ARTIGO | Da buzina ao cancelamento, Comunicação em alta

27 de Abril de 2021

por Ricardo Stefanelli

 

É corrente o discurso, especialmente entre jornalistas, de que o Jornalismo morreu – ou, num gerúndio eterno, está morrendo. Prefiro enxergar que a Comunicação está crescendo, também em gerúndio.

Se há dificuldades da indústria de mídia e defecções nas equipes de imprensa, cresce a importância das demais formas de dialogar. E, afinal, o que importa é dialogar.

Não morrerão veículos e jornalistas guiados pela consistência da apuração, pela responsabilidade na publicação e pela independência de opinião, pilares básicos do ofício. Sem demérito da autenticidade tatuada por marcas tradicionais e profissionais reconhecidos, há de se aceitar, no entanto, que estão fortalecidas e certificadas todas as demais formas de conversar com a audiência. O desafio para os profissionais de Comunicação, portanto, está beeem fermentado. 

Não basta, como outrora, manter relações saudáveis com o repórter insistente, o colunista influente ou o editor consistente. É preciso dedicar tempo, didática e conteúdo para contribuir com estagiários que taxiam em pista molhada, produtores no piloto-automático, repórteres em voo turbulento ou editores sem o tempo adequado para contato com a torre.

Nem a cartilha dos manuais de voo, porém, representa garantia de que a mensagem será compreendida de forma clara e abrangente, como deveria. Na Era das narrativas, mais importa “quem afirmou o quê” do que “o que alguém informou”. O Quem passou à frente do Que, Quando, Onde e do coitadinho Por que. Se movimentar dentro desse leque de pronomes, usando argumentos técnicos e mantendo os batimentos cardíacos controlados, é condição obrigatória para quem vive no meio (ou seja, todos nós).
 
Portanto, é recomendado também ter tempo, didática e conteúdo para dialogar com associações, entidades, sindicatos, vizinhos, beatas, carpideiras, amigos, conhecidos, colegas, imprensa, youtubers, parceiros de toda ordem. Alô, alô, marciano, o whatsapp da família ganhou status de stakeholders. 

Falar com todos, o tempo todo, sem filtro nem maquiagem. Transparência não é somente um substantivo feminino – e sim o estado daquilo que deve ser comunicado, usa a mesma raiz de transparecer, conjugação mais que perfeita de dialogar. Comunicação não é mais, como um dia possa ter sido, pleonasmo de exclusividade. É exercício básico prescrito a líderes e gestores, chefes e subordinados, PFs e PJs, anônimos e famosos, tímidos e extrovertidos, jurássicos e tuiteiros. 

Quem tiver o que dizer e souber como informar, se comunica. Ou então trumbica no cancelamento, a versão influencer da buzina do velho guerreiro.


* Ricardo Stefanelli - 
Coordenador de Comunicação Social da CASAN, Ricardo Stefanelli é graduado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica/RS, com especialização pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS)/Universidade de Navarra, Espanha. Atuou por 26 anos no Grupo RBS, onde foi Repórter Especial, Editor, Editor-Chefe e Diretor de Redação do principal jornal do Grupo, Zero Hora, e Diretor de Conteúdo dos cinco jornais de Santa Catarina: Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, Jornal de Santa Catarina, A Notícia e Sol Diário. Antes do Grupo RBS trabalhou como repórter no Grupo Gazeta Mercantil e na Revista Veja, na época a quinta maior do mundo em tiragem. Membro do Comitê Editorial da Associação Nacional de Jornais (ANJ) em 2012-2013, participou dos Congressos da World Association of the Newspapers (WAN) em San Francisco/EUA 2010, Praga 2009, Buenos Aires 2005 e palestrou no WAN Amsterdam em 2008. Participou dos Congressos da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) em Santiago do Chile, Lima, Panamá e palestrou na SIP em Assunção/2010. Em sua carreira conquistou inúmeros prêmios, entre eles o Esso de Jornalismo, o ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa), o Young Reader Prize World Association of the Newspaper de 2008 e o da Society for News Design/SND - Creative Competition/Award of Excellence em 2013.
 

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