Coluna Ozinil Martins | As ruas da cidade!

17 de Março de 2021

Sim, as ruas falam e nos contam sua história!

Foto de Pratik Gupta no Pexels

Faço parte de grupos que reverenciam a história de suas cidades. São fotos, estórias, causos que mostram que as cidades têm muito mais a exibir que apenas o que vemos no tempo automatizado em que vivemos. Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis, cidades em que vivi por bons tempos, trazem reminiscências que nos transportam a um passado que vive em cada um de seus habitantes que carregam a sensibilidade para reconhecer as relações que as cidades proporcionam.

Os velhos casarões, as ruas e seus cuidados, as árvores que teimam em resistir ao concreto que as isolam, as mudanças que carregam o que se convencionou chamar de modernidade, os locais que marcaram a infância daqueles que aprenderam a amar suas cidades e respeitar seus valores. As ruas falam!!! Sim, as ruas falam! E, na comparação com o presente que vivemos o que será que dizem?

Se esta rua, esta rua, fosse minha; eu mandava, eu mandava ladrilhar... diz a letra da música, mas basta apenas passear pelas ruas que marcaram sua vida para ouvir e ver as mensagens subjacentes que ficaram armazenadas em sua memória. As brincadeiras infantis e sem malícias vividas por uma geração que, como a minha, começa a se despedir desde plano (se é que há outro); pega-pega, pular carniça, jogar bafo, colecionar figurinhas das balas Zequinha ou de álbuns de jogadores de futebol, jogar (todos os dias) o futebol no campinho ao lado de casa, voltar da aula, almoçar e sair, voltando só no início da noite e completamente sujo, argumentando com a mãe que só lavar os pés e escovar os dentes já seria suficiente, pois não havia se sujado. A bronca da mãe botava tudo em ordem!

As ruas também sentem saudades. Saudades de um tempo sem maldades, em que as pessoas reuniam-se nas calçadas aos finais de tarde para botar as conversas em dia; saudades das visitas nos finais de semana, sem aviso prévio e, sempre sendo recepcionados com um café feito na hora, com todos os acompanhamentos possíveis. Normalmente estas visitas eram feitas com os visitantes usando suas melhores roupas e sempre levando algum presente aos anfitriões. Saudades de um tempo em que as crianças “roubavam” frutas dos quintais dos vizinhos e entendiam que tinham feito uma façanha; saudades dos banhos de chuva, das amizades sinceras, dos namoricos nos portões, da inexistência da maldade e, o único vício a que se dava o direito, eram os cigarros de chocolate.

Hoje prisioneiros de condomínios verticais ou horizontais, limitados em nossos passeios a determinados horários, reféns de carros blindados, sem liberdade sequer para conversar com vizinhos, que na maioria das vezes nem conhecemos, transformamos o digital em usual. A mídia social em nosso divã! Nossos amigos são virtuais, o contato físico torna-se perigoso, pois alguém pode sentir-se melindrado e complicar sua vida, com crianças o melhor é o distanciamento para evitar problemas, enfim a mudança transformou vidas e relações. A você cabe decidir se foi para pior ou melhor. Eu sinto saudade do meu tempo de moleque em que conseguia visualizar um futuro e que este seria moldado pelo meu jeito de ser e pelos esforços dispendidos. E, assim foi!

Hoje, temo que os jovens não tenham a percepção do que querem, até onde podem chegar e do que os espera. Pena, pois o futuro é desenhado no presente! Resta-nos pedir desculpas às novas gerações pelo legado que lhes deixamos. Sim, as ruas falam e nos contam sua história!

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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