Coluna Ligia Fascioni | Um tipo para não esquecer

12 de Fevereiro de 2021

Incrível história de Richard Feynman, prêmio Nobel de Física

 

Até bem pouco tempo, confesso, nunca tinha ouvido falar de Richard Feynman. Mas antes tarde do que nunca; feliz em saber um pouco mais sobre essa figura única que habitou nosso planeta durante alguns anos. 

Feynman foi o ganhador do prêmio Nobel de Física em 1965 e, sob todos os pontos de vista, um gênio. Mas por que a vida de um físico teórico conhecido por sua contribuição em eletrodinâmica quântica, física das partículas, física da superfluidez e do hélio líquido, comportamento de partículas subatômicas e precursor da computação quântica haveria de ser interessante?

É claro que gente inteligente é sempre interessante, mas esse sujeito era uma figura! E parte da vida dele está registrada nos ótimos “Surely you’re jocking, Mr. Feynman!” e “What Do You Care What Other People Think? (tradução livre: “O senhor só pode estar brincando, Mr. Feynman” e “Você liga para o que os outros pensam?”). Ambos os livros são coletâneas de histórias que o editor Ralph Leighton reuniu durante sete anos de convivência com o físico. O resultado é uma biografia diferente, onde parece que você está sentado numa mesa de bar ouvindo Mr. Feynman contar seus “causos”.

 

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Feynman começa falando da sua infância, em que recebeu todo incentivo possível de seu pai, um vendedor muito talentoso e inteligente que queria que ele fosse um cientista (acertou em cheio; a irmã mais nova dele é também uma respeitada astrofísica). Quando criança, ele tinha um laboratório em casa onde fazia todo tipo de experimento e se divertia muito com os coleguinhas. 

Em um verão em que ele tinha 17 anos, foi trabalhar com serviços gerais num hotel administrado pela tia. O moço era cheio das ideias e, incomodado com o fato do aparelho de telefone ficar longe das mesas que ele precisava servir (tinha que fazer os dois trabalhos ao mesmo tempo), bolou um dispositivo para conseguir alcançá-lo à distância. Todo mundo detestou tanta proatividade, mas isso era bem a cara dele: ficar pensando em como melhorar as coisas e fazer protótipos para testar as ideias. 

 

NA UNIVERSIDADE

Feynman adorava pregar peças e fazer brincadeiras com as pessoas; seus colegas de faculdade eram as maiores vítimas. Ele vivia aprontando, tanto que certa vez chegou a desinstalar uma porta de um dos quartos da fraternidade onde morava e escondeu no quintal. Ele até participou da comissão para descobrir o culpado, até que alguém perguntou se ele mesmo tinha feito isso e ele confirmou (ele nunca mentia). Só que ninguém acreditou!

O moço era o contrário do que estereótipo dos gênios nerds: adorava encontrar pessoas diferentes, amava dançar e frequentar festas, ia a bares conversar com desconhecidos e fazia amizade com facilidade. A curiosidade era infinita: ele queria aprender tudo. Tinha facilidade para línguas e música, além de aparentemente ser bom dançarino.

Eu me acabei de rir e super me identifiquei com um caso em que ele conta que estava jantando no refeitório da faculdade quando um professor anunciou que teriam um convidado especial para uma palestra que iria tratar de hipnotismo. Ele estava anotando nomes de pessoas que quisessem ser voluntárias para um experimento e Feynman não podia perder isso de jeito nenhum. Sei bem como é, eu era voluntária convicta e oferecida para tudo o que aparecesse, a ponto dos professores pedirem para ficar quieta e deixar os outros participarem…rs

Bom, Richard ficou nervosíssimo, pois imaginou que a disputa seria muito acirrada (quem não ia querer participar?) e ele estava bem no fundo da sala lotada. Eis que quando o professor perguntou quem queria se voluntariar, o moço berra com todas as forças, justamente para se sobressair na multidão: “Euuuuuuuuuuuuuuuuuu!”. Só que ele foi a única pessoa que achou a ideia atraente…..hahahahahahahaha… imagino que o berro deva ter ecoado e assustado todo mundo. No final, o professor, rindo, falou: “Feynman, é claro que seu nome já estava aqui. Eu estava perguntando se, além de você, alguém mais gostaria de participar”… 

 

A BOMBA ATÔMICA

Recém-formado, assim como toda a geração dele, foi convocado para os esforços americanos na segunda guerra Mundial. Novinho de tudo, ele não tinha muita noção de onde estava se metendo, mas ficou feliz de poder ajudar o país justamente contribuindo na sua área de conhecimento. Eis que ele foi transferido para um complexo de pesquisa especialmente construído para pesquisar a bomba atômica, chamado Los Alamos.

Mais tarde, mais maduro e depois da guerra, ele questiona se devia realmente ter colaborado (penso que a maioria dos participantes  passou parte da vida se debatendo internamente a esse respeito).

