Coluna Jean Caristina | O racismo atávico também na publicidade

19 de Junho de 2020

Atávico: “que se refere ao atavismo, ao reaparecimento em alguém das características de um antepassado que permaneceram escondidas por muitas gerações”

 

Somos uma sociedade racista.

Vamos lá, negue o fato!
 

Se você não é ou não se sente racista, é um bom sinal, mas não significa que não seja racista, indiretamente falando. Há racismo quando aceitamos silenciosamente algo que deveríamos repudiar com veemência.

Mas no dia seguinte acordamos e aceitamos a realidade posta calados, de novo, e de novo e de novo, até o momento que tudo pareça absolutamente normal, que olhemos para as situações cotidianas ou com desdém ou com a sensação de que não é conosco.

E assim vai se tornando normal que ao redor de uma piscina só haja brancos, que a mocinha que desfila com belos sapatos seja branca, que no comercial de carros o piloto seja branco, que a roupa caia bem em corpos lindamente brancos, que o perfume realce a pele... branca, é claro!

Há quem tenha despertado para esta realidade e, como que cumprindo um sistema absurdo de quotas, insiram negros nos comerciais, por obrigação. Afinal, pega bem, escapa às críticas, evita acusações de racismo.

O que se viu esta semana foi uma completa “bola fora” da Bombril ao lançar a esponja chamada “Krespinha”, que, segundo consumidores, remeteria aos cabelos crespos típicos dos negros. Na década de 1950 já existiu uma esponja de aço chamada Krespinha, cuja embalagem mostrava a imagem de uma criança negra, em clara alusão ao seu cabelo.

Se não bastasse a falta de pesquisa histórica ao lançar um produto que remonta 1950, e que, hoje em dia, com a evolução informacional, seria obviamente alvo de críticas, especialmente pela agilidade que as redes sociais proporcionam, o produto foi lançado uma semana e meia depois da morte do americano George Floyd, o homem negro de 46 anos que morreu asfixiado por um policial branco.

A Bombril veio a público e, em nota, pediu desculpas e tirou o produto de circulação. Fez bem. Mas, venhamos e convenhamos, que momento para se lançar produto com esta “peculiaridade”! O ideal era não lançar em momento algum, mas, por favor (!), não esta semana!

É de se estarrecer, mas houve quem discordasse da decisão da empresa, alegando se tratar de excesso de “politicamente correto”. Não tenho forças para comentar esse tipo de posicionamento.

O que precisa ser destacado, e por diversas vezes, é a possibilidade de que realmente não tenha sido uma intenção racista da empresa. Ora, são dezenas de instâncias numa empresa daquele tamanho. Um produto passa por diretorias, chefias, gerências, produtores, desenvolvedores, pessoal de criação etc. É óbvio que a Bombril não lançou o produto ou elaborou a peça com más intenções. Mas volte ao terceiro parágrafo deste texto: para ser racista, não precisa ser, necessariamente, racista. Basta que aceitemos fatos – a Krespinha, por exemplo –, como normal. Basta que não vejamos problemas em não ter negros estampando comerciais, basta que aceitemos que os negros que por vezes são contratados como garotos-propaganda não sejam necessariamente negros, mas apenas mulatos.

Enfim, esse nosso racismo atávico é que nos mostra que há um pouco de Derek Chauvin (o policial que matou George Floyd) em nós. A cada minuto em que aceitamos, silenciosamente ou sem perceber, essa não-inclusão do negro como um membro da sociedade como qualquer outro, é nosso joelho que está sobre o pescoço dele, tirando-lhe o ar, o espaço, a economia, a vida!

Jean Caristina

  • imagem de jcaristina
    Jean Caristina é advogado, Doutor e Mestre em Direito Econômico pela PUC/SP, professor universitário, pesquisador e consultor jurídico. É editor do site IntervaloLegal, que trata das relações jurídicas da publicidade, com ênfase no Direito do Consumidor e no direito constitucional da livre expressão (www.intervalolegal.com.br). Instagram: @jeancaristina

Notícias Relacionadas