Coluna Ozinil Martins | Vidas Secas

16 de Junho de 2021

A miséria causada pela seca extrapola qualquer senso de humanidade.

Imagem de Musse Jereissati Musse Jereissati por Pixabay 

 

O livro Vidas Secas, publicado pela primeira vez em 1938, pode ser considerado o melhor livro da obra de Graciliano Ramos. A história da família de retirantes nordestinos retrata bem a condição de desumanização que a seca promove nos atingidos. A miséria causada pela seca extrapola qualquer senso de humanidade. Expõe, em verdade, problemas que nunca deveriam ter sido vivenciados.

De 1938 até os dias de hoje já se vão 83 anos e a surpresa chega através da sequência de reportagens trazidas pelo Jornal da Record na série que exibe sobre a fome no Brasil em pleno século XXI. São, segundo os dados mostrados, 40 milhões de brasileiros em situação de pobreza absoluta e que, quando muito, fazem uma refeição por dia com os alimentos que têm disponíveis. Não há como não se indignar com as imagens mostradas com a miséria que deveriam envergonhar a cada brasileiro e, principalmente, seus governantes.

Segundo dados da Embrapa, o Brasil ocupa a segunda posição na exportação de grãos, atrás apenas dos Estados Unidos e, já alimenta perto de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo. A previsão, continuando os investimentos que são feitos, é de que, em 2050, 500 milhões de toneladas de grãos sejam exportadas para atender a necessidade provocada pelo crescimento populacional e pelo aumento de consumo da classe média emergente. Pelo aumento da produtividade e o acréscimo de área ocupada o Brasil deverá ocupar a posição de maior produtor de grãos nos próximos anos. Portanto, o país que é o celeiro do mundo, deve perguntar-se – por que não consegue alimentar sua população?

Durante anos a transferência de recursos financeiros para os estados mais flagelados pela seca serviu mais a interesses pessoais de políticos do que à população. O Vale do Jequitinhonha é usado como exemplo da situação desde que acompanho os dramas vivenciados pelas pessoas que lá vivem. Indicadores sociais muito baixos mostram que o problema existe há muito tempo. 

A água que durante muito tempo foi arma usada politicamente para manter as pessoas submissas está sendo substituída pela perfuração de poços feita pelo Exército Brasileiro. Solução existe, pois o nordeste está assentado sobre um imenso lençol de água. O lençol aquático de Gurguéia no Piauí é o terceiro maior do Brasil, logo o problema não é a falta de água, mas a quem interessa manter o povo dependente de carros pipa.

As imagens transmitidas e as entrevistas realizadas mostram a quietude do desespero de um povo que fez da submissão sua forma de viver. A opção entre “matar a fome” ou guardar as sementes de feijão para o plantio da próxima safra, é triste de se ver. A vergonha da senhora comendo na frente do repórter, sua única refeição do dia, apenas com feijão no prato deixa-nos envergonhados por viver em um país em que, os poderes constituídos, não respeitam sua população; população esta que, com seus impostos, sustenta aos bem servidos com auxílio moradia (aos que têm casa), planos de saúde (chegam a envergonhar pelos valores disponíveis), auxílio combustível (alguns rodam o mundo em 1 ano), entre tantos outros auxílios que você e eu pagamos para sermos representados. Ah! Sem considerar os jantares regados a vinhos premiados e lagostas, além de outros acepipes! A fome bancando a luxúria!!! 
 

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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