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O dilema da felicidade na sociedade do consumo
04 de Março de 2024

O dilema da felicidade na sociedade do consumo

Afinal, comprar mais aumenta a felicidade?

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Por Cristiane Soethe 04 de Março de 2024 | Atualizado 04 de Março de 2024

Ao longo da história da humanidade, filósofos e pensadores sugeriram que características como amor, sabedoria e desapego seriam elementos cardeais para uma existência com sentido. Os filósofos clássicos gregos acreditavam que uma vida satisfatória residia na virtude. Já os filósofos utilitários argumentam que a ausência de dor e a presença do prazer seriam definitivos para uma boa vida. Embora o tema desperte atenção dos pensadores há séculos, foi no início do século XX que começaram a surgir estudos empíricos sobre felicidade, medindo prioritariamente a satisfação das pessoas com a vida cotidiana. E essa satisfação está, muitas vezes, relacionada ao consumo. Isso porque muitos estudiosos defendem que o consumo moderno tem mais a ver com as emoções do que com uma natureza calculista, suprindo uma função que vai além das necessidades básicas do ser humano.

A cultura do consumo é um tema cada vez mais relevante, especialmente quando levamos em conta os registros de aumento nos níveis de compras em países como China, Índia e Brasil. A característica do consumidor contemporâneo de maximizar satisfação e prazer em um estilo de vida que prioriza o investimento em si mesmo nada mais é do que a busca pelo bem-estar, em outras palavras, pela felicidade. Por isso, a pergunta que levanto para reflexão é: de que maneira a felicidade e o consumo estão conectados? Será que a cultura do consumo leva a uma vida boa e aumenta a felicidade?

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Alguns estudiosos associam o consumo a uma forma de distinção (Bourdieu), como uma maneira de construção e afirmação da própria identidade (Baudrillard) ou ainda como uma prática hedonista, de satisfação do próprio prazer (Lipovetsky). Todas essas teorias apontam para um único caminho: a busca de alguma forma de compensação pelo consumo.

Em uma aula com Mike Featherstone – sociólogo britânico e um dos grandes estudiosos da cultura do consumo atualmente no mundo – que tive a oportunidade de assistir, ele falava que a equação mais riqueza = mais felicidade, suposição básica das economias de consumo neoliberais, não é necessariamente verdadeira. A felicidade pode muito bem ser efêmera, mas sua aura paira sobre a cultura de consumo. Contudo, quando olhamos para nosso entorno, percebemos as consequências: o desperdício que está se acumulando ao redor de nossos pés, além do aumento do endividamento dos indivíduos.

Além disso, hoje temos o consumo imaterial, por meio da internet e dispositivos móveis, onde buscamos a satisfação de desejos e experiências. Cada vez mais, esperamos que os produtos proporcionem experiências e estamos expostos a esse universo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os americanos hoje dormem 6,5 horas por noite, contra 8 horas na geração anterior e 10 horas na anterior. Os limites entre trabalho e consumo se dissolveram e agora a ênfase está nas tarefas produtivas. Somos acompanhados e monitorados todo o tempo e as telas nos envolvem e exigem respostas. As novas tecnologias oferecem capacitação, multitarefa e velocidade. A cultura da tela da Internet nos treina para ficarmos atentos – a verificação constante e o folhear sem rumo das janelas e a recusa em desligar podem se tornar uma compulsão.

Responder ao questionamento inicial do artigo não é tarefa fácil. Alguns argumentam que precisamos de uma mudança para um consumo mais limitado, baseado em estilos de vida mais simples e frugais e em novos modos éticos de conduta e responsabilidade.  Na área da pesquisa científica também não há exatamente um consenso. Autores como sociólogo holandês e pioneiro no estudo científico da felicidade, Ruut Veenhoven, afirmam que alguns tipos de consumo estão relacionados à felicidade, como bens duráveis e educação (a compra de uma casa, por exemplo). Além disso, existem vínculos comprovados entre consumo de experiências e felicidade. Em uma pesquisa aplicada por Veenhoven, os resultados mostraram que gastos com vestuário estão associados a maior felicidade entre os homens, mas a menor felicidade entre as mulheres; gastos elevados com comunicação estão associados a menor felicidade; e menos luxo tem apenas uma relação limitada com a felicidade.

De forma geral, atualmente estamos mais conscientes de que a felicidade não é apenas uma questão de destino, mas algo sobre o qual podemos ter um controle considerável, ou seja, ela depende em grande parte das escolhas que fazemos. Porém, fatores culturais e sociais possuem grande peso no que diz respeito a essa questão. É preciso levar em conta que as pessoas usam o consumo não apenas para atender necessidades básicas ou para serem felizes, mas para gerenciar sua identidade e suas relações sociais. Trata-se certamente de um debate de grande importância para a humanidade, mas ainda inconclusivo.

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Crédito das imagens: CanvaPro

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