Coluna Paulo Lamim | O sonho é seu

15 de Julho de 2016

Em tempos em que o lema predominante é o do "sonho grande", o que vou dizer aqui pode soar meio estranho ou fora de moda, mas talvez faça sentido para você.

Temos ainda enormes problemas para serem resolvidos no mundo, incluindo desigualdades e injustiças. Mas da perspectiva do consumo, dá para afirmar que a sociedade atual atingiu níveis de conforto bastante elevados quando comparada a períodos anteriores da história.

De acordo com o escritor Alain de Botton em seu livro Status Anxiety, os duzentos anos de civilização ocidental geraram mais riqueza, alimentos, conhecimento científico, bens de consumo e uma maior expectativa de vida.  Só que junto com essa evolução houve também um aumento nos níveis de desejo de status entre cidadãos comuns, o que se traduz num aumento dos níveis de preocupação com o valor, a realização e a renda.

O autor detecta ainda um paradoxo, ao observar que o declínio acentuado na privação de necessidades teria sido acompanhado de um senso contínuo e até maior de privação. Segundo ele, isso acontece porque a nossa noção de um limite adequado para qualquer coisa, por exemplo riqueza e estima, não é formada de maneira independente. Ela provém da comparação da nossa situação com a de um grupo de referência composto pelas pessoas que consideramos nossos iguais.

Penso que existe também uma grande expectativa gerada pelo modelo de sucesso vigente, baseado numa cartilha que prega um percurso a ser seguido desde muito cedo. E se tudo der certo, se obtém depois a satisfação e o reconhecimento, confirmados pela aquisição de diversos símbolos. Essa expectativa faz com que muitas pessoas almejem níveis de realização e de "sucesso" que são inatingíveis para todos, gerando frustração em larga escala.

No outro extremo, há também aqueles que seguiram o modelo a risca e se deram bem na vida, de acordo com esses parâmetros. Seguiram todos os passos, o que inclui muito estudo, engolir sapos, trabalho duro e conquistas pessoais e materiais, normalmente acompanhados do reconhecimento e da admiração social. Mas alguns, ao chegarem lá, sentiram um certo vazio provocado pela ausência de um significado maior para as suas vidas.

Acredito que você observe situações como essas acontecendo ao seu redor, ou talvez sinta um desconforto desse tipo dentro de você mesmo nesse momento. E já se perguntou por que será que isso acontece e é cada vez mais frequente?

A resposta não é simples pois envolve muitos fatores, mas tenho uma suspeita que pode ajudar na reflexão.

Numa sociedade dita meritocrática, onde teoricamente o céu é o limite, existe quase sempre uma defasagem entre tudo o que gostaríamos de ser e quem conseguimos ser realmente. E a causa desse gap é que a maioria das pessoas ainda não está sonhando o seu próprio sonho, e sim um sonho que inventaram para elas perseguirem a todo custo.

Não se trata de sonhar grande ou de sonhar pequeno, mas de sonhar o próprio sonho. Sim, ele é todo seu e de quem mais você quiser colocar nele. Você é livre para escolher.

E para fazer boas escolhas, a chave é olhar para dentro de si mesmo e entrar em contato com as coisas que são mais caras para você. Seus valores, suas crenças, as atividades que gosta de fazer e os seus talentos naturais. É desse conjunto que emerge o seu propósito. E estando perto dele, as decisões importantes da vida ficam fáceis.

Paulo Lamim