ARTIGO | Eu te pergunto: dinheiro traz felicidade?

27 de Março de 2019

Será que esta relação tem impacto sobre a nossa vida?

 

por Robson Freire, Prof. Felicidade*

 

Em algum momento de sua vida, você já deve ter refletido sobre a relação entre a felicidade e o dinheiro, não é mesmo?! Esta é uma das frequentes provocações que tenho recebido nos últimos tempos, e que está presente no dia a dia das pessoas. Por isso, decidi escrever este artigo com intuito de proporcionar a você leitor, um olhar sobre o que tenho encontrado a partir de vivências, pesquisas e leituras sobre essa temática.  Início com a afirmação de que as definições de felicidade são diversas e envolvem questões ligadas ao nosso comportamento individual e social, por exemplo: fazer a coisa certa com base na cortesia, sabedoria e generosidade, satisfação dos desejos, superação de obstáculos, caráter de nossas escolhas, autoconhecimento, domínio de si e, sobretudo, na confiança e tempo que dedicamos às pessoas que amamos. Mas, neste sentido, onde entraria o dinheiro?

O dinheiro é um meio de pagamento, que pode comprar bens e prazeres momentâneos, dependendo do estágio da vida da pessoa. Para especialistas como Richard Layard, Paul Dolan e Andrew Jebb ter dinheiro também pode representar uma medida de comparação alheia. A forma de lidar com o dinheiro, faz com que algumas pessoas se sintam felizes por acumular e demonstrar que é mais rico do que outro. O importante nestes casos é o status que o indivíduo conquistou junto ao seu grupo de referência e sua reputação aos olhos do mundo. Para compreender esta linha tênue em que reside a relação entre felicidade e dinheiro áreas do conhecimento, como a psicologia, sociologia, economia e neurociência, têm desenvolvido pesquisas que procuram aprofundar essas discussões.

As explicações são variadas, mas um dos motivos para a realização destes estudos são as frequentes perguntas, como: o que nos deixa feliz? Qual o “preço” da felicidade em diferentes países do mundo? Ou ainda: o que podemos fazer para ampliar o nosso grau de satisfação com a vida? Seguidas também de afirmações que nos angustiam e são recorrentes em nosso cotidiano como: ah seu tivesse o suficiente para não me preocupar! Ah, uma graninha extra! Se eu tivesse um dinheirinho a mais, as coisas poderiam ser bem melhores! Afinal, ter as contas em dia, uma carteira recheada, poder comprar um carrão importado, ter um emprego melhor, um super salário, ter a casa dos sonhos, frequentar os melhores restaurantes, realizar viagens de férias para os destinos sonhados, festejar a vida - não deve ser uma coisa ruim. Quem sabe não seríamos mais felizes?

Porém, quando estes elementos são prioridades em nossas vidas, desencadeiam outros sentimentos: ansiedade, angústia e stress, que surgem como consequência da busca por satisfazermos nossos sonhos de consumo. E, ainda provocam novas perguntas: a felicidade vem de fora? O dinheiro pode comprar a felicidade? A relação entre prosperidade financeira e felicidade é diretamente proporcional? Uma vida estável, com uma quantidade generosa de grana garante a felicidade duradoura?

É assim que percebemos que o ter, assume uma dimensão intensa na vida contemporânea. Vivemos tempos de desafios e complexidade, em que tudo é transitório, fluido, líquido, com ausências significativas de comprometimento verdadeiro que alcançam principalmente as relações sociais. Diante desta perspectiva, o dinheiro passa a representar uma forma de liberdade inestimável e valiosa a partir das sensações e emoções atribuídas à posse, como reflete um estudo desenvolvido em 2018 pelo Instituto Gallup World Poll, em 164 países, abrangendo 1,7 milhão de pessoas. Esta pesquisa apresenta um comparativo da percepção das populações de países em desenvolvimento e os desenvolvidos sobre o assunto. Nações como a Índia, México, Filipinas e Brasil que experimentaram crescimento econômico com a evolução da renda também proporcionaram novas oportunidades para suas populações, por consequência foi possível identificar alguma evidência que a felicidade média dos seus habitantes aumentou. No Brasil esta relação também foi confirmada por uma pesquisa realizada no ano passado pela Fundação Getúlio Vargas, revelando que as pessoas se sentem mais felizes conforme a renda média nacional se amplia.

Por sua vez, os dados sobre países desenvolvidos economicamente revelaram uma contradição sobre o assunto.  Ao mesmo tempo em que nos últimos 70 anos a economia dos Estados Unidos, Inglaterra, França e Japão melhorou notadamente, a percepção de felicidade das pessoas está estática desde 1975 e não é mais elevada do que na década de 1950. Em muitos países existe apenas uma ligeira tendência ao aumento do grau de satisfação com a vida, como é o caso da Itália. Diante destes dados, isto significa que mesmo que os ricos tenham ganhado mais dinheiro e os pobres mais acesso a bens e uma melhor qualidade de vida, os mesmos não se declaram mais felizes. Encontra-se aí uma constatação importante: a felicidade propiciada pelo dinheiro extra é mais significativa quando você é pobre, e esta percepção pode não ser a mesma à medida que se torna mais rico. 

Neste sentido, constata-se que a evolução da renda propicia novas oportunidades e experiências que possibilitam sentir alegrias e satisfações de desejos. Porém, termino minha breve reflexão com um importante alerta: o impulso frenético pelo “ter mais dinheiro e bens” e não pelo “ser mais solidário e humano” é   fonte de sofrimentos e desenvolvimento de transtornos psíquicos e emocionais próprios do homem.  É preciso desenvolver uma consciência de que tudo é fluxo. O que vem, vai: dinheiro, pessoas, objetos, etc. Nossa inclinação natural não é obter algo do mundo e dos outros, está mais ligada a compartilhar, respeitar, celebrar e cuidar do outro do que acumular.

E, é isto que faz verdadeiramente sentido! Pelo menos, em minha concepção. Acredito que já temos quase tudo que precisamos, mas é necessário transformar nossos pensamentos e nossa forma de agir para que a realidade e a força desta troca possa gerar uma energia positiva, capaz de aumentar uma fonte de amor para si mesmo e os outros. Além disso, creio que seja necessário, que você perceba como se relaciona com o dinheiro! De que forma ele tem influenciado o seu modo de ver o mundo? Ele interfere no seu contato com o próximo? Ele te aproxima ou afasta das pessoas? Estes questionamentos podem ajudá-lo a visualizar com mais honestidade o impacto que o dinheiro tem sobre você e como isso reflete na sua percepção sobre a felicidade.

O importante neste caminho é olhar para a sua vida, para sua própria história, sem nos compararmos aos outros. Afinal, cada indivíduo é único não é mesmo?! Quando olhamos apenas para o outro esquecemos de nós!  É isso que também nos orienta o monge budista, Matthieu Ricard, de 71 anos, considerado o homem mais feliz do mundo por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Segundo ele, a felicidade também está relacionada com promover pensamentos positivos em nossa vida e a também meditar diariamente.

A partir destes aspectos, considero que estas alternativas, se é que podemos chamá-las assim, demonstram que nossas vivências podem ser pautadas pela busca do equilíbrio, com a adoção de práticas como “menos é mais”, sentir alegria pela simplicidade, mais gratidão e compaixão. Eu não tenho respostas prontas, mas convido-o a refletir, pois só você será capaz de responder às perguntas que tocam seu coração!

 

Prof. Robson Freire, Escola de Artes, Comunicação e Hospitalidade, na Universidade do Vale do Itajaí - Univali

bermuda, no tapete, lendo livro com pés no sofá