Coluna Jean Caristina | Ufa! O “maldito” touro saiu de lá!

24 de Novembro de 2021

Já era tempo! Sabe a expressão “tem um bode na sala”? Pois é. No caso, não era bode, era um touro!

A parábola do bode é que num ambiente familiar conturbado, cheio de reclamações da mulher e dos filhos, um sujeito foi aconselhado a colocar um bode na sala. Uma semana depois, o bode fedia e a casa estava caótica. Assim que tirou o bode, a harmonia do lar voltou.

No último dia 16/11, a B3 (antiga Bolsa de Valores de São Paulo) colocou na frente de seu prédio, no Centro Histórico de São Paulo, um touro dourado medindo 3 metros de altura e 5,10 metros de comprimento, imitando, ao seu modo tupiniquim, o famoso touro de bronze localizado na mundialmente prestigiada e visitada Wall Street, no centro financeiro de Nova York.

A iniciativa da B3 tomou a página de diversos sites de notícia, por dias! Fizeram churrasco ao lado do bicho, picharam o animal, tacaram ovo, tiraram foto, protestaram… Acredite, em meio a uma pandemia sem fim, a uma PEC que promete calotear credores, a um auxílio emergencial que não tem lastro e muito mais, discutiu-se, por horas, dias, páginas e páginas, a maldita escultura (e, convenhamos, bem mal-ajambrada) do touro de Wall… digo, da Rua XV de Novembro.

Porém, no último dia 23 resolveram tirar o bode da sala. A Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), órgão da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), da Prefeitura do Município de São Paulo, considerou que a estátua possui elementos de peça publicitária e, como tal, viola os artigos 39 e 40 da Lei Cidade Limpa, que, em síntese, proíbe anúncios sem autorização prévia ou com dimensões diferentes das aprovadas pelo Município.

Isto porque o touro dourado faz referência a uma das patrocinadoras da obra, a empresa de educação financeira “Vai Tourinho”, do economista Pablo Spyer e da XP Investimentos, conhecida empresa de atuação no setor financeiro. Em outras palavras, era publicidade privada e, portanto, sujeita a regulação.

O touro tinha mesmo que sair. E com razão. Havia razão jurídica, diga-se de passagem, pois em se tratando de peça publicitária, há limites a serem observados, pelo menos no Município de São Paulo, desde a adoção da Lei Cidade Limpa, que veda iniciativas como aquela, desproporcionais e que certamente desconfiguram o conjunto arquitetônico, especialmente num centro histórico como o que está localizada a B3. Se fosse apenas uma escultura, sem interesses privados, a regulamentação seria outra.

Mas houve muitas manifestações de que o touro dourado representaria o capitalismo, num país que padece de fome e miséria. Transformaram o coitado do touro, por sua simbologia, no inimigo número 1 das nossas mazelas. 

Símbolos de riqueza, sucesso e pujança financeira são comuns no mundo, especialmente no chamado ‘mundo desenvolvido’. E não estão lá para serem apedrejados, mas para serem vistos com olhar de que é possível, pelo próprio capitalismo, a inclusão dos miseráveis por meio do trabalho e do desenvolvimento pessoal.

O ódio à riqueza noutros países é mitigado por sua vocação à competição e à meritocracia (talvez fruto de sua formação cívico-religiosa), o que nos põe numa cruel e estranha contradição: no Brasil é possível ter, mas é pecado demonstrar. Vide, por exemplo, a cantora e influenciadora Anitta. Segundo a revista Forbes México, a fortuna dela é estimada em R$ 533 milhões. Ninguém se incomoda com isso, apesar de Anitta ser fruto desse mesmo capitalismo representado pelo touro.

Um touro, uma pomba ou um urubu não mudam a realidade econômica de um país: somos um país capitalista, assim como a maior parte dos países desenvolvidos. Mas garanto: não é o capitalismo que é ruim, mas, sim, os capitalistas, notadamente aqueles sem a menor inclinação ao humanismo. O touro dourado da B3, enquanto adorno, demonstraria apenas um lado da nossa sociedade. Mas diferente do de Nova York, este veio recheado de interesses privados, eminentemente ligados à publicidade e, portanto, capitalistas, justificando sua retirada e comprovando, mais uma vez, que talvez o problema esteja naqueles que fazem mau uso e acabam por manchar a imagem deste modelo modelo econômico capaz de nos tirar da situação de precariedade econômica que vivenciamos há tantos anos.

Mas o bode foi embora. Agora a fome acabará, o emprego voltará aos níveis máximos, a economia vai voltar a funcionar e, enfim, a paz reinará no mais importante centro financeiro do país. Afinal, na parábola do bode, sua saída provoca alegria e harmonia na casa, não é mesmo?

Jean Caristina

  • imagem de jcaristina
    Jean Caristina é advogado, Doutor e Mestre em Direito Econômico pela PUC/SP, professor universitário, pesquisador e consultor jurídico. É editor do site IntervaloLegal, que trata das relações jurídicas da publicidade, com ênfase no Direito do Consumidor e no direito constitucional da livre expressão (www.intervalolegal.com.br). Instagram: @jeancaristina

Notícias Relacionadas