Coluna Ligia Fascioni | A startup de Nurenberg

30 de Outubro de 2020

Era para ser um romance histórico, mas é um livro de empreendedorismo

 

Há algumas semanas estive em Mainz, numa das experiências mais legais da minha vida: visitei o Museu Gutenberg, instalado na casa onde morava o homem que inventou os tipos móveis e revolucionou a comunicação no planeta. As fotos e o relato estão aqui.

Pois achei, na lojinha do museu, um romance de uma jornalista britânica especialista em prensas móveis, publicado em 2014, que conta a epopéia por trás dessa grande invenção. O livro é “Gutenberg’s apprentice”, de Alix Christie.

Achei (penso que a autora também) que estivesse diante de um romance histórico. Também, mas não só. 

É um livro sobre empreendedorismo tecnológico e inovação com todos os ingredientes necessários: o desafio de desenvolver uma tecnologia inovadora; a dificuldade de encontrar investidores; o custo e o tempo que sempre superam as estimativas; os clientes que desistem em cima da hora, depois de um amplo investimento em matéria prima; as relações políticas e de poder, imprescindíveis para o sucesso do negócio; a resistência do mercado ao novo; a preocupação com o segredo industrial; as frustrações, a falta de dinheiro e o desânimo antes do grande boom. Está tudo lá. 

E, olha, não quero dar spoiler, mas o final foi bem inesperado para mim…

 

QUANDO O INVESTIDOR QUER COLOCAR O FILHO NO NEGÓCIO

O protagonista da história é Peter Schoeffer, o tal aprendiz, adotado ainda bebê por um rico comerciante de livros em Mainz, cidade natal de Gutenberg. Peter é enviado a Paris para aprender a copiar livros com aquelas letras ornamentais (estamos em 1450 e todos os livros eram copiados à mão). O moço está feliz na cidade das luzes, comemorando porque conseguiu contatos para fazer encomendas importantes e se tornar um profissional respeitado, quando é chamado pelo pai. Ele não pode recusar e volta para casa, de coração partido.

Johann Fust, o pai rico, está deslumbrado com o encontro que teve com um homem chamado Johannes Gutenberg. O sujeito mostrou a ele uma máquina que conseguia imprimir livros, e até lhe deu uma amostra. Fust, um visionário, logo percebeu que uma revolução estava por começar e não queria ficar fora dela. Investiu uma fortuna no negócio, mas com a condição de que o filho trabalhasse no projeto como aprendiz. 

O rapaz ficou revoltado; copiar livros era uma arte. Imagina substituir uma habilidade tão extraordinária por letras feias, numa tinta ruim, sem nenhum respeito pela longa tradição. Mas ele não tinha alternativa; acabou se submetendo aos caprichos e ao mau humor de Gutenberg, igualmente revoltado pela intervenção.

Levou meses, mas Peter acabou encontrando uma forma de ser precioso na equipe enxutíssima (além do aprendiz, Gutenberg contava apenas com mais três ajudantes). 

O moço participou do desenvolvimento da tinta, que precisava ter boa pigmentação, mas principalmente das fontes tipográficas, letras góticas com muitas variações de peso, ligaduras e inclinações, que teriam que ser desenhadas pensando na forma como seriam fundidas em metal. 

No total, a composição da Bíblia latina contava com uma coleção de mais de 300 tipos diferentes. Isso tudo além das ilustrações especialmente contratadas, produzidas e impressas em outras cores em algumas páginas. Já pensou?

 

CLIENTE COMPLICADO

Gutenberg era bom de papo e mestre no Elevator Pitch; por isso, mesmo mantendo segredo para que a ideia não fosse copiada, conseguiu acesso aos políticos mais importantes da região de Mainz, que, não por acaso, também pertenciam à igreja, que dominava tudo na época.

Ele começou imprimindo gramáticas simples, mas precisava de uma grande encomenda para conseguir alguma receita e reinvestir no negócio, pois Fust estava apreensivo com a demora no retorno. 

Conversando com um Cardeal, conseguiu uma encomenda de um missal cujo texto seria entregue dali a algumas semanas. Todas as igrejas da região teriam essa brochura de mais ou menos 200 páginas. Parecia um excelente negócio.

