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Liberdade de expressão vs credibilidade da rede X. O que pode estar por trás das acusações de Elon Musk?
14 de Abril de 2024

Liberdade de expressão vs credibilidade da rede X. O que pode estar por trás das acusações de Elon Musk?

O poder das palavras, mesmo limitadas a meros 140 caracteres, é realmente imenso. Isso nos leva a uma reflexão: a responsabilidade que acompanha a liberdade de expressão.

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Há cerca de um ano e meio, em parceria com o portal Acontecendo Aqui, publiquei um artigo no qual discutia a então possível compra da rede social Twitter pelo megaempresário e bilionário Elon Musk, proprietário da montadora Tesla e da empresa aeroespacial SpaceX. Após a oferta inicial, que se concretizou posteriormente a uma ampla e profunda discussão que envolveu até mesmo a justiça norte-americana, a rede social do passarinho azul foi transformada e rebatizada para X, seguindo a identidade subliminar que o poderoso empresário aplica em suas empresas.

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O artigo pode ser conferido aqui (link):

Desde então, com uma nova cara e identidade, Elon Musk aplicou seu estilo de gestão e liderança, promovendo uma espécie de “limpeza” dos funcionários que supostamente contrariavam sua visão de mundo, talvez sua ideologia, sempre sob o mantra da liberdade de expressão.

Há pouco mais de um ano, Elon Musk questionava a veracidade das informações fornecidas pela rede, especialmente em relação ao número de seguidores e perfis. Ele questionava o número de perfis falsos, que eram usados como métrica para medir a popularidade da rede. Vale lembrar que naquela fase de discussões, o empresário racionalizou e justificou o porquê de sua oferta tão generosa e seu interesse em administrar da rede social dos textos curtos. “A liberdade de expressão é a base para uma democracia funcional, e o Twitter (antigo nome) é a praça pública digital onde os assuntos vitais para o futuro da humanidade são debatidos”, citou à época (2022).

Elon desconfiava de possíveis interferências existentes na rede decorrentes de diversas frentes/forças, sejam elas editoriais, pressões sociais ou movidas por processos judiciais. O amplo debate girou acerca da credibilidade da rede no tocante à qualificação de seus usuários, ou seja, os perfis lá existentes. Nos debates, Musk também criticava as políticas da empresa. De igual forma, elogiava suas características, como a força midiática e o imediatismo. Em meio às críticas e debates sobre o interesse do empresário na famosa rede sociais, o negócio foi fechado. O Twitter, vendido por 44 bilhões de dólares.

 

Intriga formada.

Estamos presenciando um confronto entre um empresário estrangeiro e um juiz da Suprema Corte brasileira, Alexandre de Moraes. A polêmica internacional que se desenrolou comprova o poder das palavras, mesmo quando limitadas a 140 caracteres.

No debate, o questionamento público se concentrou nas requisições feitas pelo ministro do STF em suas ações como Presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE). O período, as eleições presidenciais (Executivo) em 2022. De um lado, Moraes, apelidado nas redes sociais como “Xandão”, que ordenou que o Twitter (hoje, X) removesse contas que, segundo as ordens judiciais, poderiam promover desinformação sobre as eleições e, com isso, prejudicasse a confiança (palavra sempre presente nos debates) dos eleitores no processo. Musk, por sua vez, recusa. Alega que a ordem afronta a liberdade de expressão – uma de suas justificativas para a compra da plataforma.

O empresário, claramente indignado, ameaça revelar informações sobre Moraes, sugerindo que ele possa ser inapto para exercer o direito. A própria discussão entre as partes demonstra o poder da rede social. É como se um confronto, aos gritos, no meio da rua, tivesse ganhado proporções gigantescas. Lá, no meio físico, a rua, não se pode mensurar com precisão o alcance sonoro da voz e quando terceiros escutaram o que foi dito. Já na rede X, há o registro. Afinal, mesmo que se apague posteriormente, o “print é eterno”.

Os ‘prints’ do embate ilustram, consequentemente, uma avalanche de novas publicações feitas por populares, figuras políticas, autoridades, intelectuais, entre outros. Formaram-se torcidas. Com isso, a polarização ganha um novo rinque.


Perigo iminente?

O empresário, numa clara manobra estratégica para defender os interesses de sua plataforma – reconhecida como democrática e seguida pela imprensa – eleva o tom na noite de 10/4 e madrugada de 11/4, chamando Moraes de ditador. Em outra publicação, Musk, utilizando o Spaces (ferramenta do X que permite transmissões por voz), comenta (em tradução livre): “A Justiça está nos ordenando a fazer coisas ilegais”. No caso, se refere às supostas solicitações para suspender perfis de parlamentares brasileiros e de jornalistas. No último dia 8, inclusive, provoca Alexandre de Moraes a debater abertamente a questão.