O mais bacana é que ele admite quando não entende de um assunto e confessa sem problemas quando acerta por pura sorte, como foi o caso de uma planta heliográfica (aqueles rolos enormes impressos em azul) que mostrava o projeto das edificações em Los Alamos.

Ele já tinha fama de gênio naquela época porque sabia fazer as perguntas pertinentes que indicavam a chave para a solução dos problemas, mas é óbvio que ninguém domina todos os assuntos. Eis que foi chamado para uma comissão que investigava a segurança dos prédios que guardavam material radioativo para os experimentos da bomba atômica. Mostraram a tal planta e ele não conseguiu entender nada, pois desconhecia os símbolos. 

Mal prestou atenção no que o povo dizia (parecia outra língua, por causa dos termos técnicos que ele não dominava, pois não era engenheiro). Até que, intrigadíssimo com um símbolo que ele não conseguia identificar, resolveu chutar que era uma válvula. Mas como saber? Ele perguntou “E se essa válvula desse defeito?”. Se ele tivesse errado, alguém ia dizer: “O senhor está enganado; isso é uma janela, não uma válvula!”. 

Mas não é que o negócio era mesmo uma válvula que comprometia toda a segurança? Desnecessário dizer que sua fama de gênio só aumentou, mas é muito bacana ele se dispor a desmistificar contando os bastidores. Isso acontece em várias histórias do livro.

 

BRASIL

Feynman passou mais de um ano no Brasil e aprendeu português para dar aulas na UFRJ como professor convidado. Ele adorava as festas, a música, a comida e a informalidade das pessoas. Tanto que aprendeu a toca frigideira (não sabia que esse instrumento musical existia) e pelo jeito tocava bem; fez parte da bateria de uma escola de samba e tudo.

Sobre a UFRJ, ele foi bem duro (e sincero, como era bem do seu feitio). No discurso de encerramento de um dos cursos, pediram para ele falar sobre a experiência e ele disse, preocupado, que os alunos brasileiros eram muito dedicados, mas não sabiam pensar. Eles só decoravam as regras para responder às perguntas de maneira correta. Quando ele mudava os exemplos para casos reais, o povo travava e não conseguia raciocinar. O discurso chocou os presentes, claro, mas ele foi categórico. 

 

O ARTISTA

Feynman também aprendeu a desenhar e pintar (praticamente um Rodrigo Hilbert daquela época…rs) e chegou a vender quadros, além de ter uma amizade fortíssima com um artista da época. Ele amava pessoas com ideias diferentes e outros pontos de vista (apesar de que, como nós mortais, muitas vezes ele não entendesse exatamente o que estava sendo dito).

 

O NOBEL

Ele conta indignado que foi acordado de madrugada por uma pessoa da equipe do Nobel dizendo que ele havia ganho o prêmio de física. Desligou o telefone porque estava com sono e a pessoa insistiu, até que ele perguntou se as ligações parariam se ele recusasse o prêmio. 

Foi aí que descobriu que não poderia recusar e se conformou. Ele não gostava de ser uma celebridade porque preferia se misturar com as pessoas. 

Ele amava falar de física para estudantes e, depois disso, convidado pelos alunos canadenses para um evento em que participava todo ano, só topou ir se a palestra fosse anunciado como sendo de outra pessoa (apesar do mesmo tema). Assim ele garantiria que apenas os normalmente vinte e poucos interessados iriam assisti-lo; o combinado era que a organização, na hora da palestra, diria que o professor não pôde vir e seria substituído pelo Mr. Feynman. Funcionou, mas o reitor ficou putíssimo, pois se soubesse que o prêmio Nobel iria estar lá, teria reservado o auditório principal para 600 curiosos; tudo que o físico queria evitar.

 

O PRIMEIRO CASAMENTO

No segundo livro, ele fala de sua primeira esposa (Feynman foi casado três vezes). Ele a conheceu quando estava entrando na faculdade e se apaixonaram. Logo em seguida, souberam que ela tinha uma doença fatal e que duraria apenas alguns anos. Feynman então resolveu se casar com ela para podê-la visitar no hospital sempre que quisesse. Eles passaram cinco anos juntos; ela sempre internada e ele indo visitá-la nos finais de semana. Uma história muito linda.

 

O FINAL

O segundo livro também conta a participação dele na comissão que investigou os motivos do acidente com o ônibus espacial Challenger, em 1986. Ele conta os bastidores, a teimosia dele em sempre falar a verdade e quase quebrar a cara com isso, as coisas que aprendeu e experimentou.

Esse gênio e ser humano incrível morreu em 1988, vítima de dois tipos raros de câncer raro, quando estava fazendo a última tentativa de cirurgia, aos 69 anos. Que perda. 

 

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "Atitude Pro Liderança" (Letramento, 2016). Seu blog (www.ligiafascioni.com) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma empresa de tecnologia e é YouTuber do canal Berlim Tech Talks.

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