico era fantástico.

18 de Julho de 2018

Recorro mais uma vez ao Livro do Boni para buscar o tema da coluna.

Recorro mais uma vez ao Livro do Boni para buscar o tema da coluna. É ele quem diz: “O Fantástico era fantástico. E ainda há lugar para um grande programa com o formato de magazine na televisão brasileira”.

Podemos depreender duas coisas daí: primeiro, que o programa criado pela equipe formada com alguns dos melhores profissionais da televisão, resultou numa experiência nova e fascinante, que surpreendeu a todos no distante 1973. Depois, que o atual programa é uma réplica tímida e pálida, tanto que o próprio Boni diz que ainda existe espaço para a versão original.

Minha contribuição aqui é complementar à reconstituição dos fatos e dos comentários do Boni e trata do patrocínio do programa.

Na mesma época em que era lançado Fantástico – o Show da Vida, começava a atuar no mercado paulista a ZPP – Ziegelmeyer, Pimentel Propaganda, agência que fundei com Carlos Ziegelmeyer e que tinha metade da conta do Banco Real, à qual depois iriam se somar Móveis Lafer, Ericsson, Fotoptica, Mac Imóveis e outras, além da metade restante do Real.

Sem comparação, o Banco Real era nossa grande conta e alavanca de prospecção. Sucessor do Banco da Lavoura de Minas Gerais, o Real tinha como objetivo declarado inovar, prestar novos serviços, se reinventar como instituição financeira que agredia o mercado e caminhava célere para as primeiras posições. Mas havia outro objetivo, só conhecido dos poucos que privavam da intimidade do Dr. Aloysio Faria, que era superar o Banco Nacional, seu adversário visceral, também de Minas, dos Magalhães Pinto.

O Banco Nacional patrocinava o Jornal Nacional e, se pudesse, o Real tomaria seu lugar, mas não havia como – o contrato se renovava sempre. Foi então que surgiu a idéia: por que não patrocinar o Fantástico, programa que, além da audiência, oferecia uma aura de modernidade e arrojo, na mesma linha do que o Real vinha fazendo? Fiz a pergunta a meus companheiros na agência e devo confessar que a reação foi de ceticismo, o que não era de se admirar, pois estávamos começando a nos firmar na conta, o patrocínio era milionário e não tínhamos um plano de comunicação acabado. Mas estrategicamente eu me sentia seguro – tudo se encaixava.

Cena 1- Rede Globo de TV:

Quinta feira, véspera do prazo final para fechar o contrato. No começo da tarde fui falar com Nonato e Dionísio Poli, que dirigiam a comercialização em São Paulo, para pedir uma opção de compra. Era perceptível a descrença dos dois, traduzida num sorriso condescendente: “tudo bem, mas só podemos esperar até as seis horas”.

Cena 2 – Banco Real:

Reunião na sala do Sr. Moraes, o todo poderoso vice-presidente do Banco. Enfaticamente, eu explicava todas as vantagens que conseguiríamos com a operação, quando entrou Dr. Aloysio. Bem mineiramente, mãos nos bolsos, quis saber o que tratávamos e ficou ali, em pé, ouvindo meus argumentos. Para arrematar, eu disse que já que não conseguiríamos o Jornal Nacional, tínhamos esta oportunidade única, que poderia ser tão ou mais adequada para nossos planos.

- Quanto custa? Perguntou Dr. Aloysio.

Respondi e ele disse:

- É, parece bom mesmo. Vamos comprar.

Tudo se passou em menos de uma hora, o que acredito tenha sido um recorde.

Cena 3 – na agência:

Eram quase 6 horas quando voltei e imediatamente liguei para a Globo.

- Está fechado, Nonato. O patrocínio do Fantástico é nosso. É do Banco Real!

Um rápido e profundo silêncio do outro lado, seguido de um “O QUÊ?” confirmou o que eu imaginava: a descrença era substituída por uma vitória histórica. O que eu não imaginava é que isso iria causar tamanha confusão. “Estou indo para aí” disse Nonato.

Quando chegou, foi recebido em cadeiras de lona e mesa improvisada, pois estávamos em fase de montagem do escritório. Para nossa surpresa, Nonato disse que não ia dar, que não era possível, que já estava tudo encaminhado para outro patrocinador (General Motors, se não me engano), como é que eles iam ficar com a outra agência (das maiores, por sinal), e mais um monte de choradeira. Na verdade, creio que eles não poderiam ter-me dado a opção, talvez estivessem apalavrados com quem já vinha negociando o patrocínio, que nós furamos. Aquilo estava muito longe de ser o fechamento que eu imaginava. Voltar ao cliente e dizer “sinto muito, não deu certo”? Suicídio.

Com a maior calma (fingida, claro) expliquei que havia confirmado o fechamento antes das seis horas, como combinado, que tinha a palavra deles dada em opção de compra e que contava com a lealdade e honestidade não só dos dois amigos, como da instituição Globo. Nonato não tinha saída. Depois de alguns uísques (isso tínhamos na casa) e de ouvir suas lamentações em ralação aos problemas que enfrentaria com a outra agência, assinamos o protocolo. Esta reunião demorou umas três horas.

Foi um grande negócio, pelo volume do investimento envolvido, pelo valor que o patrocínio agregou à imagem do Banco, por todos os resultados obtidos. O Show da Vida ia ao ar sob patrocínio do Banco Real, fazendo com que milhões de pessoas passassem a conhecer melhor a instituição e seus produtos.

Jaílson de Sá, editor do Acontecendo Aqui, era naquela época o Mídia da ZPP, portanto partícipe direto da ação, que a tudo pode testemunhar. Perguntem a ele, que talvez se lembre de outros detalhes.

Julio Pimentel

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    Julio J. L. Pimentel, paulistano radicado em Florianópolis. É administrador com especialização em marketing (Unilever, Peixe, PepsiCola), publicitário (Almap, CBBA, JWThompson, Propeg, Ziegelmeyer Pimentel, Cavalcanti, Julianelli, Pimentel), professor (ESPM, ADVB) e atuante em associações de classe e comunitárias (ADVB, ABAP, Fundação Abrinq, IDES), além de palestrante e consultor.