Influência enganosa: a vegana carnívora!

17 de Abril de 2019

Youtuber crudivegana ensinava aos seus seguidores um estilo de vida perigoso, mas pulou do barco antes que naufragasse. Que se afoguem, não é?

Rawvana, em vídeo no youtube, explicando o porquê de estar comendo carboidratos.

Influenciadores (alguns deles, é claro!) são pessoas que em boa parte do seu tempo não são aquilo que representam nas redes sociais, mas conseguem dar ares de sinceridade às suas aparições, e que, justamente por sua habilidade de se comunicar, acabam induzindo milhares de pessoas a acompanhar seus canais.

Antes que me critiquem, não estou dizendo que são pessoas ruins, tampouco que não devam mais existir. As redes sociais contribuíram enormemente para o surgimento das não-verdades, com fotos, vídeos e canais que expressam realidades intangíveis para boa parte do público. Como num teatro, são personagens que querem cativar um séquito de seguidores ávidos por encontrar, neles, algum significado ou que esperam que eles façam aquilo que sonham em também poder fazer.

Há influenciadores para tudo: roupas, sapatos, perfumes, moda, viagens, música etc. Em todos os setores da economia há quem influencie e há que seja influenciado. 

Algo que também se tornou comum são influenciadores de comportamentos. Eles dizem como falar, como se portar, como se relacionar e, o que mais assusta, até mesmo o que comer. 

A youtuber Yovana Mendoza Ayres, conhecida como Rawvana, é seguida por quase 2 milhões de pessoas (já houve bem mais) e ficou conhecida por difundir seu “estilo de vida” crudivegano. 

A youtuber, que vive em San Diego e divulga vídeos em inglês e em espanhol, defende a alimentação de produtos crus e sem origem animal. 

Acontece que Rawvana foi flagrada em vídeo publicado por outra youtuber comendo um filé de peixe num restaurante em Bali, na Indonésia. O vídeo viralizou. Seus seguidores entraram em colapso. Rawvana perdeu contratos de patrocínio e viu-se obrigada a dar explicações. 

Ela foi “obrigada” a mudar sua dieta por problemas de saúde. Anêmica, com o intestino repleto de bactérias e com problemas hormonais que geraram desregulação de sua sua menstruação, a youtuber foi obrigada a abandonar sua dieta radical e passou a incorporar peixes, ovos e outros suplementos. 

Mas não avisou ninguém! 

Nas redes sociais Rawvana continuava vendendo sua ‘fórmula mágica’ de saúde: o crudiveganismo, que é um veganismo na sua forma mais radical, em que os alimentos não são cozidos. 

Depois da gravação comia peixes e ovos, mas deixava seus seguidores apodrecerem livremente, numa irresponsável atitude egoísta de salvar-se, a despeito daqueles milhões que acreditavam estar seguindo uma fórmula de saúde e bem-estar que ela mesma dizia viver. 

Se estivesse no Brasil, ela poderia responder por crime, pois o artigo 67 do Código de Defesa do Consumidor pune quem faz ou promove publicidade que sabe ou deveria saber ser abusiva ou enganosa. A pena é de três meses a um ano de detenção. E não se questione se tratar de publicidade, já que seus programas são repletos de inserções comerciais indiretas. 

Daí o motivo de tamanha atenção por parte das autoridades em relação aos chamados influenciadores. Em diversas representações submetidas ao CONAR há acusação de não identificação publicitária em vídeos publicados por youtubers. São inserções comerciais não identificadas como tal, a ponto de o seguidor não conseguir diferenciar quando se trata de vida pessoal (supostamente real) e quando se trata apenas de uma ação de marketing.

O ‘fair play’ da publicidade é distinguir esses dois universos, o lúdico e o real, justamente para que os consumidores consigam identificar quando se trata de uma e quando se trata de outra, e façam seu julgamento do que realmente querem seguir.

No caso de Rawvana a coisa é ainda mais séria, pois seu canal não é apenas para comercializar produtos, mas para influenciar pessoas a viver uma vida que nem mesmo ela vivia, ou que, se vivesse por mais tempo, adoeceria ou chegaria à morte. Isso é bem pior do que vender um punhado de granola durante seus vídeos!

Como não é possível distinguir quem é o público seguidor de comportamentos tresloucados como o de Rawvana, é possível que seus vídeos também tenham afetado a vida de jovens que, em plena fase de crescimento e desenvolvimento físico e intelectual, passaram a comer alimentos crus para copiar sua ‘ídola’. Ora, quem precisa da ‘Momo’ quando já se tem influenciadores que ensinam como morrer lentamente?

Seguir um influenciador deveria ser como num teatro: o tempo todo devemos nos lembrar que são apenas personagens. Mas esse tipo de consciência só existe em parte da população melhor instruída e capaz de questionar tranquilamente: “famosa quem?”. A realidade é que há muita gente disposta a seguir esses influenciadores e copiar seus estilos de vida, inconscientes de que, nos bastidores, eles podem ser totalmente diferentes.

Na lógica do marketing de influência quanto mais transparente e sincero, melhor. O mercado busca influenciadores verdadeiros, que sejam na vida pessoal o que representam aos seus seguidores na frente das câmeras. Quanto mais sincero, maior a chance de identificação do público. Mas infelizmente nem sempre isso é possível.

Enquanto isso não acontece, casos como o de Rawvana são simbólicos para mostrar o grau de responsabilidade desses influenciadores com a propagação de falsas impressões e cuidado que se deve ter ao segui-los, ou ao permitir que jovens, sem o senso crítico bem definido, tomem essas pessoas como referências de comportamento e de saúde.

Jean Caristina

  • imagem de jcaristina
    Jean Caristina é advogado, Doutor e Mestre em Direito Econômico pela PUC/SP, professor universitário, pesquisador e consultor jurídico. É editor do site IntervaloLegal, que trata das relações jurídicas da publicidade, com ênfase no Direito do Consumidor e no direito constitucional da livre expressão (www.intervalolegal.com.br). Instagram: @jeancaristina