Gutenberg voltou para sua oficina e bora conseguir a quantidade adequada de papel (caríssimo e difícil de produzir, naquela época) e fundir a enorme quantidade de tipos necessários para cada uma das páginas. A equipe toda trabalhou exaustivamente para deixar tudo pronto, mas nada do texto chegar. 

Todo mundo foi ficando nervoso, o tempo ia passando, o dinheiro acabando, a pressão aumentando. Ocorre que a igreja estava em plena reforma protestante (que também não aconteceu do dia para a noite; foram meses de negociações e acordos de poder). O cardeal não queria se arriscar a produzir um texto que poderia se tornar obsoleto em questão de semanas e resolveu empurrar com a barriga. 

 

A BÍBLIA

Desesperados, Gutenberg e Fust tentaram encontrar uma solução para o impasse. Eis que Gutenberg teve a ideia: por que não imprimir a própria bíblia (em latim, claro, pois era a versão utilizada) em vez de um missal? O volume seria usado por todas as igrejas do continente, além de famílias que pudessem comprar uma, muito mais acessível que a versão manuscrita; sucesso de vendas garantido. 

O único empecilho era o volume absurdo de trabalho; se eles estavam passando mal para produzir um volume de 200 páginas, imagine só o desafio de um livro com mais de mil e quatrocentas páginas? 

Calcule o tanto de letras que teriam que fundir, o volume de material que teria que ser comprado secretamente, o tempo de impressão, todo o trabalho adicional de encadernação? O espaço necessário para fazer isso? Loucura total e absoluta! Levaria anos para primeira edição ficar pronta, mesmo assim, trabalhando que nem malucos e sem retorno a curto prazo.

Mas eles eram loucos. E toparam. Para montar a primeira página, foram 15 horas de trabalho ininterrupto. Esses homens viveram tempos insanos, lutando contra o relógio e a exaustão.

 

DESACERTOS

Os sócios tinham pontos de vista diferentes sobre o negócio e Gutenberg tomava decisões importantes sozinho, sem consultar o investidor. Isso, por vezes, colocou em risco o segredo e o sucesso do empreendimento, como quando aceitou publicar um livro religioso em paralelo com o trabalho absurdo de impressão da bíblia. Ele precisava levantar dinheiro e Fust não estava disposto a arriscar mais. 

Peter então teve a ideia de imprimir salmos e livrinhos simples para desviar a atenção do povo sobre a Bíblia; eram cópias feitas na primeira versão da prensa, de baixa qualidade ainda. Tudo isso sem o conhecimento do mestre. Ainda tinha o problema das guildas, organizações profissionais que cobravam taxas dos escribas e não estavam preparadas para a nova tecnologia. A questão política era muito complexa, totalmente permeada com a religião. Todos eram muito devotos falavam em destino e Deus o tempo inteiro para justificar suas decisões.

As complicações e negociações com guildas, políticos, religiosos, concorrentes e mais um monte de gente envolvida querendo melar o negócio faziam parte do dia-a-dia desses homens que já ocupadíssimos demais com a tarefa hercúlea a que tinham se comprometido. 

Tudo isso misturado com os dramas psicológicos pessoais de cada um e os conflitos das relações entre pai e filho. Enfim; muito suspense, mistério, tensão e nervoso… 

 

GRAN FINALE 

No final, os sócios se desentenderam e se separaram; Peter Schoeffer e o pai chegaram a imprimir 180 cópias da Bíblia (ainda existem 48 volumes, completos ou em partes). Peter montou um império editorial; inventou a publicidade impressa e criou o que hoje conhecemos como a Feira Internacional do Livro de Frankfurt.

Johann Gensfleisch, conhecido como Johannes Gutenberg (não entendi porque ele tinha esse “nome artístico”) foi reconhecido mundialmente como o inventor dos tipos móveis. Apesar de conseguir inúmeras encomendas da Igreja (outra versão da Bíblia, calendários, missais, indulgências e bulas) em um consórcio com seus antigos colaboradores, ele nunca produziu sozinho uma cópia da famosa primeira Bíblia.

Por essa eu não esperava. Incrível, né?

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "Atitude Pro Liderança" (Letramento, 2016). Seu blog (www.ligiafascioni.com) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma empresa de tecnologia e é YouTuber do canal Berlim Tech Talks.

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