ARTIGO | Reflexões sobre o rádio

28 de Agosto de 2017

por Emilio Cerri*
 
1. A sobrevivência e ressurgimento do rádio depende da "desistência" dos radiodifusores
O rádio só vai alcançar uma grande e positiva transformação e ressurgimento quando seus donos/diretores se libertarem do primitivo e ultrapassado conceito de que são "radiodifusores" e passarem a aceitar que estão no "negócio de comunicações". Lembremos de um dos mais clássicos casos de “miopia de marketing” citado em famoso artigo do mestre Theodore Levitt, de Harvard: "As ferrovias americanas pararam de crescer não porque a quantidadee de passageiros e de carga diminuiu. Ao contrário, aumentou. As ferrovias enfrentaram problemas não porque as necessidades tenham sido atendidas por outros serviços (carros, caminhões, aviões e mesmo telefones), mas porque não foi preenchida pelas próprias ferrovias. Elas deixaram outros tomarem seus clientes porque assumiram a si mesmas como estando no "negócio ferroviário", mais que no "negócio de transporte”. Demoraram a praticar a "lei da desistência", mas, enfim, acharam seu norte. Em vez de ficarem no negócio de passageiros e cargas, as ferrovias bem sucedidas de hoje são focadas em fretes. E estão indo muito bem.
 
2. Miopia mercadológica: o rádio continua teimosamente masculino
Praticamente 100% da programação das emissoras de rádio (com exceção das sertanejas e religiosas) têm suas grades de programação dirigidas aos homens, o que, a princípio, é um contrassenso e uma inexplicável miopia mercadológica. Além de terem mais tempo para ouvir rádio - particularmente as mulheres que dedicam a maior parte de seus dias às atividades domiciliares - são elas as principais decisoras de marcas e de compras e influenciadoras de tudo que diz respeito ao consumo (entre outras questões).
 
Em pesquisa do Instituto Data Popular, 86% dos maridos disseram que as mulheres decidem as compras do supermercado, são responsáveis pela viagem de férias da família (79%) e até pelas roupas do marido (71%). Além disso, também definem qual será o carro da família (58%) e escolhem o computador ou smartphone (53%). A maioria dos maridos (71%) disse, inclusive, que prefere até mudar de opinião para não brigar com a esposa. Mais da metade dos maridos (61%) afirmaram que as esposas conferem a conta deles no banco. Masm infelkizmente, o rádio continua titubeando como as vassouras e crescendo como planta rasteira. Já foi largamente ultrapassado pela web em receitas (9,7%), mas não reage, não muda, não inova, não se transforma. Por isso permanece disputando minguados 3,9% das verbas. Triste.
 
PS Obviamente o rádio que busca a audiência das mulheres deve ser feito por mulheres e homens. Não se trata de "Casa da Luluzinha
 
Emilio Cerri, Teimosamente jornalista, radialista e publicitário há mais de meio século.