Coluna Ozinil Martins | O próximo a ser banido pode ser você!

07 de Fevereiro de 2021

Esquecem-se os mesmos que aplaudem à medida que, amanhã, poderão ser eles os calados pelas redes sociais

Imagem: rawpixel.com by Freepik

 

Vivemos tempos exponenciais em todos os campos da atuação humana. Inteligência Artificial mudando formas de atuação no mercado de trabalho, robotização e eliminação de empregos; na área dos costumes a desestruturação da família, discussão sobre gênero, conceitos sendo abruptamente alterados; na área governamental nota-se uma perda de referências, de rumo e de autoridade perante a sociedade, mas com crescente grau de autoritarismo em suas ações; na área das comunicações grandes distorções ocorrem em grupos empresariais do ramo desacreditando a informação e deixando o público, não comprometido com a ideologia que defendem, atônito e sem rumo; na economia chama atenção a concentração de renda em mãos bilionárias enquanto aumenta o nível de pobreza no mundo e, na área da saúde a pandemia descortina um cenário com o qual convivia-se relativamente bem, mas que, agora, com o risco de sermos vítimas, escandaliza a todos.

No meio de toda a confusão provocada pela pandemia as eleições ocorreram de maneira normal no Brasil e Estados Unidos. No Brasil, urnas eletrônicas e a usual desconfiança de todos, muito menos no sistema e muito mais nos operadores do sistema. Nos Estados Unidos, uma eleição feita sobre suspeitas desde o início; eleição que é um misto de presencial com voto enviado pelo correio e que já deu pano para mangas inúmeras vezes, com a justiça sendo chamada para decidir. Isto somado ao concorrente Donald Trump, conhecido pela sua incontinência verbal, foi o estopim para tudo que veio após a conclusão da eleição. Invasão do Congresso americano, cenas só vistas nas republiquetas americanas (incluindo a invasão do MST ao congresso brasileiro), agressão a policiais e parlamentares e o mundo perplexo a tudo assistiu em tempo real. Depois de tudo serenado empresas de mídias sociais concluíram que o responsável pelo incitamento que resultou na invasão foi o presidente Trump e decidiram bani-lo das redes sociais.

Os aplausos foram generosos à decisão tomada. Esquecem-se os mesmos que aplaudem à medida que, amanhã, poderão ser eles os calados pelas redes sociais como já é comum em alguns lugares do mundo. Que já somos monitorados pelas redes sociais é de conhecimento comum, agora o banimento, puro e simples, é uma ação arbitrária que expõem o poder assumido pelas empresas que operam o sistema. O poder exercido pelo domínio nas comunicações é típico de governos autoritários que decidem, por você, o que pode ou não ser visto, ouvido, discutido. 

Em Cuba existem, em sistema de TV aberta, os canais Cuba Visión, Canal Habana, Canal Educativo, Canal Educativo 2, Canal Multivisión e Canal Tele Rebelde. Todas transmitindo apenas notícias, filmes, novelas e vai por aí, autorizadas pelo governo. Prospera na informalidade o serviço de antenas clandestinas que permite a captação de programas não autorizados ao custo de US $10. O Jornal oficial do governo cubano é o Granma, que traz notícias que interessam ao governo. Em 1996 passei o ano em Cuba, a trabalho, e não encontrei nenhuma livraria. Os livros que comprei, encontrei-os em feiras na cidade. Livros usados e que me permitiram conhecer um pouco do folclore e da vida do cubano comum. Na China existem mais de 200 milhões de câmaras de vigilância, que devem chegar a 400 milhões nos próximos anos, que vigiam os cidadãos o tempo todo pelo sistema de reconhecimento facial, privando-os, completamente, de suas liberdades. Portanto, nos países de viés autoritários a liberdade não é um bem de consumo.

A frase atribuída a Voltaire que, na realidade foi construída por sua biógrafa, Evelyn Beatrice Hall, a partir do conjunto da obra do grande pensador, sintetiza bem o momento que vivemos: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.”

O respeito à liberdade de opinião é fundamental a qualquer sistema democrático. Em qualquer outro sentido existe a Justiça para arbitrar as diferenças existentes.

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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