Coluna Paulo Lamim | Status, consumo e auto-extinção

06 de Março de 2017

Estava fazendo uma pesquisa sobre lugares interessantes para conhecer e fui dar uma olhada em informações sobre a Ilha de Páscoa. Aí me deparei com aquela história de que a próspera civilização Rapa Nui que vivia isolada a cerca de 3.700 Km do continente mais próximo, sucumbiu depois de extrair e consumir seus recursos naturais. Supõe-se que o aumento populacional e a obsessão em construir os tais moais levaram a uma pressão cada vez maior sobre o ambiente, levando-os inclusive ao extremo do canibalismo. É uma teoria controversa, mas a analogia com o que pode acontecer em maior escala com o nosso planeta é irresistível.

Se isso de fato ocorreu, os polinésios Rapa Nui certamente não tiveram essa intenção. Assim como nós também não temos nenhuma intenção consciente de acabar com a vida no nosso planeta. No entanto, diversos cientistas adeptos de um ambientalismo mais fervoroso sugerem que a Terra pode estar passando por uma sexta extinção em massa. E isso estaria ocorrendo principalmente por causa da perda de habitat das espécies para as construções, a agricultura e a pecuária, bem como pela poluição e contaminação da água, do solo e do ar.

Na história da terra houve pelo menos cinco períodos de extinção em massa de populações de seres vivos, todas elas causadas por fatores naturais que vão da queda de asteróides a elevação no nível dos oceanos. Vamos admitir que isso viesse a ocorrer novamente, mas desta vez causada pelos fatores mencionados acima. Nesse caso, a grande novidade seria que o ser humano se tornaria a única espécie ao longo dos 4,5 bilhões de anos de história da Terra capaz de destruir a si mesma.

Controvérsias à parte, ninguém tem provas irrefutáveis de que isso possa de fato ocorrer num prazo curto, em termos geológicos, ou mesmo estimar em quanto tempo. O que existe são evidências de que mudanças climáticas significativas estão em curso.

Em meio a incerteza com relação ao nosso futuro - e vejo que essa preocupação povoa somente uma parte das mentes do mundo - prefiro pensar a respeito e ajudar a colocar mais luz sobre o tema. E a minha atenção está na nossa relação com o consumo, pois isso impacta diretamente na extração dos recursos naturais.

Em um modelo econômico e social totalmente orientado à produção e ao consumo, tanto o sucesso individual quanto o empresarial é ainda em boa medida avaliado pela aquisição dos símbolos de status e no acúmulo material e financeiro.

Apesar de algumas escorregadas, como no caso Trump, tenho observado e enfatizado o surgimento gradual de um novo modelo de valores para pessoas e organizações. Esse modelo se orienta na consciência de que somos parte de um todo interdependente, e assim passa a ser possível incluirmos novos elementos como a colaboração, o compartilhamento e a valorização de atributos mais naturais para o ser humano.

De acordo com Geoffrey Miller em seu livro "Darwin vai às compras - Sexo, evolução e consumo", pegamos capacidades adaptativas maravilhosas para a auto-exibição humana, como a linguagem, a inteligência, a gentileza, a criatividade e a beleza, e então esquecemos como utilizá-las para obter sucesso nos relacionamentos e na vida, e dependemos da aquisição de bens e serviços para exibir nossos traços pessoais diante dos outros.

Provavelmente estaremos muito mais seguros e realizados a bordo do nosso planetinha Terra, quando sucesso for sinônimo de consciência e colaboração, e as características e habilidades pessoais forem mais admiráveis do que os hábitos de um exímio consumidor de símbolos de poder e status.

Paulo Lamim