Coluna Jean Caristina | A desinformação a serviço da educação

31 de Outubro de 2018

Banca em Nova York vende jornais e revistas com notícias falsas como forma de conscientizar a população sobre os riscos de se consumir fake news.

Banca comercializa "fake news" em plena Nova York

O mundo foi oficialmente apresentado à expressão “Fake News” (notícias falsas) nas eleições para presidente dos Estados Unidos em 2016. 

Embora a prática não seja nova, especialmente no universo político, jamais houve tamanha disseminação desse tipo de notícia entre os eleitores.

Parte da culpa dessa pulverização descontrolada de notícias falsas se deve à intensificação do uso das redes sociais, especialmente Facebook e Twitter, que conseguem disseminar notícias a milhões de leitores em curto espaço de tempo. 

O Brasil é exemplo de que a prática, infelizmente, não é um fenômeno isolado. Nas últimas eleições para presidente e governo, acusações de que os partidos se utilizarem do Whatsapp para disseminação de notícias falsas tomaram conta de boa parte do debate. Mesmo sob os olhares atentos de milhares de autoridades, membros de partidos e eleitores, não foi possível controlar a prática.

Segundo pesquisa realizada por Andrew Guess, Brendan Nyhan e Jason Reifler, das universidades de Princeton, Dartmouth e Exeter, respectivamente, em trabalho que avaliou o consumo de notícias falsas durante a campanha de 2016 para a Presidência dos EUA, chegou-se à conclusão de 27,4% dos americanos com mais de 18 de anos leram artigos falsos relativos às campanhas de Trump ou Clinton, ou seja, 65 milhões de americanos.

As fake news, segundo a pesquisa, não foram suficientes para mudar o resultado da eleição, no entanto, poluíram o debate político e acabaram criando cortinas de fumaça para fatos que realmente interessavam ao povo americano.

Uma banca de jornais diferente

Uma banca de jornais localizada em plena Nova York, entre a 42ª e a 6ª Avenida, passou a vender jornais e revistas alternativos, com notícias declaradamente falsas. 

O curioso é que as notícias que estampam os jornais são tiradas das próprias redes sociais.

Capas dos jornais e revistas produzidos pela CJR com conteúdos falsos

A ação é uma iniciativa de TBWA/Chiat/Day New York para impulsionar a campanha “Real Journalism Matters”, da organização americana Columbia Journalism Review (CJR). 

Em pleno ano de eleições para governador, os americanos estão sendo novamente alvo de fake news e a ação pretende conscientizar o eleitor para o risco de consumirem notícias sem a devida atenção quanto à sua veracidade. 

Segundo a própria CJR: “Esperamos que este projeto de um dia seja um convite a todos nós para sermos mais atenciosos e mais cuidadosos com as notícias e informações que estamos vendo e compartilhando (...) Nosso objetivo é mostrar o custo dessa desatenção, em termos do tipo de informação que estamos consumindo, seu efeito no jornalismo real e até mesmo seu potencial para a violência”.

Na banca é possível adquirir jornais pouco convencionais, tais como o General Report, The Informationalist, The Journal List, entre outros. Todos foram criados apenas como instrumento de propagação da importância do bom jornalismo, da boa leitura e da informação. 

A ação mostra que o marketing pode ser um instrumento acessório das políticas públicas de combate à desinformação, vendendo justamente a desinformação como forma de educação e conscientização. É a comunicação, mais uma vez, a serviço da igualdade e da justiça, de forma descontraída e de fácil assimilação pelo público.

Jean Caristina

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    Jean Caristina é advogado, Doutor e Mestre em Direito Econômico pela PUC/SP, professor universitário, pesquisador e consultor jurídico. É editor do site IntervaloLegal, que trata das relações jurídicas da publicidade, com ênfase no Direito do Consumidor e no direito constitucional da livre expressão (www.intervalolegal.com.br). Instagram: @jeancaristina