Minha história com o alemão

29 de Agosto de 2013

Há dois anos, quando me mudei para Berlin, a única coisa que eu sabia emalemão era contar até 10 (e mesmo ass

IMG_7924-500x375Há dois anos, quando me mudei para Berlin, a única coisa que eu sabia em alemão era contar até 10 (e mesmo assim, ninguém entendia a minha pronúncia). De lá pra cá, já aprendi bastante coisa e até consigo me virar no dia-a-dia, mas ainda estou bem longe de poder colocar no currículo que sou fluente no idioma de Goethe (mais ou menos uns 30 anos longe, vá lá...rsrsr).

Decidi compartilhar minha história de aprendizado porque pode ser útil para alguém.

Bom, a primeira providência foi me matricular numa escola. Foi-nos recomendada uma que era considerada das melhores, a GLS — German Language School; era caríssima, mas eu precisava muito aprender a língua, pois queria começar a trabalhar logo. Imagina a inocência da pessoa, achar que alemão se aprende assim, rapidinho, que nem espanhol ou inglês.

Eis que a escola era toda voltada a estrangeiros que queriam passar algumas semanas em Berlin estudando a língua. Lá era maravilhoso: tinha hotel, passeios, excursões, festas, etc. Quer passar uma semana em Berlin dando um "tapa" no alemão (que você já estuda há algum tempo) e de quebra ampliar seu círculo de contato com pessoas do mundo todo? Lá é o lugar (recomendo muito!). Mas quer aprender alemão do zero e sair falando? Não vá (aliás, agarre bem sua carteira e saia correndo).

É o seguinte: como os cursos são cobrados por semana e as turmas são organizadas da mesma maneira, na real não existe uma estrutura para quem quer aprender de verdade. A pessoa faz um teste para ver onde se encaixa e a cada semana vai mudando de turma (às vezes de professor também), já que é um entra-e-sai danado. O problema é o ritmo é acelerado demais para quem está vendo tudo pela primeira vez: a turma faz um jogo, brincadeira ou exercício sobre o tema e pronto, o assunto é dado por encerrado — vamos para o próximo). Não há nada de errado nisso porque o conceito é revisar, não aprender. A questão é que depois de um mês lá estava eu na mesma sala que suíços e holandeses que estudavam a língua desde os 6 anos de idade; aí fica complicado...

Como não tinha prova (e raramente lição de casa), fui passando automaticamente e, quando vi, em apenas 5 meses de aula já estava nível C1 (só para se ter uma ideia, no nível C1 a pessoa fala como um nativo e pode cursar a universidade). Obviamente não tive tempo nem de entender direito o que se passava, minha cabeça era pura confusão; o professor explicava (em alemão, claro) porque o genitivo tem que vir após a conjunção adverbial e eu apenas tentava desesperadamente entender as palavras escritas no quadro. Apesar dos pesares, as turmas semanais eram uma boas para quem viajava várias vezes ao Brasil, como eu. Assim não perdia nenhuma aula, eles sempre me encaixavam em algum lugar quando eu voltava.

Como sempre fui muito participativa na sala, vivia levando puxão de orelha porque uma pessoa "no meu nível" não podia estar cometendo o tipo de erro que eu fazia quando tentava falar. Caracas, mas foram eles que me colocaram naquele "nível", não fui eu que escolhi. Acabava voltando e repetindo algumas lições em outra turma, mas não adiantava muito — como a estrutura de ensino não existia, era como se eu estivesse fazendo outro curso, completamente diferente, só que com outro professor. Alguns eram ótimos, outros nem vou comentar. Como em qualquer escola, enfim.

Aos poucos, minha auto-estima foi sendo minada e comecei a me sentir um pouco burra; falar alemão fluente (e com as declinações corretas) em apenas 6 meses estava muito além da minha capacidade. Finalmente comecei a entender como é que que os alunos que tiravam notas baixas se sentiam (nunca imaginei isso, é uma sensação muito ruim mesmo). O pior é que minha maior dificuldade era justamente redação, parte que sempre gostei; o alemão tem uma forma completamente diferente de estruturar uma frase e eu sempre montava tudo errado, pois não conseguia entender a lógica do negócio.

Bom, depois de um ano de tortura achando que tinha emburrecido ou que estava velha demais para aprender uma língua, entre várias outras especulações, comecei a conhecer mais pessoas com o mesmo problema que eu. Começa que não consegui conhecer ninguém que tivesse ficado fluente em alemão em apenas 6 meses. Tinha alguma coisa errada aí...

Pesquisei um pouco mais e descobri que num curso convencional se leva de dois a três anos para chegar no nível em que eu cheguei aos 5 meses (com a mesma carga horária por semana); não me admira que não conseguisse acompanhar.

Foi aí que resolvi me matricular numa escola comunitária (as chamadas "Volkshochschule") e o mundo voltou a ser como era antes; eu conseguindo acompanhar a aula bem direitinho. Adoro o professor, que é exigente, metódico, detalhista e enche a gente de lição de casa (e cobra); nada de joguinhos e brincadeiras onde a gente se diverte mas não entende direito o que está acontecendo. Sou engenheira, preciso de método e estrutura para aprender, ainda mais uma coisa tão intrincada como é a gramática dessa língua. Finalmente encontrei o que precisava numa escola que custa pelo curso inteiro de 3 meses menos do que a outra custava por semana!

Fiz um teste para entrar e acabei ficando no nível B1.2 (fiz esse nível no começo desse ano, depois o B1+ que durou 3 meses e agora estou no B2.1 que vai durar mais 3 meses). Claro que acabei perdendo muita coisa porque fiz os níveis básicos mal e porcamente; até hoje essa falta aparece na minha redação, mas aos poucos vou recuperando o tempo perdido (já que o dinheiro não tem mais jeito mesmo...rsrsr).

Já perdi a ilusão de que vou estar falando que nem os nativos daqui a um ano ou dois. Sim, conheço gente que conseguiu aprender a se virar bem em 2 anos, mas essas pessoas não escreviam todos os dias em português e, na maior parte dos casos, eram casadas com alemães. Também conviviam com a família do marido e muitas não tinham nem internet quando vieram, ou seja, estavam realmente imersas, que não é meu caso. Ah, e é claro, nenhuma tinha 45 anos quando começou a aprender....

Enfim, terei que ter um pouco mais de paciência, pois o idioma oficial em casa é o português (já tentamos, mas a conversa nunca ultrapassa 15 minutos de banalidades...rsrsrsr) e não quero deixar de fazer a coisa que mais gosto, que é escrever em português.

Como adoro assistir aulas desde que me conheço por gente (adorava mesmo na outra escola), isso não vai ser um grande problema; por mim passo o resto da vida frequentando escolas. Também faço tandem (conversa em português e alemão com algum nativo) quando dá e tento ler jornais e revistas (além da TV). Além disso, estou fazendo um esforço para só ler livros em alemão (e em inglês, para não esquecer).

Mas vou dizer, o negócio demora, viu?

O que vale é que sou brasileira, e vocês sabem, a gente não desiste nunca...

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.