Para evitar possíveis sanções impostas pela Justiça brasileira, o empresário considera encerrar as operações dos escritórios no Brasil. Ele também incentiva, caso a rede seja bloqueada pelas operadoras de telefonia e provedores de internet brasileiros, o uso de uma rede virtual privada (VPN) para acessá-la, no dia 7/4.

É importante lembrar que o primeiro comentário de Musk foi motivado pelas acusações feitas pelo jornalista norte-americano Michael Shellenberger. Segundo ele, o ministro Moraes tem “liderado um caso de ampla repressão da liberdade de expressão no Brasil”. Shellenberger é conhecido por suas publicações em prol do meio-ambiente e sobre o aquecimento global. Ele, que já residiu no Brasil, tem divulgado em suas recentes publicações na rede X uma série de e-mails trocados entre funcionários do antigo Twitter. Nestes e-mails, eles relatam e reclamam da exclusão de conteúdos em investigações que envolvem a disseminação de supostas notícias falsas por determinação judicial.

 

A real força da plataforma: as palavras.

A frase “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”, que é frequentemente atribuída ao escritor e filósofo francês Voltaire, mas que na verdade foi escrita por Evelyn Beatrice Hall em 1906 para resumir o pensamento de Voltaire, pode resumir a disputa acirrada entre o empresário Elon Musk e o jurista brasileiro. Por sua vez, Moraes acusa o proprietário do X de incitação ao crime, desobediência a uma decisão judicial e obstrução da Justiça, por supostamente atrapalhar uma investigação penal.

É notório e evidente, embora muitas vezes esquecido, que as palavras têm um poder imenso. Elas podem inspirar, motivar, mudar opiniões e até mesmo alterar destinos. No mundo digital de hoje, as palavras assumiram uma nova forma, conotação e força através das redes sociais, onde a comunicação é instantânea e global.

As redes sociais proporcionaram às palavras um novo palco. Com a capacidade de alcançar milhões de pessoas instantaneamente, as palavras agora têm um alcance e um impacto sem precedentes. Nas redes, como o X, as palavras se espalham rapidamente, criando tendências e moldando opiniões públicas. Elas podem iniciar movimentos sociais, influenciar políticas e até mesmo afetar resultados eleitorais. No entanto, o poder das palavras nas redes sociais também pode ser prejudicial, levando à disseminação de desinformação e ao discurso de ódio.

Para o X, o Brasil é um mercado atrativo. O país é o sexto com mais usuários da rede, onde mais de 22 milhões de usuários estão cadastrados. No entanto, para Musk, “os princípios são mais importantes do que o lucro”. Portanto, é notável a resistência do empresário às decisões do ministro brasileiro. A justificativa é clara: a defesa dos ideais que defende para a rede.

Decorrente do embate iniciado, muitas expectativas surgem. Entre elas, um possível bloqueio da rede X no Brasil, multas e sansões. O público, pelo que se demonstra nos comentários nas redes sociais diversas, apresenta torcedores a favor do empresário e, outros, em apoio ao ministro do STF. Para todos, o mistério do que poderá acontecer. Logo, para o momento resta, aos meros expectadores, a tensão. Aos torcedores, a rivalidade. Aos usuários da rede, o suspense.

A força das palavras e o poder das redes sociais formam uma combinação poderosa. É importante reconhecer o impacto que as palavras (e consequentemente as ideias) podem ter quando amplificadas pelos compartilhamentos e pela audiência. Deve-se utilizar as plataformas de maneira responsável, ponderada e principalmente, ética. Trata-se do exercício da cidadania, da responsabilidade, da tolerância e principalmente do respeito.

 

Reflexão

Sou um grande fã de quadrinhos e cinema. Ao redigir este artigo, me lembrei de uma passagem dos livros/filmes da série Harry Potter, do menino-bruxo, escrita por J. K. Rowling. Em um diálogo com o Professor e Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Albus Dumbledore, em uma profunda conversa com seu pupilo e estudante de magia, ele sabiamente profetiza:

“Palavras são, na minha humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e, também, de remediá-los”.

Devemos sempre ponderar nossas palavras, seja online ou offline.

O autor deste artigo é Carlos Rocha dos Santos, publicitário, jornalista e professor, especializado em gestão de imagens e marketing institucional.

https://www.linkedin.com/in/carlos-rocha-dos-santos/

https://www.instagram.com/carlos_rocha_santos/

Nota: Imagem produzida com uso de tecnologia IA, por meio do gerador Bing Imagens, plataforma DALL-E, por meio de script produzido pelo autor do artigo.

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