Coluna Fabricio Wolff | Das reflexões sobre ensino e educação na comunicação

21 de Janeiro de 2021

Assim como um jogador de futebol tem obrigação de saber calçar a sua chuteira, o jornalista tem como atribuição saber utilizar a língua portuguesa, pois é sua ferramenta de trabalho.

 

Com meus mais de 40 anos de atuação no jornalismo, ainda me assusto com algumas passagens que vejo, especialmente no telejornalismo. Sempre digo que quando uma pessoa resolver trabalhar com as palavras, precisa saber fazê-lo. E fazer com excelência. Não pode haver erros de uso da língua portuguesa, nem mesmo erros de tratamento às pessoas entrevistadas. É claro que não se pode exigir esta preparação de todos os brasileiros, infelizmente, mas daquelas profissões que atuam com as palavras, é o mínimo que se espera.

Não raro é possível ver repórteres de televisão, comumente em entradas ao vivo, escorregarem feio na língua pátria ao usar expressões como “houveram muitas ocorrências” ou “fazem dois anos que...”. Saber que o verbo haver, nos sentidos de existir, acontecer ou de tempo decorrido é impessoal é obrigação do profissional. A mesma regra serve para o verbo fazer na indicação de tempo decorrido e de fenômeno da natureza, pois em ambos os casos ele é impessoal, ou seja, não tem sujeito, por isso não tem com quem concordar. Tão ruim quanto utilizar a expressão “mim” antes de um verbo, bem característica do uso pelos indígenas quando de sua adaptação à língua portuguesa, em passado não tão distante. Nem vamos falar do uso de crases e vírgulas no jornalismo escrito, pois aqui o caso é muito mais grave.

Assim como um engenheiro tem por obrigação saber fazer cálculos estruturais, como o médico tem o dever de conhecer os equipamentos que usa em seu consultório, ou como o policial tem o encargo de saber manusear uma arma; assim como o pedreiro tem a responsabilidade de saber assentar tijolos de forma correta, como a cozinheira tem a incumbência de saber utilizar uma panela ou um jogador de futebol calçar a sua chuteira, o jornalista tem como atribuição saber utilizar a língua portuguesa, pois é sua ferramenta de trabalho. 

Outro fato que me espanta é notar como muitos profissionais do jornalismo, em especial das novas gerações, perderam o senso de protocolo ao entrevistar autoridades. É notório que, em nome da busca de mais proximidade da audiência, a informalidade ganhou as telas e as relações em uma entrevista. Isto não é ruim, pelo contrário, desde que se respeite o protocolo de tratamento em relação a autoridades constituídas. Afinal, são autoridades pelo cargo que ocupam e assim devem ser tratadas.

Canso de ver entrevistas, em especial na televisão, onde prefeitos, governadores, presidentes de tribunais, enfim, pessoas proeminentes de poderes constituídos como o Legislativo, Judiciário e Executivo são tratadas como “você” pelos entrevistadores. Profissionalmente, isto não existe. O tratamento é “senhor”. Assim como também não é correto tratar o entrevistado pelo nome, mas sim pelo cargo que ocupa. O entrevistado não é irmão ou familiar do entrevistador. Não cabe a intimidade de um tratamento íntimo ou casual. Além de informar menos ao telespectador, esta informalidade exagerada vira desrespeito. 

Aprofundando esta linha de pensamento, calcada na verificação do que acontece cotidianamente em nossos noticiários, o problema aponta para a educação e o ensino. Na questão do tratamento profissional às autoridades, ele se compara à educação que se recebe em casa, quando os pais ensinam os tratamentos que devem ser utilizados com as pessoas mais velhas ou hierarquicamente superiores. Daqueles tempos em que até o professor era respeitado em sala de aula. 

Já em relação aos não raros erros no uso da língua portuguesa, isto remete bem à deficiência do ensino de base, na escola. Crianças vão passando de ano sem mal saber o básico de português e matemática; em casa, não tem o acompanhamento real dos pais sobre seu aprendizado. Vai longe o tempo em que a escola ensinava, os pais educavam e crianças e jovens aprendiam a ponto de conseguir ter a base de conteúdo e comportamento para aplicar no resto de suas vidas. Hoje os universitários não sabem escrever corretamente, quanto mais interpretar um texto (salvo raras exceções, claro). Na maioria das vezes, eram aqueles adolescentes e jovens que não se levantavam para ceder o assento do ônibus ou o lugar na fila para uma pessoa mais idosa, para uma mulher, ou para alguém que necessite mais do lugar.

Longe de querer ser um texto saudosista, porque tempos melhores em algumas coisas podem ser piores em outras, ele é um exercício de reflexão do porquê temos profissionais mal preparados na área da comunicação (e não só dela), exercendo suas funções no dia a dia de nossas vidas.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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